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O Movimento Paraíso Brasil Homenageia a Geração de Jovens Militantes do Movimento Estudantil da PUC-PR (1977/1985)

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“Nesta quarta-feira (12/03), às 18h, no Espaço Café da Câmara de Vereadores de Curitiba, acontece o lançamento oficial do livro “Espaço Aberto – as memórias dos filhos e filhas da PUC”.

A obra resgata a história do movimento estudantil na PUC-PR entre 1977 e 1985. Venha prestigiar esse importante registro!

O Paraíso Brasil homenageia a geração de jovens militantes do movimento estudantil da PUC-PR com a publicação do artigo do nosso articulista Samuel Gomes para o Livro.”

Uma porta se abriu e nada será como antes: memórias estudantis à guisa de futuro

I

1981, começo o curso de Direito na Católica do Paraná. As salas de aula eram localizadas no corredor direito do andar térreo do primeiro dos três blocos do campus. O segundo era o de ciências exatas e o terceiro o de ciências da saúde. Para se chegar aos dois outros era preciso passar pelo primeiro.

Desde o primeiro dia, sentei-me entre o meio e o fundo da sala. Nem tanto lá, nem tanto cá, pisando de mansinho, que é como se pisa em território desconhecido. A mesma posição que o menino do bairro operário do Capão Raso, ocupava em 1968, na segunda série do primário no Grupo Escolar Professor João Loyola, quando escapou da investida do sistema para lhe afastar do dever de brasileiro. Mas essa é outra, e a mesma história, que já contei no artigo “O Meu Getúlio” – https://bonifacio.net.br/omeugetulio).

Nas primeiras semanas de aula, coisas acadêmicas. Sempre fui de querer saber mais. Daí que perguntasse aos professores o que não entendia ou queria aprofundar. Também nasci com um “não” engasgado na garganta (o rotundo “não” a que nos convoca Brizola). Se não concordava com o que dizia o professor, educada, mas resolutamente, fazia-o saber e me oferecia a ser convencido. Mas incumbia-me bem das tarefas acadêmicas. A primeira prova de Direito Constitucional trouxe amargas notícias para a turma, mas não para mim. Enfim, o que se desenhava até então para mim era tão somente o caminho do estudo do Direito. Mas, sem que percebesse, eu era percebido pelos calouros.

Passadas algumas semanas, um burburinho. Eleição para representante de turma. Eu não tinha planos. Era observador de pássaros. Acho que será escolhida aquela menina ali da primeira fila, bonita, falante, inteligente. Ou aquele garoto, também da primeira fila, articulado, com maneirismos já de jovem advogado. Era nítido que rivalizavam pela simpatia do eleitorado. Votei na moça. Eleição sem registro de candidaturas, os alunos votavam livremente. Abre-se a urna, contam-se os votos. Supresa! Seria eu o representante da turma!

Assim, e sem que ele aventasse, começava para o menino do bairro operário do Capão Raso o movimento estudantil universitário, que, não sabia ele, seria este belo jardim, regado de sonhos e ações da intrepidez da juventude, que seguimos nutrindo com a água abençoada da memória e da gratidão. Nele aprendemos a eterna lição de que vamos precisar de todo mundo para banir do mundo a opressão.

II

Eleito, o múnus, seus ônus e seus bônus. Não fossem os efeitos colaterais do erro trágico da reitoria, que abriram o campo fértil da luta política para o menino do Capão Raso, eu me teria enleado e enlameado em enfadonhos e estéreis micro conflitos envolvendo alunos preguiçosos e barraqueiros e professores enroladores e vaidosos. E não teria me dado bem! O menino do Capão Raso sempre teve olhos vastos para o descortino do horizonte. Mas Deus é bom. Um erro trágico da reitoria foi o jeito sabido que Deus utilizou  para se disfarçar de Destino, lançando-me no turbilhão da luta política.

O erro. A reitoria lacra a porta do primeiro bloco para impedir que os estudantes dos demais cursos, a caminho das salas de aula no segundo e terceiro blocos, continuassem tendo contato com protestos, discursos e encenações teatrais do movimento estudantil de comunicação social.

O curso de Direito se alvoroça diante da humilhação de ter que percorrer um caminho mais longo para chegar às salas de aula, não raro sob chuva. A indignação rastilha entre alunos e professores, representantes de turma, direção acadêmica. A reabertura da porta passa ser questão de honra. É o gatilho que detona insatisfações acumuladas. Greve geral do curso por maior autonomia, com apoio aberto de alguns professores, velado de outros e do diretor Oto Sponholz, que depois seria presidente da OAB, desembargador e presidente do Tribunal de Justiça. Greve tem assembleias, articulações, estratégia, discursos. Pronto, o menino do Capão Raso entra no movimento estudantil!

Maio de 1981, vitoriosa a greve, o menino do Capão Raso vai em busca de si mesmo numa viagem de veleiro de Salvador à África, para viver a experiência de um país socialista, Angola. 40 dias e 40 noites, tempestade em alto mar, vela rasgada, mudança de curso, Sudoeste Sul Africano (hoje Namíbia) ao invés de Angola. Mas isso é outra história.

III

Na volta, de novo o movimento estudantil e a generosidade dos olhos dos estudantes que viam no menino ombros suficientemente largos para suportar maiores responsabilidades – presidente do Diretório Acadêmico de Ciências Jurídicas e Sociais, do Diretório Central dos Estudantes e da União Paranaense dos Estudantes. Sempre com o grupo que surpreendeu a política do Paraná naqueles anos quentes. Como um raio no céu azul, “os independentes da Católica” balançaram as estruturas da sua universidade e, com a legitimidade adquirida, inspiraram um movimento que mostrou força no Congresso da UPE em Maringá em 1983, articulou a oposição nas eleições da UPE no mesmo ano com a chapa Nada será como antes e que, no ano seguinte, sobre o solo cultivado, venceu as eleições com a chapa Ponto de Partida.

E expandiu-se nacionalmente. A primeira participação nacional do grupo deu-se no Conselho Nacional de Entidades de Base – CONEB da UNE de Belo Horizonte. Os independentes da Católica ainda tateavam timidamente o chão quente da luta política nacional. Já no CONEB de Vitória da Conquista – BA o grupo adquiriu visibilidade em articulação com a corrente Caminhando, aliada da Viração (PC do B) na diretoria da UNE. O grupo da Católica acompanhou a dissidência aberta com a tese, a final vitoriosa, de retomada da campanha das Diretas Já e de boicote ao colégio eleitoral (“Nem Maluf, nem Tancredo. Não ao Colégio Eleitoral”). A atuação do grupo no CONEB assegurou ao menino do Capão Raso lugar na chapa da Caminhando para a UNE como candidato a Vice-Presidente para a Região Sul.

IV

A chapa Ponto de Partida foi o resultado da aliança do grupo com correntes petistas, juventude da Igreja, independentes de pequenas faculdades do interior. Parecia impensável que uma composição assim heterogênea, sem tradição e sem recursos  pudesse derrotar a estrutura e a força política consolidada da juventude da frente democrática (PMDB, PCB, PCdoB, MR8), que contava com o apoio de grande número de prefeitos, deputados estaduais e federais e governava o Paraná com um ex-presidente da UPE, José Richa.

As apurações atravessaram a madrugada. Na central eleitoral sediada no Centro Acadêmico Nilo Cairo da Universidade Federal do Paraná, o presidente da UPE, Luiz Henrique Bona Turra, coordenava o recebimento por telefone fixo dos resultados do interior. Os resultados chegavam e o quadro confirmava os prognósticos de vitória da situação. Bona Turra, o candidato a presidente Ciro Burgos e seus companheiros já sorviam o doce sabor da vitória, enquanto nós sofríamos antecipadamente o amargo travo da derrota.

Mas não haviam chegado ainda os resultados de Maringá e região. Os companheiros de chapa da Universidade Estadual de Maringá, Ademir Demarchi, Jairo Carvalho, Reinaldo Dias e Ronaldo Ramos, nos haviam assegurado vitória. Mas a diferença em favor da chapa da situação era grande e parecia difícil de ser superada. A desolação transparecia nos membros da chapa que estavam ainda a esperar o anúncio final. Quase manhã, chegam os resultados de Maringá e região. A vitória fora avassaladora e garantiu a eleição da Ponto de Partida! Abraços, gritos de exultante alegria, pulos incontidos. O impensável acontecera!

Depois de longa travessia, o impulso transformador nascido da luta pela reabertura de uma porta, contra cobrança antecipada de mensalidades, pela ampliação da assistência estudantil e que se expandira para outros campi na estratégia de arregimentar e coordenar forças dispersas no estado (chapa Nada Será Como Antes) chegava com a vitória da chapa Ponto de Partida ao comando da entidade histórica dos estudantes paranaenses.

Agora era hora de o grupo da Católica e seus aliados mostrarem ao Paraná seu talento e seu valor. Fazer valer o esforço dispendido, honrar a confiança e satisfazer as enormes expectativas. Não seria fácil ao mesmo tempo olhar para dentro, pelo muito ainda a fazer na Católica, e mobilizar as universidades de todo o Estado por causas comuns.

Teria que ser um olho no gato e outro no peixe. Para corresponder às promessas da campanha de que os níveis de mobilização da Católica seriam expandidos para todo o Estado precisávamos manter a qualidade do movimento na nossa universidade. A legitimidade vem do exemplo. A força convocatória da UPE teria que vir do exemplo de casa, a Católica. E quase perdemos a mão.

V

Mas não perdemos. Fomos exemplo para as demais universidades, como registrou em artigo o companheiro Reginaldo Dias, hoje professor de história da Universidade de Maringá:

O   DCE   passou   a   articular   intensa propaganda   das   lutas   que   então   se realizavam em outras regiões do estado. Exemplo:  na Universidade Católica do Paraná, os estudantes  haviam  tomado  a reitoria  durante  uma  paralisação  contra os    aumentos. (https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/14697/7738)

Não foi fácil e foi arriscado, mas, como de praxe, o grupo da PUC apostou na luta de massas e acertou na mosca.  Junho de 1984. A força política da memorável vitória do boicote que pôs fim ao pagamento semestral antecipado e à vista das mensalidades em junho/julho de 1983, já se havia esfumado. O boicote fora lindo, forte, vitorioso. Não havia internet, nos sentarmos às dezenas na entrada do corredor que dava à agência do Bradesco  e aquilo bastou para fechar a torneira do dinheiro. Mas isso já era passado. Política é luta para a frente. É movimento. O Diretório Central dos Estudantes – DCE, meu sucessor Chiquinho na presidência, não havia feito o dever de casa. A labuta, o esquenta, sala por sala, cartazes, reunião, assembleias. Numa palavra, campanha.

Estávamos à beira de um desastre. Já era segunda semana de junho. Mais uma semana de aula; depois provas. Em seguida, férias, desmobilização. A pegada do nosso grupo sempre a capacidade de mobilização. Não éramos quadros políticos, quadrões, capas pretas, treinados nas correntes de esquerda. Tínhamos mesmo é ligação com a massa. Não ter mobilização na Católica seria uma vergonha para a nossa gestão na UPE. A oposição, PC do B, MR8, PCB, Juventude do MDB, cairia matando, sem dó.

Que fazer? – como Lenin, pensamos.

Era a hora do gênio. O movimento de massas segue o espírito do tempo. A vida vem em ondas como o mar. Na PUC de São Paulo os estudantes ocuparam a Reitoria na semana anterior. Resolvemos fazer um teste. Chamamos um Dia de Luta! Assim, no seco! Não era um blefe, nem um fazer de conta. Era dar a ignição para ver se o motor, parado há algum tempo, acionava. E seria o que tivesse que ser. Se fosse fraco o Dia de Luta, pois bem, teríamos cumprido o dever de convocar os estudantes.

Mas, e se a mobilização resultasse forte, massiva? Se a faísca inflamasse e o motor funcionasse? Aí sim é que teríamos um problema ainda maior. O que fazer com a energia despertada, se em seguida viria a semana de provas que antecedia o final do semestre, quando a meninada iria para a casa da mamãe e do papai e o campus ficaria às traças? Como fazer movimento estudantil num campus vazio?

 A necessidade nos impunha o heroísmo. “Sapo não pula por boniteza, mas porém por percisão” (A hora e vez de Augusto Matraga, Guimarães Rosa). Somente um ato grandioso, simbólico, em si mesmo representativo da disposição de luta, um ato radical, poderia reter a energia reunida no dia de luta e direcioná-la para a obtenção dos resultados desejados. Um ato de força. “O peso da pedra eu comparo à força do arremesso.” (Sidónio Muralha). Precisávamos um ato heroico para nos salvar do opróbio (sim, estávamos também preocupados com a nossa pele e o nosso pelo, senhores da oposição, o confessamos hoje, 40 anos depois).

Pois o que era para ser, foi. Os estudantes atenderam ao chamado da liderança. A mobilização veio forte e resultou na majestosa e inesquecível ocupação da Reitoria, e depois de todo o campus, por mais de vinte dias no gélido julho curitibano. Na verdade, de quase todo o campus. Magnânimos, deixamos que a reitoria acomodasse no ginásio de esportes o seu estupefato gabinete de crise. O movimento estudantil estava vivo. A faísca encandeou. Ainda operava sua expansão o big bang de 1981, que abrira a porta da consciência do menino do Capão Raso para a realidade de que é preciso juntar todo mundo para banir do mundo a opressão.

VI

Não há como falar da ocupação na Católica sem botar fim numa lenda, a que o menino do Capão Raso manteve o reitor em cárcere privado.

Os fatos. Eu era presidente da UPE. Chiquinho, o presidente do DCE. O reitor era Osvaldo Arns, circunspecto e respeitado professor, irmão do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns e de Zilda Arns, pai do senador Flávio Arns. Homem afável, de bom diálogo, mas com diminuto poder real. Função mais que tudo honorífica. Quem mandava eram irmãos maristas, com o enérgico irmão Paulo Wodonos no comando.

Ainda assim, reitor é reitor. É símbolo. Daí que na tarde do primeiro dia da ocupação e por exigência dos alunos, o reitor veio ao prédio ocupado ouvir as reivindicações do movimento: nenhum aumento nas mensalidades, ampliação da assistência estudantil para que nenhum aluno deixasse de estudar por falta de condição financeira e construção de um restaurante universitário.

Como presidente da UPE, era natural que eu participasse da reunião de negociação. Mas, por estratégia, fiquei do lado de fora, com a massa de estudantes que se aglomerava à espera dos resultados da reunião. Eu sabia que os resultados seriam pífios e poderiam esvaziar o movimento. A estratégia da reitoria era previsível. Tergiversar, burocratizar as soluções, ganhar tempo para esvaziar o movimento. A luta seria de longo curso. Somente objetivos audaciosos, mas factíveis, manteriam a mobilização.

Finda a reunião, representantes da reitoria e da comissão de estudantes anunciaram como vitória dos estudantes uma futura e incerta convocação dos conselhos superiores da universidade para analisar as reivindicações do movimento. Evidente protelação.

Era hora de ação. Aumentar a pressão para manter o movimento. Tomei a palavra e fiz um discurso enérgico em que informava à reitoria que os estudantes manteriam a ocupação à espera da resposta às reivindicações. Aplausos entusiasmados expressaram a unânime aprovação das minhas palavras.

Aí o impensável sucede. O velho reitor desce as escadas do pequeno prédio e começa a cruzar o saguão em direção à saída. Eu acompanho à distância o tranquilo caminhar. De repente, esbaforidas alunas dos anos iniciais cercam o reitor, gesticulando freneticamente com as mãos muito próximas do rosto dele. De onde estava, eu não podia ouvir o que diziam. Aproximei-me e perguntei calmamente o que se passava. Elas então se saíram com essa:

“Samuel, ele não pode sair! Ele é a única coisa que nós temos!”

Reuni imediatamente o comando da ocupação:

“Não vamos gastar tempo com análises inúteis. É claro que isso é uma completa insanidade. Mas temos duas saídas. Liberamos o reitor e acaba o movimento, porque a base radicalizada vai se achar desrespeitada e manipulada por nós e a unidade interna desaparece. Ou mantemos o reitor aqui até que a massa faça o aprendizado e perceba o erro que está cometendo.”

Tomada a decisão pela segunda alternativa, quem, leitor, você acha que foi incumbido de comunicar ao reitor que ele não sairia naquele momento do prédio ocupado? Pois é. Lá foi o menino do Capão Raso:

“Reitor, nós pedimos a gentileza de que o senhor volte para ao seu gabinete. O movimento não está autorizando a sua saída no momento.”

Surpreso, como se há de imaginar, o afável reitor retirou-se mansamente ao seu gabinete de Magnífico.

Escurece. Pelas nove horas da noite, as luzes se apagam e pode-se ver na semiescuridão que o prédio está cercado pelo Batalhão de Choque da Polícia Militar do Paraná.

Escolhido como interlocutor, lá fui:

“Comandante, e daí?”

O capitão do Choque:

“Daí que vocês liberam o reitor, senão nós vamos entrar.”

Volto ao prédio da reitoria, reúno os estudantes e pedagocicamente teatralizo com uma uma pergunta retórica:

“Pessoal, é o seguinte. Eles disseram pra gente liberar o reitor, senão eles vão entrar e descer o cacete. O que a gente faz? Libera reitor ou enfrentamos esses caras na porrada?”

Nem bem terminei e a resposta clamou uníssona e ruidosa:

“Libera o reitor! Libera o reitor!”

Esses os fatos. O líder nem sempre faz o que quer, mas o que precisa ser feito. Respeitamos o nível de consciência da base, ficamos ao seu lado até que aprendesse e salvamos o movimento. A ocupação durou por volta de 23 dias. Assembleias matinais massivas, cursos, oficinas de artes, teatro, música. Cuidamos do campus e dos prédios, fizemos rondas noturnas. No final, negociação coordenada pelo governo do Estado, à frente o Secretário de Estado Antenor Bonfim, fez com que as reivindicações fossem parcialmente atendidas e o campus desocupado. Depois, a reitoria partiu para a vindita. Ameaça de processo administrativo e judicial por supostos danos ao patrimônio. Comissão da OAB intercedeu e bloqueou a coisa.

Estes os fatos. A lenda de que eu mantive o reitor em cárcere privado me rendeu o indeferimento da matrícula no semestre seguinte. A mim e ao Chiquinho. Expulsão branca. Só pena, sem julgamento. A reitoria recuou quando a Câmara Municipal aprovou moção no sentido que de aquilo não cabia e que Curitiba não aceitava a violência.

Mãe protetora, a sua cidade natal garantiu ao menino do Capão Raso concluir o curso de Direito. Orador da turma, o Teatro Guaíra lotado ouviu-o dizer que o homem não pode ser redondo, mas ter lado, o lado da Justiça. Presentes, os pais que lhe proporcionaram as primeiras letras nos banquinhos de madeira da escolinha improvisada na casa simples do bairro operário, sorriram aprovação.

VII

Um reconhecimento necessário. Na formatura, um colega policial militar me diz que o Choque ficou de plantão os 23 dias da ocupação. Esperava a ordem de invasão. A ordem nunca veio. O governador José Richa resistiu à pressão da Cúria e da Reitoria para por fim ao movimento pela força.

Richa fora presidente da UPE e reformou a sede histórica para devolvê-la em festa aos meninos da frente democrática, na posse da diretoria, em 1984. Mas o grupo da Católica e seus aliados venceram a eleição e não houve aquela festa. Houve outra, com a CUT, embaixador da Nicarágua e outros convidados ilustres. Se fosse hoje, nós teríamos insistido com o governador para que fosse à posse. Mas a nossa cabeça era outra.

Outro reconhecimento. Os companheiros da juventude da frente democrática atuaram junto ao seu governo em favor dos estudantes da Católica. Na hora das grandes lutas, as diferenças se esvaem.

Esvaíram-se quando os estudantes da Federal se encontraram na frente da Rodoviária Velha. As passeatas unidas seguiram até a Gazeta do Povo para denunciar o tratamento do jornal à ocupação. Dali à Boca Maldita e à sede do MEC. A famosa foto de um policial militar e seu capacete com a bandeira da UPE ao fundo, exposta no Bife Sujo, foi tirada naquele momento.

Esvaíram-se no boicote à semestralidade, em 1983. O presidente da UPE, Bona Turra, a quem fazíamos oposição, agiu para que a polícia não ousassse invadir o campus, como pedia a reitoria. As negociações entre estudantes e reitoria, realizadas no gabinete do Secretário de Segurança, puseram fim ao pagamento semestral à vista das mensalidades.

Esvaíram-se quando, ginásio de esportes lotado, o Menestrel das Alagoas nos iluminou. Antes, Orides e eu com ele, visitamos o último preso político do país, o jornalista Juvêncio Mazzarolo.

VIII

Só sei que foi assim. 1981, uma porta se abriu na Católica. Desde então, nada será como antes. Venho buscando viver a lição que já sabemos de cor, só nos resta aprender: vamos precisar de todo mundo para banir do mundo a opressão!

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