As novas tecnologias estão tornando o mundo menos humano para os jovens, e mais desconfortável para os idosos.
Entre os jovens, a internet suprimiu o prazer do contato individual nas relações pessoais, substituindo-as por clics nos teclados do celular ou do computador.
Entre os idosos, cada vez mais distantes do domínio pessoal das novas tecnologias, há um confinamento nos espaços desumanos dominados pelas máquinas.
Nesse caso, a vida virou um inferno.
Na era da informação e da comunicação instantânea, tornou-se quase impossível agendar uma consulta médica.
O velho telefone não funciona.
Agora tudo é online, com espera por tempo indefinido.
Antigamente, os planos de saúde eram obrigados a manter um quadro de funcionários pessoais mais ou menos proporcional a sua clientela.
Hoje, quem atende são as máquinas, presumivelmente mais rápidas.
Na prática, os donos dos planos compensam o avanço da tecnologia pelo corte de atendentes, resultando em poucos atendentes para milhões de clientes.
Com isso, o conjunto das relações humanas fica afetado, pois o número de atendentes cai continuamente na proporção inversa do domínio das máquinas, de custo menor que homens e mulheres.
É impossível ser gentil e cortês com uma máquina, assim como uma máquina não pode ser gentil com um humano.
Além disso, embora os humanos também falhem, as “quedas do sistema” invocadas para justificar atrasos infindáveis nos serviços públicos são mais frequentes entre máquinas.
Para muitos idosos, a era da tecnologia ainda não chegou.
Embora a maioria possa usar a internet nos celulares à moda dos antigos telefones fixos, estão longe de alcançar os imensos recursos possibilitados pelo aparelho, e também pelo computador pessoal.
Quem passou a vida inteira usando uma velha máquina de escrever mecânica não se anima a aprender os truques das novas tecnologias, o que lhes parece uma perda de tempo.
O mais grave, porém, é que prestadores de serviços a idosos, como os donos dos planos de saúde, presumem que também os mais velhos dominem completamente as tecnologias de informação.
Com isso, estabelecem protocolos de atendimento à distância pelo whatsapp ou email que exigem dos beneficiários que recorram a auxílio externo de parentes ou especialistas amigos para seu atendimento.
Insisto no exemplo dos planos de saúde porque estão se tornando uma área infernal para idosos.
Depois de décadas como filiado à Amil, o valor da mensalidade do plano aumentou estupidamente e eu busquei uma alternativa mais barata, na Prevent Senior, depois de consultar seu cardápio de serviços.
Acontece que a empresa não tem respeitado os compromissos assumidos em seu contrato comigo.
Fechou alguns hospitais que antes apareciam como seus conveniados; depois, cortou laboratórios antes também conveniados (sem me avisar previamente); e, mais recentemente, impôs através de uma máquina um protocolo absurdo, também sem me avisar previamente, exigindo, para eu fazer um exame laboratorial, que teria de apresentar, junto com a receita do médico conveniado, vários dados meus e do médico – tudo por zap ou email.
Há uma desonestidade implícita nessas medidas, pois fica muito claro que o plano de saúde, depois de garantir a ampliação de clientela com o discurso de que cobra mais barato que os congêneres – oferecendo serviços básicos similares -, quer simplesmente se livrar de uma parte de seus custos vinculados aos serviços oferecidos originalmente, e depois cortados.
Isso seria uma surpresa, se não estivéssemos no Brasil, onde vivemos num clima de “vale tudo” para subir na vida e ganhar dinheiro!
O atendimento pessoal nas agências bancárias tende a desaparecer.
Está sendo substituído por plataformas digitais impessoais.
À favas que muitos idosos não saibam operar os mecanismos de acesso e manipulação de suas contas.
A presunção é que, como estamos numa era tecnológica, eles obrigatoriamente devem saber.
Essa presunção está presente em vários outros serviços prestados ao público por empresas tecnológicas e pelas clientes delas.
Das pequenas às grandes.
Do Uber ao iFood.
Considero triste a era de transição que estamos vivenciando, com a distância cada vez mais ampla entre as gerações, assoberbada pelos avanços tecnológicos.
Temos em família cada vez menos bases comuns para conversas em torno de uma mesa de jantar, tratando de temas de interesse mútuo amarrados por uma base coletiva.
Não poder contar mais com isso é o que pode se resumir na expressão “mata o velho”!
Publicado originalmente na Tribuna da Imprensa online.