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Ataque Á Inflação Pelo Lado Errado

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José Carlos de Assis
José Carlos de Assis
Economista, doutor em Engenharia de Produção pela UFRJ, professor de Economia Internacional na Universidade Estadual da Paraíba e autor de mais de 20 livros sobre economia política.

Desde Adam Smith, no século XVIII, os liberais econômicos aprenderam que a inflação é um desequilíbrio entre oferta e demanda.

Se a demanda está maior que a oferta, surge a inflação; se, ao contrário, a oferta cair abaixo da demanda, há deflação.

Portanto, o caminho para garantir a estabilidade dos preços é manter o equilíbrio entre demanda e oferta.

Num caso, cortando na demanda; noutro, aumentando a oferta.

Por que os (neo)liberais atuais acham que, diante da inflação, o único caminho para estabilizar os preços é cortando na demanda?

Não seria muito mais favorável para a sociedade aumentar a oferta, via aumento da atividade econômica e do emprego?

Claro que, para um país desprovido de recursos naturais e sem crédito para importá-los, não há espaço para o crescimento da oferta.

Este, porém, não é o caso do Brasil.

Temos vastos recursos naturais, grande disponibilidade de mão de obra e suficientes reservas externas para financiar investimentos internos e tecnologia.

Sim, enfrentamos um gargalo financeiro, por causa do tamanho cavalar do serviço da Dívida Pública de mais de R$ 1 trilhão por ano só de juros.

Mesmo isso, porém, pode ser superado se a economia crescer a altas taxas, na hipótese de uma Selic menor.

A opção pelo corte na demanda no lugar do aumento da oferta é decorrência direta de uma economia financeirizada.

Para os empresários brasileiros, aplicar grande parte de seus recursos no mercado especulativo é mais conveniente do que investir no mercado real.

Contudo, alguém tem que pagar por seus lucros.

E quem paga são os cortes no orçamento primário da União a fim de acomodá-lo ao serviço incontornável da Dívida.

A ferramenta que o Banco Central usa para supostamente combater a inflação, a fim de enquadrá-la na meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional, é uma combinação da velha Teoria Quantitativa da Moeda com a Teoria das Expectativas Racionais.

Ambas se expressam na Selic, que pressupõe uma relação teórica inversa entre aumento da taxa de juros e queda (ou estabilização) dos preços do mercado.

Isso, porém, é um fetiche.

Temos visto atualmente, com grande clareza, que a inflação é efetivamente um fenômeno de mercado físico, não um problema monetário ou financeiro.

Ela se deve a alta de determinados preços devidos a questões políticas (embargos, bloqueios), climáticas (quebras de safras), escassez de determinados insumos para a indústria (chips no período da pandemia) ou à pressão de custos de bens de uso generalizado, como petróleo, energia elétrica e ovos.

Se isso for bem entendido, fica muito patente que um aumento da Selic para 14,25%, como agora, terá pouquíssimo efeito na redução da inflação, a não ser que caiam muito os preços da energia elétrica e do ovo – as principais causas do aumento do custo de vida em fevereiro.

Assim, a ação do Banco Central não passa de uma enganação para viabilizar mais ganhos especulativos para o mercado financeiro, dono da Dívida Pública cujo serviço é quase todo remunerado pela Selic.

Voltemos aos fatores básicos relacionados com a inflação.

Se o Governo insistir na política de cortes no orçamento primário e de aumento da Selic a fim de reduzir a pressão da demanda, com o objetivo de estabilizar os preços, o País muito provavelmente mergulhará numa recessão já neste ano, como quer a Faria Lima.

Nossa prioridade, porém, deveria ser aumentar a produção e a oferta, para o que é essencial a redução, não o aumento, da taxa de juros básica (Selic).

A inflação brasileira está alta, fora da meta, mas não exagerada ao ponto de desestabilizar o conjunto da economia.

Afinal, meta de inflação é outro fetiche usado na política fiscal-monetária brasileira.

Com alguma atuação governamental mais firme do lado da oferta, especialmente fomentando os médios e pequenos produtores agrícolas que alimentam dois terços dos brasileiros, ela poderá ser reduzida gradativamente, com muito mais eficácia do que por medidas macroeconômicas.

O problema, portanto, é escaparmos das armadilhas que tornaram o Estado brasileiro totalmente prisioneiro do rentismo.

Inclusive das desculpas que o sistema bancário dá para operar com taxas de juros estratosféricas, fora de qualquer padrão no mundo: por exemplo, a elevada inadimplência no setor, que é em grande parte provocada justamente pela taxa de juros excepcionalmente alta no Brasil.

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