Desde Adam Smith, no século XVIII, os liberais econômicos aprenderam que a inflação é um desequilíbrio entre oferta e demanda.
Se a demanda está maior que a oferta, surge a inflação; se, ao contrário, a oferta cair abaixo da demanda, há deflação.
Portanto, o caminho para garantir a estabilidade dos preços é manter o equilíbrio entre demanda e oferta.
Num caso, cortando na demanda; noutro, aumentando a oferta.
Por que os (neo)liberais atuais acham que, diante da inflação, o único caminho para estabilizar os preços é cortando na demanda?
Não seria muito mais favorável para a sociedade aumentar a oferta, via aumento da atividade econômica e do emprego?
Claro que, para um país desprovido de recursos naturais e sem crédito para importá-los, não há espaço para o crescimento da oferta.
Este, porém, não é o caso do Brasil.
Temos vastos recursos naturais, grande disponibilidade de mão de obra e suficientes reservas externas para financiar investimentos internos e tecnologia.
Sim, enfrentamos um gargalo financeiro, por causa do tamanho cavalar do serviço da Dívida Pública de mais de R$ 1 trilhão por ano só de juros.
Mesmo isso, porém, pode ser superado se a economia crescer a altas taxas, na hipótese de uma Selic menor.
A opção pelo corte na demanda no lugar do aumento da oferta é decorrência direta de uma economia financeirizada.
Para os empresários brasileiros, aplicar grande parte de seus recursos no mercado especulativo é mais conveniente do que investir no mercado real.
Contudo, alguém tem que pagar por seus lucros.
E quem paga são os cortes no orçamento primário da União a fim de acomodá-lo ao serviço incontornável da Dívida.
A ferramenta que o Banco Central usa para supostamente combater a inflação, a fim de enquadrá-la na meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional, é uma combinação da velha Teoria Quantitativa da Moeda com a Teoria das Expectativas Racionais.
Ambas se expressam na Selic, que pressupõe uma relação teórica inversa entre aumento da taxa de juros e queda (ou estabilização) dos preços do mercado.
Isso, porém, é um fetiche.
Temos visto atualmente, com grande clareza, que a inflação é efetivamente um fenômeno de mercado físico, não um problema monetário ou financeiro.
Ela se deve a alta de determinados preços devidos a questões políticas (embargos, bloqueios), climáticas (quebras de safras), escassez de determinados insumos para a indústria (chips no período da pandemia) ou à pressão de custos de bens de uso generalizado, como petróleo, energia elétrica e ovos.
Se isso for bem entendido, fica muito patente que um aumento da Selic para 14,25%, como agora, terá pouquíssimo efeito na redução da inflação, a não ser que caiam muito os preços da energia elétrica e do ovo – as principais causas do aumento do custo de vida em fevereiro.
Assim, a ação do Banco Central não passa de uma enganação para viabilizar mais ganhos especulativos para o mercado financeiro, dono da Dívida Pública cujo serviço é quase todo remunerado pela Selic.
Voltemos aos fatores básicos relacionados com a inflação.
Se o Governo insistir na política de cortes no orçamento primário e de aumento da Selic a fim de reduzir a pressão da demanda, com o objetivo de estabilizar os preços, o País muito provavelmente mergulhará numa recessão já neste ano, como quer a Faria Lima.
Nossa prioridade, porém, deveria ser aumentar a produção e a oferta, para o que é essencial a redução, não o aumento, da taxa de juros básica (Selic).
A inflação brasileira está alta, fora da meta, mas não exagerada ao ponto de desestabilizar o conjunto da economia.
Afinal, meta de inflação é outro fetiche usado na política fiscal-monetária brasileira.
Com alguma atuação governamental mais firme do lado da oferta, especialmente fomentando os médios e pequenos produtores agrícolas que alimentam dois terços dos brasileiros, ela poderá ser reduzida gradativamente, com muito mais eficácia do que por medidas macroeconômicas.
O problema, portanto, é escaparmos das armadilhas que tornaram o Estado brasileiro totalmente prisioneiro do rentismo.
Inclusive das desculpas que o sistema bancário dá para operar com taxas de juros estratosféricas, fora de qualquer padrão no mundo: por exemplo, a elevada inadimplência no setor, que é em grande parte provocada justamente pela taxa de juros excepcionalmente alta no Brasil.