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O Nó Gordio Brasileiro

A Polarização "LULOPETISMO/BOLSONARISMO" e a Alternativa de um Projeto de Desenvolvimento.

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Crédito da imagem: Gerada por IA

 

O cenário político brasileiro atravessa um momento de profunda reconfiguração.
A aceitação da acusação de Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF), alvo de um processo judicial, e sua inelegibilidade até 2030, vem abalando as bases do bolsonarismo, forçando o espectro político da direita a buscar novos líderes e estratégias.

Bolsonaro virou réu por tentativa de golpe de Estado com unanimidade dos votos na 1ª Turma do STF, além de também se tornarem réus sete aliados e assessores do ex-presidente, entre eles os ex-ministros Braga Netto e Anderson Torres, os quais responderão a um processo criminal, que pode levar à prisão do ex-presidente.

No outro lado do campo político, o governo Lula enfrenta desafios para consolidar sua agenda em meio a um Congresso dominado pelo “centrão”, que segue como fiel da balança no jogo político nacional.

Apesar dos esforços para formar uma coalizão majoritária, o governo não conseguiu atingir esse objetivo até o momento.

No dicionário político brasileiro, o termo “centrão” refere-se a um conjunto de partidos políticos que compuseram uma aliança informal durante a Assembleia Constituinte de 1987 com o objetivo de implementar no texto da Constituição as propostas ligadas ao presidente da República, José Sarney (PMDB), e combater a linha política progressista defendida pelo Presidente da Assembleia Constituinte, Ulysses Guimarães (PMDB).[1]

Os partidos que atualmente formam o chamado centrão — caracterizado por não ter orientação ideológica pré-estabelecida — comandam a administração de 3.466 municípios, número equivalente a 62% das cidades brasileiras.

Entre os cinco partidos que formam este bloco, PSDMDB e PP são as legendas com o maior número de prefeituras.

Enquanto o PSD venceu em 872 municípios, o MDB administra 840.

PP ficou em terceiro lugar, com 738 prefeituras.

PSD e PL são os partidos políticos que mais ocuparam prefeituras, vice-prefeituras e presidências de câmaras municipais nas capitais brasileiras.

Ao todo, cada partido vai ocupar 12 destes postos entre as 26 capitais.

Separadamente, o Partido da Social Democracia (PSD) é o partido com mais prefeitos, enquanto o Partido Liberal (PL) lidera entre vice-prefeitos, com ambos tendo cinco em cada cargo.

Partidos de centro-direita e de direita dominam o ranking dos municípios.

Partido dos Trabalhadores (PT), do presidente Lula, não emplacou nenhum vice-prefeito ou presidente de câmaras em capitais.

Todavia, o partido governista conquistou a Prefeitura de Fortaleza, com Evandro Leitão.

Partido Socialista Brasileiro (PSB), do vice-presidente Geraldo Alckmin, tem cargos de liderança em capitais, com destaque para a Prefeitura de Recife (com João Campos) e o comando da Câmara de Fortaleza (com Léo Couto).

Somando-se os números de PT e PSB com os do Partido Democrático Trabalhista (PDT), que chegou a dois quadros, e o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) com um vice, o espectro político da esquerda e da centro-esquerda tem nomes em dez cargos de liderança (cerca de 13%).

O desempenho do espectro político de direita e centro-direita na disputa municipal é visto com atenção pelos analistas políticos, como indicativo do cenário das eleições de 2026, dada a capilaridade que o bloco partidário tem nos municípios, podendo ser decisivo na mobilização de eleitores na corrida eleitoral que se avizinha.

Na concepção de alguns cientistas políticos, o desempenho dos partidos de direita e centro-direita fortalecem o centrão, revelando a fraqueza do campo progressista.

Para outros, os números expõem um racha na direita em diversos municípios.[2]

Na síntese das percepções de ambos os lados dos analistas, os resultados das eleições confirmam a predominância dos partidos do espectro político de direita e de centro-direita, colocando-os como protagonistas para a disputa eleitoral de 2026.

A coalizão que se organiza em torno do Presidente Lula, onde nem as pautas econômicas alcançam consenso, enfrenta maiores resistências em outras áreas, como a pauta de costumes.

Com a composição atual do Congresso, especialmente da Câmara dos Deputados, há limites para o lulopetismo impor sua agenda.[3]

Aqui levantamos algumas questões para a análise desse quadro:

  • O governo Lula deveria aceitar um modelo mais próximo dos governos FHC e Lula 1, com maior participação parlamentar?

  • Quais os elementos centrais do conflito entre o governo Lula e os partidos do centrão?

  • Quais partidos políticos precisam decidir se aderem ao governo ou se devem se posicionar como oposição?

Essas questões também precisam ser colocadas em perspectiva para analisar o jogo político na Bahia, onde a polarização política também se reflete na disputa entre forças progressistas e conservadoras, influenciando alianças partidárias e estratégias eleitorais locais.

Tarefa para o próximo artigo.

Por ora, reflitamos a partir do fato de que estando o ex-presidente Jair Bolsonaro fora do jogo eleitoral de 2026, cresce a especulação de nomes para o espectro político de direita e centro-direita, enquanto a esquerda e a centro-esquerda lutam para manter sua hegemonia.

No entanto, diante do esgotamento do embate entre lulopetismo e bolsonarismo, surge a necessidade de uma alternativa capaz de apontar um novo caminho para o Brasil.

Mas, como diz o provérbio japonês “Quando o dedo aponta para a lua, o idiota olha para o dedo”, o que significa dizer que as pessoas devem olhar não para o seu próprio umbigo, mas para o que é importante.

O que importa agora é observar, tendo como pano de fundo as eleições municipais de 2024, quem está à frente na arrumação do tabuleiro, como as peças estão sendo colocadas e quais os principais jogadores que já estão estudando e ensaiando as jogadas.

O que salta aos olhos nesse cenário é o fato de que tem três elementos que estão se colocando como protagonistas nesse jogo, a saber, Jair Messias Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva e o Partido dos Trabalhadores (PT), com sérios problemas na justiça, o primeiro, e nas ruas os dois últimos.

Mas, como a política não é questão de lado e sim da forma como é jogado o jogo e como são gerenciados os conflitos, levantamos as seguintes perguntas:

  • Lula e Bolsonaro estão mesmo aptos a jogar esse jogo?

  • Se sim, de que lado o lulopetismo e o bolsonarismo estão posicionados no jogo?

  • O lulopetismo e o bolsonarismo estariam do mesmo lado?

  • Essas correntes políticas (lulopetismo e bolsonarismo) adotam o mesmo modo populista de gestão de conflitos?

  • Os modos de gestão de conflitos do lulopetismo e do bolsonarismo são duas bandas com um centrão no meio?

Continuamos levantando questões:

  • O ex-presidente Jair Bolsonaro, mesmo estando inelegível e talvez até preso, será um ator central na sucessão presidencial de 2026?

  • Qual a força política que o presidente Lula terá para disputar o próximo pleito ou emplacar um nome da sua própria agremiação?

  • Seria possível surgir uma força política com pretensões presidenciais fora da polarização lulopetismo/bolsonarismo?

  • Que papel o modelo programático baseado na combinação de “Pobrismo” e “Rentismo” (bolsa-auxílio e subsídios de baixos valores) terá nesta próxima eleição?

  • Será que realmente haveria espaço para uma terceira via na política nacional?

  • A população brasileira estaria pronta para superar a dicotomia que domina o atual debate político?

  • O “Projeto Nacional de Desenvolvimento”, de Ciro Gomes, se apresentaria como uma resposta estruturada para romper com os antagonismos políticos, os quais têm levado o país a uma estagnação política e econômica e a um esgarçamento social e moral?

Essas são as questões que os artigos desta semana buscam explorar, iniciando-se hoje, 31 de março, dia em que lembramos os 61 anos do golpe de Estado no Brasil, quando foi deposto o presidente brasileiro João Goulart por um golpe militar, deflagrado entre 31 de março a 1.º de abril de 1964, pondo fim à Quarta República (1946–1964) e iniciando a ditadura militar brasileira (1964–1985).

Ao iniciarmos esta série de reflexões sobre Política, guardemos na memória, como quem come pão sem fermento e bebe ervas amargas, a lembrança dos 476 anos de fundação da cidade de Salvador, a primeira capital brasileira, ocorrido no dia 29 de março de 1549.

Devemos guardar na memória que Tomé de Sousa, o primeiro governador-geral do Brasil, ao erguer a cidade de Salvador às margens das águas da Baía de Todos os Santos, trouxe com ele o modelo de economia baseado nos engenhos de açúcar, com seu sistema escravista, além dos primeiros missionários jesuítas para catequizar os indígenas primeiro e, na sequência, os povos africanos, fundando também o primeiro bispado do Brasil, chefiado por Dom Pero Fernandes Sardinha.

A cultura e a identidade brasileira foram fortemente influenciadas por esse substrato histórico, com a miscigenação de tradições africanas, europeias e indígenas, processo ocorrido desde o descobrimento do Brasil, no final do século XV.

As influências dessa estrutura colonial, com seu modelo próprio de opressão e “servidão voluntária”, deixaram um legado de desigualdade, injustiça social, racismo, violência e colonização mental, que ainda se fazem presentes.

Essa desigualdade ainda insiste em separar os dois “Brasis”, como bem sintetizou o economista francês Jacques Lambert, à respeito da dicotomia existente na nação brasileira, no título do seu livro “Os dois Brasis”, publicado em 1967.

Na concepção de Lambert, foi a partir do governo de Getúlio Vargas que deu-se o início da superação do modelo de colonização europeia, o Brasil europeu se impondo ao Brasil africano, através do resgate da modernidade do centro-sul e do sul contra o atraso e a miséria do nordeste.

Em “O Povo Brasileiro”, o antropólogo Darcy Ribeiro avança a concepção lambertiana, abordando a história da formação étnica e cultural do povo brasileiro, estabelecendo 5 “Brasis” diferentes: O Brasil sertanejo, O Brasil crioulo, O Brasil caboclo, O Brasil caipira e o Brasil sulino.

Nos “brasis” de Darcy Ribeiro vemos a história contraditória e brutal marcada na formação de um “povo novo”, constituído de uma maneira violenta e desumana, e cujo processo específico de formação têm reflexos únicos e exclusivos até os dias de hoje.

Esse ainda é o “nó górdio brasileiro” (expressão que significa um problema aparentemente insolúvel, mas que pode ser resolvido de forma simples e eficaz), o qual só pode ser desatado com um Projeto Nacional de Desenvolvimento.

Boa leitura!

  1. FRAGMENTAÇÃO OU REORIENTAÇÃO DO BOLSONARISMO – UM NOVO EIXO DE LIDERANÇA À DIREITA?

Desde o fim do governo de Jair Bolsonaro e sua consequente inelegibilidade, o campo da direita brasileira se encontra em um processo de fragmentação, reorganização e disputa por liderança, que começou a se movimentar claramente depois que o ex-presidente se tornou réu.

O bolsonarismo, ideologia predominante do governo Bolsonaro, que se consolidou como uma força política significativa, enfrenta desafios internos e externos que podem levar à sua ruptura ou à reorientação sob uma nova liderança.

Nesse cenário, o governador de São Paulo, Tarcisio de Freitas, emerge como um nome capaz de articular um novo eixo de liderança no espectro político de direita (associada a conceitos conservadores) e centro-direita (mais moderada).

Bolsonarismo sem Bolsonaro?

O bolsonarismo, fenômeno político de extrema-direita que eclodiu no Brasil com a ascensão da popularidade de Jair Bolsonaro, especialmente durante sua campanha na eleição presidencial de 2018 que o elegeu presidente, possui características próprias que transcendem a figura de seu líder original.

Com forte apelo popular e base mobilizada, o movimento continua influente na política nacional, mas enfrenta a necessidade de adaptação diante da ausência de Bolsonaro na disputa eleitoral.

A falta de um herdeiro natural e as divisões internas entre diferentes alas da direita tornam esse processo ainda mais complexo.

Um Novo Eixo de Liderança?

Ex-ministro da Infraestrutura e atual governador de São Paulo, Tarcisio de Freitas, filiado ao Republicanos, consolidou-se como um dos principais nomes da nova direita, inclusive mantendo portas abertas com outros partidos do espectro de centro-direita, como PSDPP e União Brasil.

Com um perfil técnico e moderado, ele se distancia do radicalismo de setores mais ideológicos do bolsonarismo, sem, no entanto, romper com sua base.

Sua gestão em São Paulo tem buscado um equilíbrio entre a ortodoxia fiscal e a ampliação de investimentos, o que pode torná-lo um nome viável para um projeto de continuidade e reconfiguração da direita.

A “entourage” do governador de São Paulo já articula aproximações com lideranças do centrão e com governadores de outras regiões, sinalizando que sua ambição vai além do território paulista, colocando-se como o herdeiro do bolsonarismo que tem mais apelo eleitoral do que outros nomes do campo conservador.

A ascensão de Tarcísio poderia indicar um novo eixo de liderança e uma transição na direita brasileira para uma agenda menos ideológica e mais pragmática?

Se a resposta for positiva, Tarcisio de Freitas poderá se tornar um polo agregador para setores empresariais, políticos e militares, além de uma parcela do eleitorado conservador que busca um candidato competitivo para enfrentar a esquerda nas próximas eleições presidenciais.

  1. OS DESAFIOS PARA A CONSOLIDAÇÃO DESSE NOVO EIXO DE LIDERANÇA

Apesar do potencial de crescimento, Tarcísio enfrenta desafios significativos.

A fidelidade do eleitorado bolsonarista a Jair Bolsonaro ainda é um fator determinante, e qualquer movimentação que seja vista como uma traição ao ex-presidente pode minar a viabilidade política do seu nome.

Além disso, outros políticos do campo da direita e da centro-direita, como Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Ratinho Júnior e Pablo Marçal, também despontam como alternativas, tornando o tabuleiro político ainda mais dinâmico.

O futuro do bolsonarismo está em aberto, e a direita brasileira se encontra em um momento de transição.

Tarcísio de Freitas se apresenta como uma figura capaz de liderar esse processo, mas sua consolidação dependerá de sua capacidade de equilibrar-se entre a herança do bolsonarismo e a necessidade de construir um projeto político próprio.

As próximas eleições, proporcionais e majoritárias, serão um termômetro decisivo para averiguar se a fervura da direita brasileira manterá a temperatura alta em torno de um novo líder ou se esfriará e permanecerá fragmentada, abrindo espaço para novos atores políticos.

  1. O CENTRÃO E SUA ESTRATÉGIA – COMO ESSE BLOCO POLÍTICO SE REPOSICIONA DIANTE DA CRISE DO BOLSONARISMO E DAS ELEIÇÕES DE 2026.

O centrão, coalizão de partidos com perfil de centro a centro-direita, constitui-se num dos mais influentes blocos da política brasileira, caracterizado por sua flexibilidade ideológica e pragmatismo na negociação de poder.

Na recente história da política brasileira, especificamente a partir da abertura política nos anos de 1980, esse grupo tem exercido um papel fundamental na sustentação de governos, independentemente de seu viés ideológico e inclinação partidária.

Com a crise do bolsonarismo e a aproximação das eleições de 2026, esse bloco do espectro político nacional, popularmente denominado de centrão, busca redefinir sua estratégia para continuar exercendo influência no cenário político.

A Relação com Bolsonaro e o Descolamento Progressivo

Durante o governo Bolsonaro, o centrão tornou-se um aliado estratégico, garantindo governabilidade em troca de espaços na administração federal, comandando os rumos do país como um bloco informal com diversos partidos que se alinharam ao presidente, realizando a velha política fisiologista do “toma lá, dá cá”.

No entanto, com a inelegibilidade do ex-presidente e a fragmentação da direita, esse bloco político reavaliou suas alianças e calibrou suas estratégicas, embora ainda mantenha relação com setores bolsonaristas, busca por novas lideranças que possam representar seus interesses de forma viável nas eleições futuras.

Hugo Mota e o Controle do Congresso

Apoiado por um bloco formado por 17 partidos e 494 deputados, integrando o bloco PLPTPCdoBPVUniãoPPRepublicanosPSDMDBPDT, PSDB, CidadaniaPSBPodemosAvanteSolidariedade e PRD, o atual presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), foi eleito em primeiro turno, com 444 votos, emergindo como um dos principais articuladores do Centrão nesse novo contexto.

Com forte influência sobre a agenda legislativa e capacidade de articulação entre diferentes frentes, Motta está dando continuidade à estratégia de aproximação tática com o governo Lula, ao mesmo tempo em que mantém canais abertos com a oposição.

Esse posicionamento lhe confere poder de barganha significativo para influenciar o próximo ciclo eleitoral, o que foi demonstrado em seu primeiro discurso após ser eleito para o cargo, onde ele fez uma defesa da democracia.

Repetindo o famoso e histórico gesto do Deputado Federal Ulysses Guimarães, quando da promulgação da Constituição Federal de 1988, levantando o texto sob aplausos do Plenário, Motta reafirmou “ter nojo da ditadura”.

Segundo Motta, “o povo brasileiro não quer discórdia, quer emprego; não quer luta pelo poder, mas que os poderes lutem por ele”.

O novo presidente da Câmara disse que não há ninguém acima da democracia e que tem certeza de que o passado é um caminho sem volta, que termina na destruição da política, no colapso da democracia, finalizando o discurso dizendo que “estaremos sempre com a democracia, pela democracia, com a democracia e que seus inimigos encontraram no Legislativo uma barreira como sempre encontraram na história”.[4]

Davi Alcolumbre e a “reconstrução de pontes políticas”

O senador Davi Alcolumbre (União-AP), escolhido no dia 01 de fevereiro de 2025 como novo presidente, comandará o Senado até fevereiro de 2027.

Alcolumbre foi eleito durante votação em primeiro turno, com um total de 73 votos, para um mandato de dois anos.

O novo Presidente do Senado se apresentou como um defensor “intransigente” do diálogo, da construção de pontes e de soluções compartilhadas, ressaltando que o Brasil ainda enfrenta ecos de intransigência e intolerância.

Em seu discurso de posse, Alcolumbre disse que é necessário reconstruir pontes e lembrar que adversários são parceiros no debate democrático, afirmando que pretende conduzir o Senado com altivez, sabedoria e calma, mas também firmeza e independência e que o relacionamento entre os Poderes, embora regido pela Constituição, tem sido testado por tensões e desentendimentos, finalizando seu discurso dizendo que não há futuro sem diálogo, respeito e democracia forte.[5]

Como essas pontes devem ser construídas?

O Brasil atravessa um período de intensa reconfiguração política, marcado pela polarização entre o lulopetismo e o bolsonarismo.

Esse embate não é apenas ideológico, mas também reflete disputas em torno da estrutura de poder, da condução econômica e do papel do Estado na sociedade.

Os antagonismos entre esses dois pólos têm limitado a emergência de alternativas viáveis que possam superar a lógica binária e apontar para um projeto nacional capaz de integrar desenvolvimento econômico, justiça social e estabilidade institucional.

O novo comando do Congresso amplia o risco político para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na segunda metade do seu terceiro mandato, ampliando, consequentemente, o potencial de mais instabilidade política até 2026.

Por um lado, é preciso ter em perspectiva o caso do “Rei do Lixo”, que saiu da primeira instância de Salvador para a Corte em janeiro, e está sob relatoria do Ministro do STF Nunes Marques.

Apesar do senador Alcolumbre não ser investigado, um relatório da PF cita a chefe de gabinete dele como interlocutora do empresário no Congresso.[6]

A leitura comum que se faz hoje, tanto entre parlamentares, quanto entre analistas políticos, é que o rumo dessa investigação tem potencial explosivo e será definidora das relações entre os 2 Poderes, Legislativo e Executivo.

Por outro lado, Hugo Motta, sendo do mesmo partido do governador de São Paulo, Tarcisio de Freitas, trabalha nos bastidores para o fortalecimento do nome do correligionário político à sucessão presidencial em 2026.

Nas articulações políticas nos bastidores, Tarcísio vem recebendo apoio de Hugo Motta, afirmando que ele é um “grande nome” para concorrer às eleições presidenciais, o que levanta a hipótese de que se faltava ao governador de São Paulo um aliado de peso como porta de entrada na “corte” de Brasília, agora ele tem.[7]

A CONSTRUÇÃO DE PONTES PARA O DESENVOLVIMENTO

Diante desse cenário, em que o espectro político de direita e centro-direita já está mexendo as peças do tabuleiro e a esquerda e centro-esquerda parece que ainda não se acomodaram à mesa do jogo político, cria-se uma excelente oportunidade para ultrapassar a clivagem social.

É preciso uma alternativa para a resolução dessas ambivalências, capaz de construir pontes que vão além das polarizações, dos antagonismos, das disputas personalistas e apresente propostas concretas e viáveis que respondam às demandas estruturais do país.

A polarização entre lulopetismo e bolsonarismo, ao invés de representar um embate ideológico genuíno, reflete a persistência de um Brasil marcado pela fragmentação histórica descrita por Darcy Ribeiro, em seu clássico “O povo brasileiro”.

Os cinco “brasis” que ele identificou — o Brasil Litorâneo, o Brasil Sertanejo, o Brasil Crioulo, o Brasil Caboclo e o Brasil Sulino — não são apenas categorias geográficas ou culturais, mas expressões de uma história de exclusão, violência e desigualdade.

Essa conformação contraditória histórica do país, fruto de um processo formativo brutal, retomado por Ariano Suassuna na ideia dos “dois Brasis”, um Brasil elitista e outro popular, consolidou um Estado que se organiza mais para perpetuar privilégios do que para garantir direitos.

O “povo novo”, como afirmou Darcy Ribeiro, é um povo cujas elites sempre buscaram negar sua própria diversidade, impondo modelos econômicos e políticos que aprofundam as contradições ao invés de resolvê-las.

A polarização política contemporânea é apenas o reflexo atualizado dessa estrutura excludente: dois pólos que disputam o poder, mas que, na essência, não romperam com o modelo histórico de dependência e subordinação do país a interesses externos e internos que perpetuam desigualdades.

Este é o verdadeiro “nó górdio brasileiro”: um país que tem imenso potencial econômico, cultural e humano, mas que permanece aprisionado por uma estrutura política e econômica que impede sua emancipação plena.

A solução para esse impasse não será encontrada na mera alternância entre grupos políticos que mantêm a lógica estrutural da dependência e da desigualdade.

Pelo contrário, exige um Projeto Nacional de Desenvolvimento que enfrente o desafio histórico de construir um Brasil soberano, produtivo e socialmente integrado.

Desatar esse “nó górdio brasileiro” não é uma questão de encontrar um líder messiânico ou uma solução imediatista, mas de formular e implementar uma estratégia que coloque o desenvolvimento nacional como prioridade máxima.

Isso significa investir na industrialização com tecnologia própria, na educação como pilar de transformação social, na soberania energética e alimentar, e na criação de um Estado eficiente e democrático que seja capaz de articular os interesses da nação acima dos conflitos conjunturais.

O Brasil precisa se reconhecer como um país plural, superar a armadilha da polarização vazia e adotar um projeto que resgate sua vocação histórica como uma nação forte e soberana.

Somente assim o país poderá, enfim, cumprir seu destino de ser um protagonista no cenário global e garantir que sua população tenha um futuro digno e próspero.

No próximo artigo, refletiremos sobre como esse quadro categórico impacta a política baiana, analisando os desafios e as oportunidades que se apresentam para a construção de um campo progressista alternativo no Estado.

Até lá!

Ricardo Justo – Educador, Ambientalista e Acadêmico de Ciência Política.

Original: https://ricardojusto.com.br/o-no-gordio-brasileiro-a-polarizacaolulopetismobolsonarismo-e-a-alternativa-de-um-projeto-nacional-de-desenvolvimento

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