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Vale Tudo (e talvez até mais um pouco)

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Imagina que você está em um cassino famoso e dispõe de algumas fichas para jogar.

O cassino, apesar da fama, não a conquistou por um motivo positivo.

Pelo contrário, há anos, décadas, ouvem-se rumores de que as roletas são viciadas, os funcionários são corruptos e as máquinas, adulteradas.

Uma pequena parcela dos jogadores, que por coincidência são amigos do dono do cassino e do gerente, costuma ganhar.

De vez em quando, um jogador fora desse círculo leva uma bolada, mas é algo raro.

Com o passar do tempo, a desconfiança e a insatisfação crescem, e o dono do cassino, para apaziguar os ânimos, troca o gerente, os funcionários e substitui as máquinas.

No entanto, a mesma lógica se mantém: os amigos do dono continuam vencendo com mais frequência, enquanto os demais seguem perdendo, salvo raras exceções, que viram casos de marketing e lançam livros contando suas histórias de sucesso improvável.

Entre os perdedores, alguns se revoltam e começam a planejar um esquema para roubar o cassino.

Após essa breve introdução, convido o leitor a refletir sobre a seguinte questão:
– Sendo você um dos perdedores, aceitaria jogar honestamente nesse cassino, mesmo sabendo que ele é abertamente corrupto e que praticamente só ganham os mesmos?

Essa pergunta carrega, de forma implícita, um dilema ético que acompanha o brasileiro desde o período colonial e serviu de substrato para a construção de uma das obras mais icônicas da teledramaturgia nacional: Vale Tudo.

Lançada em 1988, porém mais atual do que nunca, tanto que valerá um remake, a novela questiona, de maneira sutil e provocativa, até que ponto vale a pena ser honesto em um país cujas estruturas são corrompidas e viciadas.

Seus personagens parecem meticulosamente pensados para representar arquétipos históricos desse jogo de contradições nacional.

Odete Roitman é a personificação da elite brasileira predatória e parasitária. Ela despreza aqueles que sustentam seu conforto material e simbólico.

Raquel, por outro lado, é a oposição: pobre, mas virtuosa, acredita no trabalho honesto e na força do mérito individual, ignorando as falhas sistêmicas.

Já sua filha, Maria de Fátima, representa o Brasil jovem, urbano e cínico, descrente do discurso de resignação e esperança. Para ela, se o jogo é sujo, a melhor estratégia é jogar de acordo com as mesmas regras, ou se aliar a quem detém o poder.

Com essas três personagens centrais, a novela sintetiza o Brasil.

Maria de Fátima é aquela que, como os perdedores revoltados do cassino, decide jogar conforme as regras do sistema para tentar vencer.

Sua astúcia a leva a se aproximar da elite, que, ao perceber seu potencial, decide recrutá-la em vez de eliminá-la.

No entanto, ela nunca é plenamente aceita: seu passado marginalizado permanece uma mancha indissolúvel.

Assim, se forma uma classe intermediária, oscilando entre a traição e a honestidade, entre o jeitinho e o peso da consciência.

Maria de Fátima, influenciada pela pobreza, inveja e revolta, age de maneira imoral, mas tem plena consciência de seus atos, da qual busca o tempo todo racionalizar.

Sua crueldade chega a ser gratuita, levando a prejudicar até aqueles que nada têm a ver com sua condição, como a sua própria mãe.

Raquel, por sua vez, extrai felicidade das pequenas coisas e transmite essa filosofia de vida.

Ao longo de 204 capítulos, Vale Tudo vai desenvolvendo magistralmente esse dilema entre honestidade e corrupção.

Seu desfecho é um misto de esperança e desilusão.

Maria de Fátima aparentemente seria punida por seus atos, mas foge para o exterior e realiza o seu sonho de ascensão social, por meio de um golpe, como o esperado.

Raquel vence pelo esforço próprio, abrindo uma rede de restaurantes nos Estados Unidos.

Marco Aurélio, o corrupto, foge do Brasil e com o seu icônico gesto de “banana” dentro do jatinho ele simboliza a impunidade tupiniquim, quase sempre vitoriosa.

Mas o final mais emblemático é o de Odete Roitman.

Assassinada a tiros alguns capítulos antes do último episódio, sua morte só é esclarecida no derradeiro capítulo.

A grande vilã era odiada por muitos e sua morte parecia um ato de justiça, mas o desfecho revela uma ironia cruel: ela é morta por engano, vítima de um crime passional cometido por Leila, esposa de seu amante, e não por alguém diretamente prejudicado por sua ganância.

A mensagem final é poderosa: até mesmo aqueles que se consideram protegidos da violência e do caos social, muitas vezes impulsionados por suas próprias ações, não são a prova de balas.

No fim das contas, ninguém está acima do bem e do mal.

Nem mesmo a elite econômica brasileira.

E ao contrário das narrativas tradicionais, o final dos personagens em Vale Tudo não deixa uma lição de moral.

Não importa se você faz o ‘certo’ ou o ‘errado’, o seu desfecho pode ser qualquer um, sobretudo quando se está na terra da impunidade.

As coisas simplesmente são, movem aos sabores das estruturas já existentes, do acaso e, às vezes, bem às vezes, até do mérito pessoal.

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