O Brasil é uma potência na produção de alimentos e, especificamente no caso da exportação de carne de frango, ocupa o topo do ranking global – abastecendo mercados destacadamente na Ásia, Europa e Oriente Médio.
No entanto, paradoxalmente, esse mesmo Brasil não tem capacidade de armazenar seu próprio excedente:
- Milhares de toneladas de frango correm o risco de serem perdidas por falta de infraestrutura logística e de armazenagem;
- E o país, que tem a capacidade de suprir grande parte da necessidade alimentar do mundo, é incapaz de garantir a própria segurança e soberania alimentar.
Essa situação é mais do que um problema conjuntural — é o retrato estrutural de uma negligência histórica:
- Nossa malha logística é insuficiente;
- Nosso parque de armazenagem é defasado e concentrado em poucas regiões;
- E nossas políticas de regulação de estoques estratégicos foram desmontadas por sucessivos governos entreguistas que preferiram confiar “ao mercado” o que deveria ser função de Estado.
Dessa forma, enquanto a produção avança com tecnologia de ponta no campo e nas granjas, os caminhos que ligam o produtor ao consumidor seguem praticamente os mesmos parâmetros, desde o século passado:
- Cerca de 60% das estradas brasileiras são de terra ou estão em péssimo estado de conservação;
- Os portos operam no limite, sem investimentos públicos compatíveis com a demanda;
- E o pior, o Brasil ainda depende, de forma absurda, do transporte rodoviário – caro e ineficiente – ignorando a multimodalidade que países desenvolvidos adotaram há décadas.
No caso específico da carne de frango, a ausência de armazéns refrigerados próximos aos polos de produção gera gargalos logísticos que prejudicam a comercialização interna e externa:
- Quando há excesso de produção, como ocorre ciclicamente em todo setor agrícola, o país simplesmente não tem onde estocar o produto de forma segura e eficiente;
- Resultado, prejuízo para os produtores, desperdício de alimentos e aumento artificial da volatilidade de preços – e impacto na inflação.
A desmontagem de estoques reguladores é fator-chave nesse contexto:
- A Conab, que já foi uma das principais ferramentas de regulação e segurança alimentar no Brasil, hoje opera com capacidade limitada;
- Esvaziada por políticas neoliberais que tratam o armazenamento como custo e não como investimento estratégico.
Esse vácuo estatal deixa o país vulnerável a choques de oferta, inflação de alimentos e insegurança alimentar. Ou seja, não é só frango, é uma questão de soberania.
O que está em jogo não é apenas a carne de frango que pode estragar. É a lógica de um país que não compreende o papel estratégico da infraestrutura, da logística e da regulação pública para garantir desenvolvimento sustentável, estabilidade econômica e justiça social:
- Armazenar alimentos não é luxo — é necessidade;
- É proteção contra crises, garantia de abastecimento e ferramenta de política pública.
A hora é de virar esse jogo. O Brasil precisa de um novo ciclo de investimentos pesados em infraestrutura logística, com foco em armazenagem, transporte multimodal e inteligência territorial:
- Reconstruir a capacidade pública de planejamento e intervenção;
- Reerguer os estoques reguladores e integrar o campo à cidade com eficiência.
O Novo PAC é um passo importante, mas precisa ter a coragem de priorizar a soberania alimentar e a logística do país como eixo estratégico:
- Não podemos mais aceitar que toneladas de alimentos se percam porque o Estado falhou em garantir o básico;
- Afinal, armazenar é planejar, e investir em infraestrutura é construir a soberania do país.
Esse cenário não é fruto do acaso — é resultado direto de uma lógica econômica que enfraqueceu o Estado, desmontou instrumentos de regulação e sabotou a capacidade de planejamento nacional.
É a gestão neoliberal da economia que está por trás de tudo isso e romper com essa lógica não é apenas urgente: é condição indispensável para garantir nossa soberania, nossa segurança alimentar e o direito do Povo Brasileiro a um desenvolvimento digno, estável e justo.
