O que ganhou o Banco Central elevando a taxa Selic para 13,25% no fim do ano passado (e anunciar mais um ponto neste mês) sob o pretexto de combater a inflação?
Ganhou um salto abrupto do IPCA (inflação oficial) para 1,48% em fevereiro, embora não imprevisível, índice mensal recorde em 22 anos.
Repete-se o que tenho afirmado recorrentemente: a Selic puxa a inflação para cima, em lugar de estabilizá-la ou baixá-la.
É que ela é anunciada previamente em intervalos de 45 dias em 45 dias, e como não só o mercado financeiro, mas praticamente toda a economia está indexada a ela, os empresários tratam de ajustar seus preços de forma preventiva para alinhar-se a seu nível, de forma antecipada.
Assim aconteceu especialmente em fevereiro, depois que, em dezembro, o Banco Central começou a elevar essa taxa hiperinflacionária.
Aguardem, porque continuará acontecendo.
O fetiche de que o aumento da taxa básica de juros reduz ou estabiliza os preços só não é maior do que o uso de um instrumento tão extravagante como a própria Selic como taxa básica de juros.
De fato, sendo exclusiva do Brasil, ela sofre a influência direta do mercado através do relatório Focus, de grandes bancos e corretoras, que têm interesse direto em sua elevação.
Com isso, toda a sociedade perde, menos os rentistas, que se cevam dos juros extravagantes oferecidos pelo Bacen no mercado financeiro.
Para isso, migram do setor produtivo para o setor especulativo, retirando dinheiro da economia física em favor da economia virtual, reduzindo portanto o potencial de produção do País, inclusive de alimentos, e favorecendo, também por esse caminho, o processo inflacionário.
Vi ontem uma entrevista da ministra Simone Tebet, pela Globo News, com Miriam Leitão.
A ministra é extremamente comunicativa, fala fluentemente sobre os desafios que se apresentam ao Brasil e não contorna perguntas inconvenientes.
Infelizmente, não sabe economia.
Por exemplo, ela acha, como os economistas neoliberais e conservadores que a cercam, que taxa de juros elevada (Selic) baixa ou estabiliza a inflação.
Esse é o principal fetiche que predomina em toda a economia, pois a Selic tornou-se o indexador tanto do mercado financeiro quanto do mercado físico.
Quando ela aumenta tudo aumenta, de “automóveis a casas”, conforme uma manchete de jornal que vi há poucos dias.
Além disso, ela é a base da “moeda financeira”, a moeda dos milionários, que rende juros ao dia sobre milhões deixados à noite nos bancos.
Não é só isso.
Como se trata de um indexador geral, a Selic indexa também a Dívida Pública brasileira, cujo serviço anual, só de juros, ultrapassa R$ 1 trilhão.
Como o Governo é obrigado a pagar por esse serviço, a única forma de equilibrar o orçamento dentro do “arcabouço fiscal” é pelos cortes adicionais nos gastos públicos discricionários.
E é justamente isso que a ministra anuncia para os próximos anos.
Ela chama esses cortes adicionais de uma “janela de oportunidades” que o Brasil, se for fiscalmente responsável, tem pela frente, embora isso represente um esforço que necessariamente custará caro ao povo.
Então, preparem-se.
Vem aí mais cortes no Bolsa Família e no Benefício de Prestação Continuada, menores reajustes do salário-mínimo, menos investimentos públicos em infraestrutura e estrangulamento do Estado Social.
Simone Tebet acha que o Brasil tem que planejar para os próximos 25 anos.
Se for dentro dos marcos da atual intitucionalidade – taxa de juros estratosféricas e equilíbrio orçamentário -, será o planejamento do desastre incontornável.
Esses dois fetiches são justamente o que tem travado a economia, praticamente, desde a Constituição de 1988, acentuado pelo Governo fiscalista de Fernando Henrique Cardoso.
A ministra, além disso, parece não ter se apercebido do que nos espera em termos fiscais na era dos desastres climáticos extremos.
Os prejuízos materiais causados por esses desastres para as famílias e o setor público pressionarão inevitavelmente a demanda global da economia (chamo demanda adicional daí decorrente de “demanda de reposição”) e, caso não haja contrapartida de produção e de oferta, gerarão uma inflação estrutural permanente, além de estagnação ou recessão.
Contudo, como aumentar consistentemente a produção com uma taxa de juros nos níveis da Selic, e com a contração do investimento público, desestimuladoras de investimentos?
Escrevi recentemente que estamos sob o imperativo do crescimento econômico a altas taxas, pois, do contrário, não haverá equilíbrio dinâmico entre procura e oferta no mercado real, o que é determinante para a estabilidade dos preços numa era de desastres climáticos.
Voltemos, porém, ao conteúdo formal da Selic.
Entre os elementos que a compõem está uma avaliação da atividade produtiva e do nível do emprego, eventualmente “sinalizando” a necessidade de aumentar a taxa de juros para desaquecer a economia e combater a inflação.
É um contracenso.
Para combater a inflação de demanda é preciso que a oferta cresça, o que só se consegue com o aumento da atividade produtiva.
Não com infindáveis cortes na própria demanda!