O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, falou ontem na sessão online da Conferência de Segurança de Munique sobre as relações entre a Europa e os Estados Unidos. Foi seu primeiro discurso de política externa em evento internacional desde que assumiu o cargo. O líder americano acusou a Rússia de estar enfraquecendo a OTAN e a unidade transatlântica e prometeu fortalecer os valores essenciais e as democracias ocidentais. Mas especialistas russos gostaram do discurso de Biden.
A Rússia não foi o tema nº 1 do discurso de Biden, que deu atenção muito maior aos desafios que a China está lançando ao Ocidente. Mesmo assim, o presidente dos Estados Unidos também se mostrou atento ao confronto com Moscou.
Para Biden, “Putin procura enfraquecer o projeto europeu e a aliança da OTAN, porque é muito mais fácil para o Kremlin intimidar países individuais do que negociar com a comunidade transatlântica unida”. E continuou: “As autoridades russas querem que outras pessoas pensem que nosso sistema é igualmente corrupto ou ainda mais corrupto.”
Mas – estranhamente – o líder americano observou que a cooperação com a Rússia é possível neste caso. “Não devemos voltar ao confronto entre os blocos da Guerra Fria, a rivalidade não deve excluir a interação em questões que dizem respeito a todos nós” – disse Biden. E também disse que foi passo positivo a decisão de Moscou e Washington de estender o Tratado de Redução de Armas Estratégicas (START-3).
Segundo o dirigente americano, a principal tarefa de seu governo hoje é provar que é o sistema político democrático que continua sendo o mais eficaz. “As democracias não acontecem por acaso” – ensinou ele. – “Devemos demonstrar que nosso modelo não é uma relíquia do passado.”
Além disso, anunciou sua intenção de fortalecer os valores e a força das democracias ocidentais, inclusive por meio da modernização das forças militares e da manutenção do apoio militar aos membros europeus da OTAN.
“Em essência, o discurso de Biden tem caráter declarativo” – comenta Vladimir Vasiliev, pesquisador-chefe do Instituto dos EUA e Canadá da Academia Russa de Ciências . – A essência daquela fala é que os Estados Unidos estão voltando à abordagem tradicional da parceria transatlântica, que foi traçada durante a presidência de Barack Obama. O atual líder americano insistiu que a OTAN é a principal pedra angular da segurança do Ocidente e reafirmou que o art. 5º do Tratado de Washington, que define os princípios da defesa coletiva da aliança, é inabalável.
E, a esse respeito, pode-se entender que um dos principais objetivos do discurso de Joe Biden na conferência de Munique é tranquilizar os europeus. Explicar que nos últimos quatro anos turbulentos sob o governo de Trump, o relacionamento entre os EUA e seus aliados tem sido um tanto tenso, mas os europeus devem ignorar o período. Agora, os problemas de segurança e cooperação da Europa Ocidental dentro da OTAN são a mais alta prioridade para a atual liderança política.
Para Vladimir Vasiliev, ficou bem claramente dito que, para Biden a Europa não deveria pensar em autonomia estratégica. E permanecem em vigor todos aqueles princípios fundamentais que foram estabelecidos em 1949, quando a Aliança do Atlântico Norte. Os europeus, portanto, poderiam dormir em paz.
Vasiliev também observou que não menos importante – no mesmo contexto argumentativo – foi a resposta do presidente francês. Emmanuel Macron rejeitou as afirmações dos EUA, de que os norte-americanos continuariam a poder ser considerados fiadores da segurança da Europa. Para o presidente francês, os europeus, em qualquer caso, devem manter a independência estratégica e política.
“Biden cruzou a linha vermelha mais importante em relação à Rússia” – continua Vladimir Vasiliev. – Não me lembro de nenhum caso em que políticos ocidentais, mesmo durante a Guerra Fria, atacaram pessoalmente líderes de outros países.[1] Esta situação, afinal, devolve ao zero a questão da confiança entre nossos países. Em tais condições de hostilidade pessoal, como as que Biden criou, não se pode falar de nenhuma interação pontual. Porque a personalização mostra que Biden não vê Putin como parceiro de negociação.
Claramente o governo Biden já opera em ritmo de ‘mudança de regime’ em relação à Rússia. EUA deixam claro que não querem lidar com Putin e seu governo. Para conseguir ‘contornar’ o problema Rússia, o governo Biden tem de incendiar os sentimentos de russofobia e levá-los a ponto de ebulição; isso feito, recuam um pouco e tentam envolver os aliados europeus, no problema que, se existir, é problema dos EUA. Além disso, EUA também planejam envolver na mesma questão norte-americana os países do espaço pós-soviético, em particular a Ucrânia, a Geórgia e as repúblicas da Ásia Central. Assim, EUA contam com se afastar dos modelos de confronto direto americano-russo. Para conter Moscou, EUA conta com manter a guerra longe dos EUA, circunscrita ao perímetro dos estados vizinhos da Rússia.”*******
[1] Biden, na Conferência de Munique, em tradução do Departamento de Estado: “Putin procura enfraquecer o projeto europeu e nossa Aliança da Otan. Ele quer minar a unidade transatlântica e nossa determinação” [NTs].
Esse artigo foi retirado do site “MK”, do dia 19 de fevereiro de 2021.
Tradução: Coletivo Vila Mandinga
