“Check it out.
Dustin Hoffman, ‘Rain Man,’ look retarded, act retarded, not retarded.
Counted toothpicks, cheated cards.
Autistic, sho’.
Not retarded.
You know Tom Hanks, ‘Forrest Gump.’
Slow, yes.
Retarded, maybe.
Braces on his legs.
But he charmed the pants off Nixon and he won a ping-pong competition.
That ain’t retarded.
He was a goddamn war hero.
You know any retarded war heroes?
You went full retard, man.
Never go full retard.
You don’t buy that?
Ask Sean Penn, 2001, “I Am Sam.
” Remember? Went full retard, went home empty-handed.”
(Kirk Lazarus)
Sábado de carnaval, Belmonte, noite.
Rua tomada por até então foliões de algum bloco.
Uma dessas mesinhas improvisadas de um pequeno tampo de algum compensado sobre um par de barris de chopp.
Uma moça em torno de seus trinta, não carioca, puxa uma conversa comigo em portunhol, crendo que na minha ibérica magreza grisalha eu fosse argentino ou coisa parecida.
É devidamente enxotada pelas duas brilhantes mulheres de esquerda que estão à mesinha comigo, junto com o marido de uma delas.
Minha expectativa era estar falando sobre a revolução do retorno de Trump (que é diferente do retorno da revolução de Trump que se achava que haveria), sobre os nem vais nem vens do retorno de Lula, sobre as mudanças dos astros lentos, algum desses assuntos tão vagos e aleatórios que os algoritmos nos alimentam.
Mas não só a levemente alcoolizada, bastante inconveniente baiana carnavalesca, tentando entrar naquela conversa totalmente alienígena ao ambiente do pós-bloco, era alvo da incisividade delas.
Numa total ausência de sororidade, elas desancam com a gestão da ex-ministra Nísia.
Nísia, para mim, fora uma boa escolha sob um ponto de vista de uma concepção tecnocrática de governo.
Uma tentativa de reeditar a bem-sucedida passagem do ministro Temporão no segundo governo Lula, uma escolha técnica como a de Jatene que serviu a Fernando I e a Fernando II.
Mas uma escolha que sequer era boa o suficiente para ser uma escolha errada sob o ponto de vista político.
Numa perspectiva de presidencialismo de coalizão, o Ministério da Saúde você entrega a um parceiro menor de sua coalizão.
Por exemplo: Mandetta, do DEM, no início do governo Bolsonaro.
Para gente do seu partido (e grupo político) você entrega o Ministério da Fazenda, o das obras viárias, o da Justiça.
Tirando o Delfim Fernando na Fazenda hoje, os outros estão entregues a pessoas de fora: Transportes com o MDB, Justiça com o STF.
Uma delas me conta o seguinte caso, o de um paciente crônico que toma seu coquetel antiviral.
Não uma história que ela ouviu falar de alguém, mas uma história vivida por pessoa próxima dela.
Durante o governo anterior ele recebia do médico uma receita para pegar um kit de remédios para três meses e podia pegar o novo ciclo de remédios uma semana antes de acabar o período.
Isso mudou: agora a receita é válida por um mês e a nova caixa de remédios só pode ser retirada quando seu medicamento acabar.
Qual seja: você precisa torcer para haver o remédio de uso contínuo disponível no dia seguinte.
E esse é um tipo de medicação que você não pode deixar de tomar, atrasar etc.
Um outro exemplo é trazido do acesso à reposição hormonal para mulheres de baixa renda.
Um caso de uma empregada de mais de cinquenta pegando, escondido, o spray da patroa.
Esse é um tipo de ação que teria um impacto de qualidade de vida, de saúde mental, de milhões de mulheres maduras nesse país.
Coisa que certamente muita gente da equipe da Nísia faz uso no privado, mas não extrapola esse elemento de sua saúde cotidiana para uma política pública.
O caso de Nikolas Ferreira e seu suporte como parlamentar aos autistas também é trazido.
O ponto, destacado, é que esses detalhes dos inconvenientes da vida privada das pessoas são negligenciados no que seria a atuação política de esquerda hoje.
O discurso de saída da Nísia fez demasiada ênfase ao enfretamento político que se tornou a questão da vacina, que virou o oitavo sacramento no status das pessoas de esquerda neste país.
Um politização de uma questão técnica que acaba se constituindo um problema para a saúde em si no momento em que o conjunto dos médicos é um grupo socialmente à direita do governo.
A questão da gravata Louis Vuitton de Lula também foi trazida.
Uma delas me observa que se a gravata fosse igualmente cara, mas de um estilista brasileiro e feita aqui, isso poderia ser interpretado como uma ação de promoção de nossa indústria, nosso design.
Mas como tal, soava apenas como deslumbramento.
Puxo o assunto da degola do Deccache pelos deputados do PSOL.
Essa foi uma questão que tinha me sido trazida por outro amigo, profissional de saúde (que aliás fazia elogios à atuação da Nísia em questões de políticas relacionadas à saúde mental.
Note, querida leitora, para não haver dúvida quanto a minha posição: a ministra Nísia não foi uma má ministra, muito pelo contrário.
Só acho que politicamente ela não acrescentava e que ela deu demasiada ênfase à polarização com o “bolsonarismo” e sua simbologia ao invés de trabalhar para desconstruir a polarização.
E com isso ela perdeu algumas oportunidades para ter uma marca revolucionária no seu ministério).
Para responder a esse amigo eu perguntei a outros quatro amigos economistas de esquerda, que conheciam o personagem bem melhor do que eu, qual a opinião sobre o que aconteceu com o Deccache nessa situação.
Um disse que era “um absurdo.
O PSOL virou puxadinho do PT”.
Outro disse que o Deccache “era uma criança”, que sendo um assessor parlamentar de um partido da base do governo certas críticas até pertinentes não poderiam ser feitas de público daquela forma.
Um terceiro me falou que deve ter sido um “presente para o Haddad”.
O quarto, não muito inteirado dos detalhes da história, me passou o contato de WhatsApp do próprio Deccache.
Naquela mesinha as pessoas entendiam a validade da crítica, mas também o exagero.
Num momento em que a economia volta a crescer (mas sem se transformar), em que o Delfim Fernando mantém sua política de austeridade branda, responsável, há uma ambiguidade em como se julgar e tratar a política econômica do governo Lula.
Aliás, teve outra coisa conversada ali: a carta de Kakay.
A carta de Kakay, que foi interpretada como uma mensagem da turma de Dirceu, como a disputa dentro do governo entre Fazenda e Casa Civil, é uma crítica a esse meio do caminho do governo Lula.
Um meio do caminho em que a radiante Gleise vai conduzir a articulação política.
O que pode ser ótimo por duas razões: a alguém de uma esquerda subrepresentada no governo, é alguém que passou por uma experiência não propriamente bem-sucedida de fazer a mesma coisa no governo Dilma.
O fracasso, se bem digerido, pode levar a fracassos melhores, dizia um poeta.
E esse é um dos problemas de discursos como o do Deccache: a não apreciação dos fracassos melhores.
Uma apreciação do que poderia ser um entendimento prévio de um fracasso em vista pode ser vista na observação da ministra Tebet sobre o arcabouço fiscal.
Digamos que ele é a crítica de centro ao fracasso anunciado de algo que desde o início se entende como destinado a fracassar.
Temos que lembrar que o arcabouço fiscal foi uma solução de compromisso para um problema permanente criado no governo golpista.
Uma solução provisória, mas uma solução possível.
Uma traqueostomia na legislação do orçamento público.
Fracassos melhores não são possíveis sem uma imaginação quanto ao futuro, sem uma construção poética do presente que não sejam as de retorno, retomada, resistência…, mas ainda assim fundada na realidade material.
O que traz o problema da interpretação de MMT do Deccache: como expandir a renda/serviços sem uma expansão da base produtiva em paralelo?
Isso não vai acontecer pela mágica do Mercado.
Esse é o problema das intepretações radicais de esquerda hoje: a ausência de uma discussão mais substantiva do aparato produtivo.
Das interpretações radicais da direita, a questão urgente me parece ser no momento se cadeira na janela ou no corredor.
Há, contudo, o radicalismo do extremo centro que estrebucha no momento.
Discussões como essa da Tebet, falas como a do presidente Lula sobre a conversa entre Trump e Zelensky, são sintomas (patológicos) desse consenso de centro sobre uma realidade que não existe mais.
O abandono das amarras fiscais alemães para custear uma remilitarização que será um fracasso pior, por exemplo, é uma sinalização de que novos arranjos institucionais se tornam possíveis e que, portanto, a discussão sobre o que será possível de se fazer em 2027 é, no mínimo, precipitada.
A lição que fica: não sejamos totalmente radicais.
O carnaval ficou para trás, o mundo que se tem pela frente é outro.
Ao índio que corre da Viradouro, ao verde-piscina da Grande Rio, ao refrão-chiclete da Beija-flor: grato porque a beleza sempre se faz nova.