Palácio do Itamaraty.Créditos: Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Em 27 de março de 1957, o deputado Carlos Lacerda leu na tribuna da Câmara telegrama secreto da Embaixada do Brasil em Buenos Aires, relatando fake news sobre negócios com pinho.
A negociata, supostamente, envolveria o vice-presidente João Goulart.
O PTB – o partido de Jango – reagiu com firmeza, pedindo a cassação do mandato de Lacerda.
O mesmo pedido foi apresentado à mesa da Câmara dos Deputados pelo Procurador-Geral da Justiça Militar.
Lacerda cometera crime contra a segurança nacional ao tornar público texto que fora transmitido de forma cifrada, o que ameaçava o sigilo das comunicações da rede diplomática brasileira e também o das adidâncias militares.
Homem incapaz de guardar rancores, reconciliou-se com Lacerda em 1967 para a formação da Frente Ampla.
Em seu governo, só nomeou pessoas ilustres para o Itamaraty: San Thiago Dantas, o arquiteto da Política Externa Independente; Affonso Arinos, seu iniciador no governo Jânio Quadros; Hermes Lima, notável jurista e político socialista; e Araújo Castro, diplomata de carreira e expoente da diplomacia multilateral.
Eram outros tempos. Após a derrubada de Jango, o Itamaraty executou, sob pressão militar, uma política externa regressista, orientada pelo anticomunismo.
O Brasil passou a apoiar o colonialismo de Portugal na África, o imperialismo americano no Vietnã e na República Dominicana, o racismo do apartheid na África do Sul.
Só uma década depois, no Governo Geisel, foram retomados alguns dos princípios e valores da política externa de Jango, com o reconhecimento diplomático da República Popular da China e dos países africanos de língua portuguesa.
A partir de então, sobressaiu uma nova geração de diplomatas. Nomes como Samuel Pinheiro Guimarães, Ítalo Zappa, Jório Dauster ou Celso Amorim, todos jovens diplomatas durante o governo João Goulart, ascenderam na estrutura do Itamaraty e contribuíram para a formulação de uma política externa universalista, inspirada na Política Externa Independente de Jango.
É difícil compreender por que, em seu terceiro mandato, o presidente Lula, em perigosa concessão ao corporativismo, optou por manter, em importantes postos no exterior, nomes totalmente identificados com o bolsonarismo e a extrema direita, quando não envolvidos em episódios obscuros, que deslustram a melhor tradição da diplomacia brasileira.
Otávio Henrique Dias Garcia Cortes, embaixador no Japão desde 2022, pertence a uma linhagem de extremistas de direita.
Seu pai, o embaixador Marcos Henrique Camillo Cortes, foi o primeiro chefe do Centro de Informações do Exterior, o famigerado CIEX, criado em 1966 por Pio Corrêa e responsável pela morte de Rubens Paiva.
Em abril de 1976, quando servia na embaixada em Buenos Aires, teria transmitido à Marinha argentina a autorização do SNI para o assassinato do pianista Tenório Júnior, que acompanhava Vinícius de Moraes em excursão ao Prata.
O avô, o general Geraldo de Menezes Cortes, envolveu-se, em novembro de 1955, na tentativa de golpe contra a posse de Juscelino e Jango, vencedores indiscutíveis do pleito presidencial.
Antes, sendo o chefe de polícia do Rio de Janeiro, proibira o filme “Rio, 40 graus”, obra prima do cinema brasileiro, alegando que a temperatura no Rio nunca passara de 39,6º C…
Diante da forte reação da opinião pública, inventou que Nelson Pereira dos Santos, o diretor, era um agente do serviço secreto tcheco, o qual teria planejado e financiado a produção do filme.
Bolsonaro nomeou Otávio Cortes embaixador no Japão como prêmio por sua atuação na Bolívia.
No país andino, Cortes teve participação direta no golpe de 2019 contra o ex-presidente e líder indígena Evo Morales.
Esteve presente, assim como o chefe da estação da CIA em La Paz, à reunião na Universidade Católica na qual Jeanine Áñez, uma desconhecida senadora, foi escolhida para suceder a Morales.
Áñez está presa desde 2021, acusada de conspiração, sedição e terrorismo.
Durante o golpe, houve dezenas de mortos, centenas de feridos e mais de 1.500 pessoas ilegalmente detidas.
Além de golpista, Cortes pratica, sem qualquer disfarce, a imoralidade administrativa.
Mantém a esposa sob a sua chefia imediata, falta grave punível com suspensão de até 90 dias.
Nomeou-a chefe da chancelaria, ato que tipifica sua responsabilidade, como Chefe de Posto, por essa flagrante irregularidade.
Somados, os salários do casal Cortes, digo Midas, aproximam-se dos cinquenta mil dólares mensais!
Cada ano que passam no Japão acumulam mais de meio milhão dólares.
O Governo Lula III precisa livrar-se sem demora dessa quinta coluna bolsonarista.
O que não faltam no Itamaraty são diplomatas qualificados, prontos para servir ao país com lealdade às suas instituições democráticas e plena observância dos princípios constitucionais que devem reger a política externa brasileira ou a administração pública.
Golpistas – como Otávio Cortes – merecem o mesmo tratamento de seus companheiros de viagem do 8 de janeiro.
O governo Lula podia começar no Itamaraty.
O multilateralismo exige conduta, e a conduta equilíbrio para uma boa diplomacia.
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.