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Leiam Logo!, por Paulo Moreira Franco

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Paulo Moreira
Paulo Moreira
Economista aposentado do BNDES

“That you be this and nothing more
Than just some grateful faithful woman’s favorite singing millionaire,
The patron Saint of envy and the grocer of despair,
Working for the Yankee Dollar.”
(Field Commander Cohen)

Entre o momento em que escrevo e o momento em que isso chega aos seus olhos, querida leitora, tudo pode ter mudado, tudo pode ter ficado obsoleto, errado, de sinal trocado. Encare como peças de um combinado, cortado para consumo imediato, mas que talvez ainda possa acordar na geladeira no dia seguinte.

Mas antes que o feriado chegue, aqui vai um apanhado de coisas sobre o que pode ser a véspera do apocalipse, ou o começo de transformações mais profundas do que o usual da ordem internacional.

Se de alguma forma o que você for ler parecer estranho perto do que você tem visto na imprensa, seja brasileira ou internacional, é porque quase nada dessas coisas foi utilizada na confecção deste artigo. Elas são hoje pura propaganda, com o agravante de que uma parcela significativa da opinião pública americana – os ativistas e eleitores MAGA – está excluída ou distorcida nesse debate. Minhas fontes? Uma miríade de tuiteiros, alguns blogs e órgãos de imprensa da internet (como Grayzone, Martyanov, Moon of Alabama) canais de YouTube (como o do Judge Napolitano e o The Duran, por exemplo), alguns jornalistas, bem como órgãos de imprensa russos, no Telegram.

Mas vamos às peças.

O país que acabará:

Independente do desenrolar da guerra, Israel acabará. Não no sentido do regime sionista ser varrido do mapa, como dizia o aiatolá. Israel, aquele estado moderno, tecnológico, aquela Zona Franca de Manaus em meio ao árido sudoeste da Ásia, esse acabou. Não só por conta da destruição causada pelos mísseis iranianos, do qual vou tratar mais adiante. Mas se você é um profissional ou um negócio que pode operar na escala de um mundo globalizado, por que cargas d’água você vai morar num lugar sujeito a bombardeios eventuais, com risco de ser convocado para uma guerra que é conduzida e decidida por um eleitorado cada vez mais irracional, cada vez mais dominado por fundamentalistas religiosos? Você pode morar em Lisboa, no Brooklyn, em Marbella, Sóchi, Goa. Há tantos lugares mais seguros, mais tranquilos de se sentar em frente a um computador e se produzir valor. De se construir um laboratório de pesquisa, fabricar chips.

Israel proibiu as pessoas de saírem do país no momento. Não tenha dúvida que, tendo a situação tranquilizado, o grosso dos 20% por cento que fazem os 80% da riqueza de Israel vai embora. Não vai ser a saída de Netanyahu após a guerra que dará tranquilidade a essas pessoas. A insanidade que produziu essa coalizão vai continuar, cada vez mais forte, com a saída de cada um desses profissionais altamente qualificados.

A sinuca do sucesso:

Mais do que ninguém, Israel encarna o mito americano da supremacia aérea. A ideia de que você pode bombardear impunemente quem quiser, que seus aviões, continuamente atualizados com novas tecnologias, terão sempre imunidade às defesas dos povos atrasados sobre os quais você exerce seu esculacho. Isso funcionou, com um cuidado ou outro, por décadas.

Regra básica em qualquer processo onde reina a Rainha Vermelha: o mundo gira. A evolução, essa coisa tão antifrágil, acontece. E tanto russos quanto iranianos seguiram um outro caminho: mísseis e drones. Décadas nesse caminho. Décadas levando em consideração o poder aéreo do outro lado. Não que os russos não tenham aviões, bons aviões. Não que Israel não tenha sido pioneira no uso de drones, e mesmo os EUA não os use. Mas isso nestes é secundário.

Um dos problemas de uma instituição é a experiência pessoal das pessoas que comandam. Você põe um cara cuja carreira foi construída na BNDESPAR e ele vai ficar falando em assets num evento com representantes de governos da região amazônica e ongueiros, só para dar um exemplo que testemunhei no Banco, faz mais de década. A experiência pessoal de quem comanda a parte aérea (e, no caso dos EUA, a naval) é construída sob a perspectiva do avião de caça praticando o soberano esculacho sobre bárbaros incautos.

Isso acabou de várias formas. Uma delas, os mísseis antiaéreos e sistemas de radar que há hoje, o que garante os céus quase vazios de parte a parte que existem na Ucrânia, por exemplo. Mas outro lance para o qual deve se prestar atenção é o que aconteceu no pequeno conflito entre Paquistão e Índia. A Índia, com o mais sofisticado que o Ocidente se dispôs a lhe oferecer, Rafales franceses, teve alguns aviões abatidos no que achava (pelo menos o governo indiano, não necessariamente a cautelosa força aérea indiana) seria uma demonstração de superioridade sobre os paquistaneses. Do outro lado, o que pareceriam só aviões, era sua integração num sistema chinês onde o avião que dispara o míssil não é o que aponta o míssil, ambos operando num formato atualizado de guerra centrada em rede. O individualismo heroico do piloto de caça não tem mais lugar, por mais que se filme Maverick atacando o Irã (o outro país que usou, e usa, o F-14).

Há outros vícios de origem que as ações militares carregam. O Exército para a Defesa de Israel foi construído a partir das três milícias terroristas que operavam no Mandato Britânico da Palestina. Num certo sentido ele se confunde com o próprio estado de Israel, e, creio, carrega dentro de si parte da fragmentação política que existe em Israel. Talvez isso explique por que Israel se manteve ao longo da história como uma democracia sem golpes militares ou quarteladas. Mas além de se ter forças armadas que seguem, com bastante fidelidade, o que o governo de uma mutante maioria propõe, a outra contraparte dessa história é uma competência e uma paixão pela operação de forças especiais. E sucesso inicial do ataque ao Irã foi, no fundo, uma operação de forças especiais. Cruzando na rua com aquele amigo ultra sionista que já mencionei num artigo anterior, ele mencionou as duas mil milhas de distância entre Israel e Irã, o quanto isso dificulta o uso de aviões, e contemplamos a beleza que foi o uso de drones nos ataques localizados.

O problema das operações especiais é que elas são um lance de bola parada. Funcionam na primeira vez, mas a partir daí vai haver marcação. Você pode ter vários truques desses na manga, mas continuamente o adversário se adequa a eles. Esses truques também começam a deixar as pessoas paranoicas, o que encarece sua possibilidade de fazer novos truques, comprometem seus eventuais aliados neles. Pensem na história dos pagers que explodiram, por exemplo. Ou dos aplicativos da Meta servindo de espionagem e localização para atentados (um carro bomba feito pelo governo de Israel para matar um cientista ou militar iraniano em sua casa é um atentado terrorista. Terrorismo se define pelo método, não por quem pratica).

O país que não sabemos se ainda está lá

O quanto de Israel ainda está operacional, seja em termos de bases aéreas, seja em termos de seus portos e aeroportos? O quanto de indústria petroquímica, de capacidade de refino ainda existe? As instalações nucleares, os estoques de armas, foram comprometidos? Nada disso se sabe. Há uma censura forte acontecendo.

O Irã se preparou para uma guerra longa, uma guerra a partir de mísseis bem escondidos e ações de reciprocidade. Israel, assim como os americanos, costuma operar com os all ins do esculacho. Israel trabalha com a premissa de que pode sair gastando munições sofisticadas e caras porque os EUA, muito maiores, irão repô-las. E isso funciona muito bem quando quem você atinge é gente precariamente armada (Gaza) ou que não irá responder à altura (antiga Síria). No caso do Irã o buraco é literalmente mais embaixo, e as munições de que se dispõe não vão destruir o que se quer. Há retaliação, e é limitada a capacidade se abater o que do ponto de vista dos sistemas de defesa aérea é uma quantidade infinita de misseis.

Façamos um pequeno exercício mental: você é o governo americano e vê um governo israelense, o qual você não pode sequer estimular os militares a dar um golpe e colocar alguém razoável no lugar; um governo de um cara que quando sair de primeiro-ministro será mandado pelo Xandão local para a Papuda e, portanto, não tem o menor interesse em qualquer coisa que implique numa resolução dos conflitos. Acabadas as munições, esvaziados os estoques americanos no limite da irresponsabilidade, qual a ação que restaria a Bibi fazer? Eu levaria muito a sério um telefonema particular dizendo que vai usar uma arma termonuclear.

Cara leitora, minha desconfiança é que nesta altura do campeonato a capacidade de Israel se defender do contínuo ataque iraniano esteja seriamente comprometida. A movimentação das forças de porta-aviões em direção à região, por exemplo, mais do que algum ataque que eles possam fazer é para levar algumas centenas de mísseis que possam funcionar contra os drones e mísseis menos modernos do arsenal iraniano. Esses mísseis estão nos navios de escolta dos porta-aviões, e eles foram concebidos exatamente para enfrentar um ataque de muitos mísseis simultâneos. Um ataque sério às instalações nucleares iranianas seria feito com os B-2 operando a partir de Diego Garcia no Índico, escudados por F-22 fazendo algo performático nos céus iranianos a partir de alguma base no Golfo. A menos, claro, que o Nimitz, o mais antigo porta-aviões em uso da Marinha americana, que será aposentado no ano que vem, tenha sido renomeado para USS Beautiful Liberty, caso em que eu não sei o quanto a Marinha americana gostaria do precedente de um porta-aviões nuclear afundado.

O que abre para a última peça…

O enterro da coalizão Trump

O movimento MAGA é contra as guerras dos EUA no Oriente Médio. O movimento MAGA é contra o gasto militar desenfreado, sem o menor propósito que existe hoje. O compromisso dele com Israel e Bibi: zero. A preocupação deles com a AIPAC: perto de zero. America First quer dizer primeiro resolvemos as questões americanas, e depois o mundo que se vire. Seja Tucker Carlson, seja Bannon e o pessoal associado a ele, sejam os cristãos não evangélicos como Candace, Cernovich, Martyr Made e outros tantos que fazem parte da tuitosfera MAGA, ninguém quer os EUA envolvidos numa guerra na qual eles acham que Israel não deveria ter se enfiado. E não estamos falando de pessoas que sejam pró-Palestina, frise-se bem.

A revolução que acontece nos EUA vai se tornar mais caótica com esse processo. A demanda MAGA é que os esforços de defesa no momento se concentrem na deportação de imigrantes ilegais. A pessoa da confiança deles que comanda a inteligência americana no momento, Tulsi Gabbard, já deu sinais de que sairá no caso dos EUA entrarem numa guerra com o Irã (a inteligência americana não referenda a ameaça declarada por Bibi). Trump entrar nessa guerra é trair o eleitorado que o elegeu.

Em paralelo, isso vai agravar o desmonte do Ocidente/OTAN. Começado o verão, a aventura ucraniana vai experimentar uma nova ofensiva russa. O conjunto de crescente irrelevância com o qual o presidente Lula tirou foto ontem vai ver as manifestações crescentes contra o apoio que estão dando a Israel nessa guerra, contra o envolvimento no insucesso ucraniano num momento de austeridade que esses países atravessam. E isso supondo o Estreito de Ormuz funcionando direitinho.

Aliás, precisava o Lula ter ficado ao lado do Zelensky na foto? Não tem uma pessoa no Itamaraty que possa impedir um erro desses?

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