“Wider than a mile
I’m crossing you
In style some day”
(Johnny Mercer)
Retorno a Brasil e Argentina, qualificação para a Copa do Mundo.
“Cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, e se não temos mais Felipão e sua família, o futebol brasileiro se renova, e novas humilhações, novos recordes são estabelecidos, revisitados.
A maior derrota em eliminatórias para a Copa do Mundo, a maior derrota desde o 1×7 com a Alemanha.
Impossível, hoje, não ouvir o nome Dorival e não começar a cantar “Dorival vai não”.
Um otimista diria que os ciclos para as Copas de 1994 e de 2002 também foram assim, com diferentes técnicos ao longo do processo, com uma campanha tumultuada durante a classificação.
Em 1994, um empate contra o Uruguai no último jogo no Maracanã nos teria deixado fora da Copa.
Em 2002 chegamos em terceiro, empatados em pontos com o Paraguai, com Uruguai e Colômbia a três pontos de distância.
De lá para cá sempre que disputamos fomos os primeiros na Qualificação.
E não chegamos sequer à final.
Chegamos a uma decisão de terceiro lugar, em casa, perdida para basicamente a mesma Holanda que nos eliminou em 2010.
Mas se em 2006 e 2010 viemos a ser eliminados pela seleção que foi Vice-Campeã (França e Holanda, respectivamente), se em 2014 (como em 1978) o vencedor da Copa nos tirou da final, nas duas últimas Copas caímos pra seleções europeias que sequer à final chegaram.
Dá para ser otimista?
Talvez.
Mas vamos primeiro, querida leitora, repassar uns problemas que temos, problemas que na minha interpretação não estão sendo bem retratados nas nossas mesas redondas.
Mas antes, uma pequena nota de nomenclatura em cima dos números tradicionais de nosso futebol.
O “5” (DM) é o cabeça de área, meio campista defensivo, (médio-)volante, o cara que sobrou no meio campo quando os jogadores da segunda linha da pirâmide foram sendo jogados para trás.
Na Inglaterra eles falam “6”, mas “6” aqui é quase sempre entendido como o lateral esquerdo.
O “8” (MC) no Brasil foi o cara da linha de ataque de cinco a ser trazido para o meio campo. Didi e Gerson, nas seleções com 4-2-4 (ou 4-3-3 à moda de Zagallo) bem definido.
O termo meia(-armador) era usado, e de alguma forma costuma ser usado hoje.
Hoje meio que “5” e “8” se confundem, mas diferenciar os dois é, a meu ver, importante.
O “10” (AM) é aquele cara cujo papel é de ser o elemento de criação mais avançado do meio-campo.
O termo meia é costumeiramente usado para referenciá-lo.
Não confundir com o Ponta de Lança, o “10” de nosso 4-2-4, a posição de Pelé, posição “inventada” por Ademir de Menezes, a do segundo atacante que joga pelo centro, com velocidade e técnica, vindo de trás, tabelando com o centro-avante, o “9”.
Curiosamente, tanto Ademir quanto Pelé jogaram copas como “9” (Pelé foi o centro-avante em 1970, preste atenção nisso quando for ver a reprise de algum jogo).
O “10” mais paradigmático de nosso futebol neste século foi Kaká.
O “7” e o “11” são os pontas.
Eles podem ser meias, jogando como “10” de fato.
Ronaldinho Gaúcho é talvez nosso melhor exemplo.
Eles podem ser atacantes, e Vini é um exemplo excepcional disso.
1 – O quadrado
Era uma vez Tele Santana, e uma seleção que jogava como mágica em 1982, que tinha quatro craques no meio-campo (um do Flamengo, um do Corinthians, um do Galo, um que fora do Internacional, mas jogava lá fora), e que perdeu a Copa do Mundo injustamente.
Como qualquer história que começa com “era uma vez”, trata-se de uma história de crianças, um conto da carochinha.
Há um interessante livro sobre o assunto (Sarriá 82: O que faltou ao futebol arte), e neste link há um artigo sobre o livro.
Noutro momento retorno a esse evento, 1982.
E não, não foi injustiça.
O quadrado de craques está para a seleção brasileira assim como um Big Three está para a NBA.
Um número mágico a partir do qual Joga Bonito acontece.
Em 2006 isso finalmente foi reeditado. E sob uma partitura de samba esquema novo, dançamos.
Na seleção de 2006 havia dois “10”, dois “9”.
Contra a França, no objetivo de se jogar mais bonito ainda, tirou-se um dos “9” para se por mais um “10”.
E perdemos. Não porque faltasse habilidade na frente.
Faltava controle no meio-campo.
Desde 1994 o Brasil jogou, salvo num momento ou outro, por assim dizer, com dois “5” no meio-campo, em geral um claramente defensivo e outro menos cabeça de área e mais volante: Mauro Silva/Cesar Sampaio e Dunga (em 1994/1998), Gilberto Silva e Kleberson/Felipe Mello (em 2002/2010).
Mas e 2006?
A dupla de volantes de 2006 é algo atípico no futebol brasileiro, de dificílima reprodução. Emerson e Zé Roberto eram, ao mesmo tempo, “5” e “8”, e capazes de, sozinhos, sustentar um meio-campo.
Sem Emerson, com um Gilberto Silva mais plantado, a França nos eliminou.
Sem nomear como os “wingers” ponta (são todos “meias” na nossa mídia), tirando Elano como um ponta direita recuado naquele time de Dunga que (na minha opinião) foi melhor do que nossa imprensa julgou, temos jogado num 4-2-3-1, com esses jogadores de frente sendo bastante ofensivos.
O fato é que alguns deles, como Oscar na seleção de Felipão, por exemplo, voltavam para ajudar no meio-campo.
Mas não é propriamente o caso do 4-2-3-1 de 2022 e do de agora.
Nem Neymar nem Raphinha fazem bem o papel de um “10” que contribui na marcação.
Se no Madrid o “7” Rodrygo ajuda a fazer uma linha de quatro quando o time está sob ataque, o mesmo não acontece com Vinicius Junior.
(Aliás, pequena nota sobre o Mercado: diz Fabrizio Romano que Trent Alexander-Arnold está indo para o Real Madrid.
Eles resolveram ter UM lateral ofensivo de primeira linha, e optaram pelo lado direito, o lado onde não está Vini.
Com isso, o fantástico lateral esquerdo ofensivo que é Alphonso Davies não irá para o Madrid)
A Argentina entrou em campo contra o Brasil com quatro híbridos de “5” e “8”: Paredes, De Paul, Mac Allister, Enzo Fernandez.
Com um “10” na “11”; o craque do Glorioso, Almada.
A Argentina dominou o meio-campo, com superioridade numérica, com talento (Roma, Atlético de Madrid, Liverpool e Chelsea são os times desses jogadores).
Na convocação da seleção brasileira, entre titulares e reservas, havia quatro jogadores para essa posição.
Gerson e Bruno Guimarães, titulares contra a Colômbia, se contundiram.
Bruno, segundo o whoscored, está tendo uma boa temporada na Inglaterra.
Aliás, ele e Joelinton são avaliados como os dois meio-campistas num 4-4-2 dos melhores da Copa da Liga Inglesa, da qual o Newcastle acabou de ser campeão.
Mas tanto Bruno como Gerson estavam de fora, seja por cartão, seja por contusão.
Joelinton e André entraram.
André, que joga no Wolverhampton, que está acima do rebaixamento no campeonato inglês, e que não é um dos destaques propriamente do time (apesar dos pesares, Matheus Cunha está tendo lá uma formidável temporada), estava entre os convocados.
André foi do Fluminense do Diniz.
Já Joelinton saiu garoto do Sport Recife para jogar na Alemanha, e depois no Newcastle.
Portanto, se alguém é culpado no meio-campo segundo a transmissão da SporTV, tem que ser Joelinton.
Foi patético o fato de que o nome dele não era mencionado pelo narrador quando ele tocava na bola no segundo tempo.
Em qualquer outro lugar a presença de jogadores que jogam juntos como Bruno e Joelinton seria uma razão adicional para tê-los em campo.
Mas isso implica em barrar um jogador do Flamengo, onde já se viu!
Um cara que acabou de ganhar o estadual transmitido pela mesma Globo em suas tardes de domingo.
No lugar dos contundidos foram convocados às pressas João Gomes (que joga com o André, um pouco mais ofensivo) e Éderson.
Éderson joga num time da Atalanta que está em segundo no campeonato italiano, que se classificou em nono na fase de grupo da Champions League (e foi surpreendentemente eliminado na rodada seguinte de mata-mata).
Tem jogado bem, é titularíssimo.
Não convocar o Ederson já que André é um jogador defensivo melhor?
Admissível.
A questão é: porque não convocar os dois?
Por que não levar cinco jogadores para essas duas posições já que o ataque que você está convocando basicamente envolve pessoas que jogam naquelas diferentes posições na frente?
Há um erro em estarmos jogando em 4-2-3-1 como estamos, com um Raphinha que pouco participa na fase defensiva, na recomposição de jogo.
Um 4-3-3 resolveria.
Tanto a dupla do Newcastle, quanto a dos Wolves, tendo Gerson ou Éverton como o terceiro pela direita funcionariam muito bem.
Voltaríamos a ter meio campo em partidas sérias.
Em 70 tivemos Clodoaldo, Gerson e Rivelino, um “5” e dois “8”.
Em 1994 tivemos, além dos dois “5”, Zinho e Mazinho, dois “8” muito bons de passe.
Em 2002 eram Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho fazendo a frente.
Mesmo Juninho Paulista era mais contido ali. Qual seja: nunca foram quatro.
Mesmo antes houve um jogador do futuro chamado Zagalo…
2 – Variantes do Mesmo
Saldanha e Zagallo resolveram a qualidade de seus times colocando três “10” de nosso 4-2-4 no ataque.
Jairzinho, “10” do Botafogo, foi para a ponta direita, os “10” de Santos e Cruzeiro jogaram pelo meio.
Na Copa, Pelé foi um inteligente “9”, Tostão um “11” de um enorme brilhantismo tático.
Mas essa transformação da linha de frente foi possível porque a seleção brasileira pôde fazer uma longa preparação para a Copa do Mundo de 70.
Isso só era possível num tempo onde havia uma ditadura e os jogadores jogavam no Brasil.
Peguemos os dois craques incontestes da atual seleção, Vini e Raphinha.
Vini é tão ponta esquerda que Mbappe, um cara com duas finais de Copa do Mundo, foi deslocado para o meio.
Vini é um craque, mas, naquela posição, cumprindo a missão específica que ele cumpre no Madrid, ele está entre os maiores da história.
Problema: assim como Ronaldinho antes dele, cujo extraordinário se realizou quando a ele cabia o papel de elemento de conexão genial com um ataque do Barcelona que tinha Eto’o, Giuli ou Larson, além de um guri de nome Lionel… Vini não joga na mesma posição na Seleção.
Por quê?
Porque ele não tem um atacante que vem “atrasado” na jogada, como Benzema ou Mbappe, nem um meio-campista que avança com físico e finalização, como o Bellingham.
Isso poderia ser treinado?
Sim, com outros jogadores.
Vini poderia ser treinado a jogar de outra forma?
Sim, para virar apenas um jogador formidável ao invés de extraordinário.
Mas não para por aí o problema.
Raphinha está jogando melhor do que nunca.
Em parte, porque ele foi barrado no Barcelona pela maior promessa do futebol mundial, Lamine Yamal.
Com Yamal com “7”, Raphinha foi jogar como “10” na “11”.
E nisso se descobriu uma posição na qual ele é realmente formidável, um candidato a melhor do mundo conforme o Barcelona vá na Champions ou em La Liga.
Savinho, que classificou o Girona à Champions League na temporada passada, foi para o Manchester City.
No caos que tem sido o City nesta temporada, Savinho tem jogado em toda a linha de meio campo ofensivo.
Jogado bem.
No campeonato inglês, mais na direita.
Na Champions, na esquerda.
Assim como Rodrygo, no Madrid, ele vai bem pelos dois lados.
Mas onde ele barrou um Grealish que até recentemente era um dos craques da seleção inglesa, foi na esquerda.
Percebeu o problema?
Raphinha está jogando na mesma posição que Vinicius.
Savinho e Rodrygo também jogam muito bem por ali, eu diria que preferencialmente (Rodrygo joga na esquerda no Madrid sempre que Vini está fora).
Todos são interpretações de um mesmo papel.
Nenhum deles é um Oscar, um Sócrates, um “10” capaz de fazer essa conexão no meio.
Colocar hoje os melhores em campo na seleção brasileira é colocá-los em posições subótimas de seus talentos.
O que quer dizer frustração, quer dizer que você não vai ver esses jogadores desempenhando o que fazem em seus clubes.
Esse é um dilema que o próximo técnico da seleção terá que resolver.
Em geral se optou pelos melhores.
Mas quem sabe, na ausência do tempo que se teve para fazer a seleção de 70, não seja o momento de se voltar a ter os melhores dentro de um plano tático, e não os melhores por si só.
cpuq7x