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Geopolíticas para o século 21: China retoma liderança civilizacional

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Pedro Pinho
Pedro Pinho
Administrador aposentado.
Bandeira da China (Foto: J.C.Cardoso)

Jacques Gernet (1921-2018), sinologista francês, professor da Universidade Paris VII, escreveu, em 1972, Le Monde Chinois (traduzido por José Manuel da Silveira Lopes, para Edições Cosmos, Lisboa, 1974), onde se lê: “A importância da China faz-se notar tanto no passado como no presente; a civilização chinesa foi a inspiradora de uma larga parcela da humanidade, dando-lhe a sua escrita, as suas técnicas, as suas concepções do homem e do mundo e as suas instituições”.

E o “Ocidente que, sem o saber, a imitou até nossos dias, que conhece mal tudo quanto deve à China e sem o qual não seria aquilo que hoje é”.

Este início da civilização às margens e no estuário do rio Amarelo, onde hoje se encontram as províncias de Shandong, Hebei e Tianjin, tem aspectos míticos no alvorecer de sua História, mas é certo que, em 800 a.C., tem início o declínio da realeza Zhou, época conhecida como das Primaveras e Outonos, decompondo uma concepção de criação do mundo e da ordem política até então vigente.

No Ocidente, Roma ruirá bem após, em 476 d.C. O melhor período civilizacional romano ocorreu durante a República, de 509 a.C. a 27 a.C., quando as Assembleias exerciam: a função executiva pelo Cônsul ou Pretor; as eleitorais, para escolha do executivo; a legislativa e a judiciária, todas posteriormente unificadas na figura do Imperador, quando Roma, após ter atingido o ápice com César Augusto, entra em decadência com Tibério, Calígula, Claudio, Nero e sucessores, e, com o domínio do cristianismo, substitui o homem por um Deus único e todo poderoso.

Na China ocorre rigorosamente o oposto, nas palavras da filósofa francesa Anne Cheng (1955) se dá “a aposta de Confúcio (551-479 a.C.) no homem”.

“Mais que um homem ou um pensador, e até mais que uma escola de pensamento, Confúcio representa verdadeiro fenômeno cultural que se confunde com o destino de toda civilização chinesa.

Este fenômeno, surgido no século V a.C., manteve-se durante 2.500 anos e perdura ainda hoje, após passar por várias transformações e sobreviver a muitas vicissitudes”.

Como ocorreu com Buda, Sócrates, Cristo ou Marx, com Confúcio produz-se um salto qualitativo, a “reflexão do homem sobre o homem” (Anne Cheng, História do Pensamento Chinês, tradução do original francês de 1997 por Gentil Avelino Titton, para Editora Vozes, Petrópolis, 2008).


O progresso chinês e o retrocesso europeu

O período que a história ocidental denomina Idade Média foi de extraordinário desenvolvimento civilizacional chinês.

Iniciemos pela fonte primária de energia. Foi graças ao domínio do fogo que o homo sapiens saiu da África e se espalhou pelo mundo.

Foi, indubitavelmente, incorporando o uso das águas dos rios, indiretamente do Sol, do vento, além de seu próprio corpo, desde sempre, para procura e coleta de alimento.

No período de 750 a 1.100 da Era Cristã, enquanto a Europa queimava florestas, a China explorava a biomassa e o carvão mineral, como fontes primárias de energia, o que a Europa só viria usar por volta de 1750, com a Revolução Industrial, e, quanto à biomassa, apenas no século 20.

Ainda hoje, as reservas de carvão mineral da China estão entre as três maiores do planeta, sendo as maiores as computadas nos EUA e na Rússia.

Quanto à energia da biomassa, ainda disputa um pequeno espaço entre as fontes de energia, tendo destaque no Brasil pela ação do Movimento dos Sem-Terra (MST), que a adota intensivamente.

Em 2023, conforme a Agência Internacional de Energia (AIE), a biomassa representava 9,5% da produção mundial de energia e 25,1% do Brasil.

As energias fósseis supriam 80,3% das necessidades mundiais e 52,7% das brasileiras, representando o carvão mineral, respectivamente, 27,2% e 5%.

Na China, o carvão mineral é a principal fonte primária de energia, representando 56,6% do consumo.

De acordo com o 12º Plano Quinquenal para o Desenvolvimento de Energias Renováveis, estão previstos 35% de energias não fósseis serem atingidos até 2030.

Pelos séculos 14 ao 16, a China passou a ser visitada pelos europeus, sendo mais conhecidos a família Polo, de Veneza, nos “Trecentos”, e os jesuítas, no fim deste período, responsáveis pela nomeação do Mestre Kong (Kong Fu Zi) para Confúcio.

Foi graças à tecnologia chinesa – bússola, carrinho de mão, papel, pólvora, seda e sinos – que a Europa pôde atravessar o Oceano Atlântico, saquear as Américas, promover o que talvez seja o maior genocídio da história, se enriquecer e sair dos limites do seu Continente, dominando o mundo e construindo uma História.

Enquanto a Europa substituía a servidão medieval pela escravidão racial, não se conhece um só período da China Confuciana em que houvesse o trabalho escravo.

O chinês sempre foi um povo pacífico, agricultor, observador da natureza, apenas preocupado com as agressões dos estrangeiros, os séculos de humilhações.

O domínio europeu, colonizador, pode ser demonstrado pelas línguas faladas no mundo.

Os três idiomas oficiais, ou também proferidos como oficial junto a outro, mais falados pelo mundo são o inglês, em 68 países, ainda que majoritariamente ilhas; o francês, em 29; e o espanhol, em 21 Estados. Apenas o árabe, do Sul Global, se inclui nesta estatística, falado por 22 nações, quase todas do Oriente Médio e norte da África.

A título de comparação o português, também colonizador, é falado em 8 países, e o russo, de grande influência no mundo eslavo, além de ter sido o idioma da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 11 Estados, como oficial ou por maioria da população.

O mandarim é falado na China.

E em Cingapura, como dos quatro idiomas oficiais: inglês, tâmil, malaio e mandarim. Na península da Malásia pela grande quantidade de chineses que lá habitam, embora sejam o inglês, junto com o malaio, considerados idiomas oficiais do País.

Na República Popular da China, além do mandarim são falados muitos dialetos tais como: o cantonês, falado em Cantão, Hong Kong e Macau; o xangainês, em Xangai e arredores; o sichuanês, no centro do país, na região de Sichuan e Chongqing; o hakka, em Fujian, Ainão, Jiangxi, Hong Kong, Taiwan e sudeste do país; o jin, em Shanxi, Hebei, Henan e Shaanxi, e na área central da Mongólia Interior; e o gan, no sudeste da China, e região mais interior.

Como se observa, o idioma falado na China só é oficial pela grande quantidade de chineses que foram para estes dois países, por atos colonizadores dos ingleses, e lá tiveram suas descendências, que foram significativamente numerosas.

Não se encontra o interesse colonizador por parte dos chineses em qualquer época da História do Mundo, diferentemente dos Europeus Ocidentais e de suas projeções, como assinalou Darcy Ribeiro (O povo brasileiro: a evolução e o sentido do Brasil).

O que é verdadeiro apagar histórico se pode considerar o “Manual do Candidato”, produzido por dois competentes historiadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Paulo Fagundes Visentine e Analúcia Danilevicz Pereira, sobre a “História Mundial Contemporânea (1776-1991) Da independência dos Estados Unidos ao colapso da União Soviética”, com patrocínio (orientação?) do Ministério das Relações Exteriores e da Fundação Alexandre de Gusmão, em 2010 (2ª edição revista e atualizada) em que a China aparece em dois momentos.

“A globalização e o mundo único da economia (neo)liberal caracterizariam este “fim da História”, embora a China ainda estivesse em vias de surpreender e as previsões mais otimistas viessem a falhar uma década depois.

” E, páginas adiante, descreve a participação do exército na “repressão”, salvando a China do “destino” da URSS, para concluir com a união da China com os EUA.

E esta história, contida neste volume, destina-se a instruir os diplomatas brasileiros!!


Período turbulento leva ao encontro da origem

Em julho de 1921 foi fundado um partido nacionalista e marxista que se deu o nome Partido Comunista da China (PCCh).

Houve, quatro anos antes, a Revolução Bolchevista implantando o marxismo no Império Russo dos Czares.

E há um ano o Partido Popular Mongol (junho de 1920) também nacionalista e inspirado na Revolução soviética russa de Outubro de 1917.

A chegada ao poder, em 1949, do Partido Comunista Chinês se deu numa sequência das agressões europeias (Guerra do Ópio, Revolução Taiping, Rebelião Boxer), do Japão (Guerra Sino-Japonesa) e a proclamação da República (1912), e, ao fim, com defecção de Chiang Kai Shek que, protegido pelos EUA, se refugiou na ilha chinesa de Taiwan.

Entre 1949 e 1978, a China passou por diversos problemas que foram do debate ideológico com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), que se considerava com o monopólio do pensamento e interpretação marxista, às agressões estadunidenses e ocidentais, que levaram ao trágico decênio da Revolução Cultural (1966-1976), até a importação capitalista por Deng Xiao Ping (1978-1992), e abertura para instalação de empresas estrangeiras na China.

Nos governos de Zhao Zi Yang (1980-1989) e Jiang Zi Min (1989-2002), a China buscou se encontrar com o mais profundo de seu espírito, pacífico, não escravista, criativo e operoso, respeitando a natureza e a prevalência do ser humano.

Hu Jin Tao (2002-2013) faz então uma síntese maoísta confuciana, que Xi Jin Ping desenvolve com as instituições “Socialistas com Características Chinesas”.

No 19º Congresso Nacional do PCCh, o Presidente Xi Jin Ping enunciou:

O socialismo com características chinesas já entrou numa nova era. Neste ano comemorativo do centenário do PCCh, a China declarou solenemente a vitória na erradicação da pobreza extrema e concluiu a primeira meta secular que é a construção completa de uma sociedade moderadamente próspera, além de dar início à segunda meta centenária que é a construção de um grande país socialista moderno que seja próspero, forte, democrático, culturalmente avançado, harmonioso e belo. O mundo concentra atenção numa China dirigida pelo socialismo com características chinesas na nova era.

Neste 2025, a China encabeça a relação das maiores potências tecnológicas, haja vista ser a única a produzir um “sol” em laboratório com a fusão nuclear, sua conquista espacial trouxe recursos inéditos que permitem antever a caminhada do homem em Marte, e sua indústria poderia dispensar a importação de quase tudo que a sociedade contemporânea exige para a vida segura e confortável. Sua economia já supera a estadunidense e tende a se confirmar como a maior do planeta.

E vai além, com a Organização para a Cooperação de Xangai (2001), a Iniciativa do Cinturão e Rota (2013) e sua associação aos Brics (2006), a China constrói e mostra o caminho pacífico, igualitário e frutuoso para o mundo melhor, sem escravos, sejam pessoas sejam países, e de futuro mais consistentemente seguro, interdependente.

Não é a liderança surgida das armas nem das farsas e falácias da comunicação; é a liderança de quem construiu a civilização do bem-estar e pacífica, passo a passo, ao longo da sua milenar história.

E aqueles países exemplares até o “fim da história”, que destruíram os Estados comunistas, passaram a ter nas fraudes, na concentração de renda, na corrupção, no fim dos direitos do trabalho e da previdência social pública, na emissão de títulos sem lastro, os novos princípios de governança: o governo do “mercado”.

Assim agiram os EUA e a Europa, especialmente os países integrantes da União Europeia (UE) e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Uma década de neoliberalismo financeiro obrigou a proliferação de guerras para sustentação do “mercado”.

E estas têm início com a farsa de 11 de setembro de 2001, nos EUA, com a fraude das “armas de destruição de massa no Iraque”, a invasão e a destruição do Estado Líbio, retrocedendo um país em desenvolvimento ao período de guerras tribais, e, em 2013/2014, ao espetáculo circense da Revolução da Praça Maidan (Euromaidan), na Ucrânia, entre outras aventuras bélicas ocidentais, onde se inclui a tragédia dos palestinos pelo genocídio praticado naquele povo pelo Estado de Israel.

No que se refere ao povo, aquele que sempre viveu do trabalho, a “democracia de mercado”, com a ausência de um partido que efetivamente o defenda, tem levado o mundo, fora da China, a buscar na direita, numa extrema-direita até fascista, a resposta ao desemprego, à fome, às doenças, à miséria e à falta de expectativa futura.

Tudo passa a ser aqui e agora, pois o amanhã, para os que não compõem a plutocracia dominante, nem é uma incógnita, e a certeza de não encontrar um estágio civilizatório como já houve no período da bipolaridade capitalista x socialista.

Original em: https://monitormercantil.com.br/geopoliticas-para-o-seculo-21-china-retoma-lideranca-civilizacional/

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