A montanha-russa está prestes a ficar “divertida”, ou seja, imprevisível, volátil e enervante para aqueles que estão habituados a distorções extremas que “consertam” todas as coisas financeiras.
Os seres humanos têm um talento especial para normalizar os extremos. Habituamo-nos rapidamente a condições que teriam sido intoleráveis antes de os extremos serem normalizados pela habituação e pelo viés das novidades recentes. Em pouco tempo, convencemo-nos de que viver no vermelho, vitamina C e cocaína não só é normal como é saudável.
Durante 15 anos, políticas extremas impulsionaram constantemente a economia e os ricos para o topo. Agora estamos finalmente no topo da montanha-russa, por isso aguentem, a viagem torna-se “divertida” daqui até ao fundo. Despojadas do viés da normalidade, as distorções da hiper financeirização e da fraude apanharam finalmente o sistema financeiro global em 2008. Os ricos recusaram-se a aceitar quaisquer perdas dos seus imensos ganhos no casino fraudulento e, por isso, temos vivido de dívidas e de um “efeito riqueza” criado pela Reserva Federal que enriqueceu os 10% mais ricos à custa dos 90% mais pobres e da estabilidade sistémica.
Esta é a economia dos EUA despojada de artifícios, propaganda e engano. Quer “gostemos” ou não, quer “discordemos” ou não, isso não muda o que está para vir, que é uma completa dissolução de todos os extremos e distorções.
Quando uma economia opta por viver de uma dívida cada vez maior e se recusa a anular o crédito mal parado e a registar as perdas, só há dois futuros possíveis: O Japão seguiu o primeiro caminho em 1989-90, quando a sua bolha de ativos de crédito rebentou e a sua classe rica se recusou a aceitar quaisquer perdas na sua riqueza fantasma inflacionada pela bolha. O resultado líquido foram 35 anos de estagnação, à medida que a vitalidade foi sendo esvaziada da economia e da sociedade japonesas.
O Japão sobrevive com as suas dívidas crescentes, empresas zumbie e imensas participações em ativos estrangeiros, enquanto as suas gerações mais jovens desistiram do casamento, da família e da casa própria, uma vez que tudo isso agora é inacessível. Se esta via para a decadência nacional parece ser o caminho a seguir, tire as vendas e olhe à sua volta: já estamos bem encaminhados nesse sentido.
A outra via é a da inflação elevada, que devora vivos os assalariados e os poupadores. Quando se depende da dívida para financiar o consumo e os gastos dos ricos (gerados pelo “efeito riqueza” induzido pelo banco central), a produtividade estagna e todo esse dinheiro fresco da dívida a entrar no sistema empurra a inflação para uma dinâmica de instabilidade crescente.
O mercado bolsista dos anos 70 revela como a inflação faz a sua magia: as ações sobem e descem durante anos, e todos ficam aliviados quando o mercado regressa aos seus máximos anteriores: sim, estamos de novo bem! Na verdade, não. Ajustados à inflação, os investidores do “compra e mantém” (“buy and hold”) perderam 2/3 do seu capital. (Os apostadores também perderam e acabaram por desistir de ganhar dinheiro a negociar ações).
A terceira alternativa é rebentar a bolha da dívida e dos ativos, apesar dos melhores esforços de todos para normalizar os extremos, e a economia e o mercado entrarem em crash quando toda a dívida for cancelada (written off) / desfeita. O resultado então é uma inversão clássica da bolha de ativos, com as avaliações a regressarem ao ponto de partida anterior à bolha. Esta é uma antevisão do que está para vir:
Vamos passar em revista os extremos que serão desfeitos, quer “aprovemos” a anulação ou não. Aqui está o índice Case-Shiller Housing: a habitação é inacessível para todos, exceto para os ricos, uma distorção maciça que implora ser desfeita.













excelente artigo, uma pena que a estratégia buy e hold perdeu muito poder de compra.
neste caso somente a diversificação salva os investimentos: fii, ações, tesouro direto, …