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Uma equação elegante (e não precisa ser economista para entender). Por Felipe Cordeiro

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Yt = ΦYt-1 + εt

Quem é você hoje?

Um acontecimento repentino da natureza?

Um ser que surgiu de repente e já domina a fala, organiza pensamentos, veste roupas, vai trabalhar, toma decisões etc.?

Ou você hoje é um somatório das várias cópias suas do passado mais alguma coisa peculiar, talvez uma inovação, da qual não poderíamos inicialmente prever?

E será que o que eu vejo hoje não é apenas uma fatia de você?

Provavelmente sim.

Mas essa sua fatia traz consigo o carregamento de tudo o que você foi.

Em maior ou menor grau.

E é inegável que há grande audácia em tentar caber o ser humano em simples equação, mas e se essa equação inicial conseguisse exprimir uma síntese das suas trajetórias possíveis?

Seja para você, seja para outro ser humano, seja para o intricado e complexo sistema econômico?

E talvez político.

Um componente que indica o quanto presente carrega do passado (ΦYt-1), e usamos um período apenas para ilustração.

E uma surpresa (εt)

Talvez essa equação diga muito.

Me chamou a atenção um certo carro alegórico no carnaval paulista desse ano.

A cabeça degolada do Dom Pedro II empunhada nas mãos de um índio valente.

A imagem correu o mundo.

E os nossos irmãos lusitanos não ficaram de fora.

Em redes sociais muitos patrícios consideraram tal representação um ato de ressentimento e de inferioridade por parte dos brasileiros.

Eis que um soltou (e não era piada de português):
– Ora pois… (grifo nosso)
não entendo por que os brasileiros se ressentem tanto com a colonização, sendo que o Brasil foi colonizado por filhos de portugueses, ou seja, brasileiros natos, e não pelos próprios portugueses.

Ora pois, o simples carro alegórico do Acadêmicos do Tucuruví, objetivado a sintetizar a nossa historia em minutos de desfile, catapultou um debate que é a cara da análise econômica.

O quanto o presente carrega do passado?

Uma pergunta extremamente difícil e que nem uma base de dados longa e um computador potente parecem ser capazes de responder com precisão.

O que fica é a contraposição de narrativas a partir de perspectivas históricas distintas.

Para os patrícios, ou a maioria deles, o que nos definiu foi o εt.

Um choque aleatório, fruto da mistura de raças, crenças, valores e condições ambientais convivendo juntos e da qual naturalmente sairia uma identidade e uma direção.

Dali em diante seria o povo brasileiro (fruto dessa síntese) que lideraria o seu destino e todo o carregamento posterior seria fruto de sua própria cultura.

Um brasileiro poderia contra-atacar ao dizer que as nossas estruturas, manifestamente viciadas, são frutos da inércia da forte herança portuguesa (escravidão, corrupção, patrimonialismo, negligência, política de terras, monocultura de exportação) .

Ou seja, é o ΦYt-1

E não importa o quão forte tenta sido os choques que vieram depois (oportunidades, crises mundiais, rearranjos econômicos etc).

O alto grau de inércia determinou a qualidade das nossas instituições.

Um excelente debate. Em que todos parecem estar certos e errados ao mesmo tempo.

Semelhante a um filho que põe a culpa no pai ou na mãe por ter ido de mal a pior na vida enquanto o pai e a mãe dizem que seus fracassos são de ordem pessoal, fruto das escolhas que fez.

Comida e bebida nunca faltou, independente da qualidade destas.

Talvez você fique do lado do pai e da mãe. Se você for pai ou mãe, por exemplo.

Mas curiosamente fique do lado do Brasil, no exemplo colonial.

Não é conclusivo.

Mas o que fica é que o grau de carregamento do passado sobre o presente não parece ser fácil de mensurar como nas equações para vetores autoregressivos (não morde, e aliás é a equação que ilustra esse artigo).

O debate histórico, para não dizer o embate, sempre prevalece e as formalizações matemáticas parecem uma maneira de tentar acomodar isso.

Ao menos na economia costuma ser assim.

E por algum motivo, talvez qualidade técnica, o Tucuruví foi rebaixado para o grupo de acesso do carnaval paulista de 2026.

E poderíamos nos indagar.

Será que o rebaixamento da escola, logo no ano deste desfile controverso, porém igualmente rico, é apenas um choque aleatório que tende a se dispersar rapidamente ou vai definir a estrutura da escola para os próximos e próximos anos?

No Brasil, como no Tucuruvi, como no próprio indivíduo, o peso do passado e a potência do presente não se anulam — eles coexistem, tensionam-se, e talvez os façam caminhar como quem tropeça em seus próprios rastros enquanto tenta olhar para frente.

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