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Dissonância cognitiva e estupidez a serviço do maligno no mercado da fé. Luiz Henrique Lima Faria

Luiz Henrique Lima Faria – Professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e Editor-Chefe da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (RINTERPAP).

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Tenho me preocupado com essa naturalização da percepção de que vivemos tempos em que a realidade já não precisa fazer sentido, bastando ser distorcida para confirmar as crenças pré-existentes de cada um.

Entendo que é assim que a dissonância cognitiva deixa de ser um possível mecanismo de autocrítica e se converte em combustível para a estupidez humana.

Para compreender as minúcias desse fenômeno, recorro ao psicólogo social estadunidense Leon Festinger (1919–1989), que, em 1957, publicou Teoria da Dissonância Cognitiva.

Nessa obra, o conceito de dissonância cognitiva é descrito como o incômodo psicológico que surge quando um indivíduo é confrontado com informações ou fatos que não se articulam logicamente com suas crenças, valores ou expectativas.

Diante desse desconforto, o sujeito exposto à contradição entre sua crença e a realidade factual é levado a reduzir a dissonância, seja mudando a própria crença, ajustando a percepção dos fatos ou distorcendo a realidade até que ela confirme aquilo em que já acredita.

O problema, porém, é que nem sempre se escolhe o caminho da revisão crítica.

Na maioria das vezes, opta-se pela simples negação da realidade, pela racionalização forçada ou pela fabricação de narrativas paralelas que aliviem o desconforto psíquico, ainda que à custa do próprio entendimento sobre a verdade dos fatos.

Um exemplo eloquente desse fenômeno, hoje evidente no ambiente religioso brasileiro, é o chamado neopentecostalismo israelita.

Trata-se de uma teologia que ignora história, geografia, lógica e até as próprias Escrituras, sempre que elas não servem ao projeto de poder.

Que sentido há em ver brasileiros, herdeiros de múltiplas matrizes culturais, portando bandeiras do Estado de Israel contemporâneo, marchando como levitas de ocasião e declarando-se o “povo escolhido”?

Sob essa aparência despida de sentido, seus templos funcionam como cassinos.

A fé vira cacife para aposta.

Para lastrear esse ativo simbólico, os escroques religiosos convertem referências a Israel em símbolos de poder e promessa de prosperidade, explorados à exaustão como atestados de deferência e tradição.

Tudo isso enquanto ignoram o fato elementar de que a própria crença religiosa de Israel, o judaísmo, sequer reconhece a divindade de Jesus.

Trata-se da transformação de Israel em fetiche, da ignorância em método e da ganância em liturgia.

Uma arquitetura simbólica cuidadosamente desenhada para operar como máquina de captura emocional e financeira.

Um modelo perfeito para estelionatários da fé, que se profissionalizaram na arte de converter delírio espiritual em lucro mundano.

O mais espantoso não é que isso exista.

O assustador é que isso prospere.

Nesse ponto recordo dos pensamentos de Umberto Eco (1932-2016), filósofo italiano, autor de obras fundamentais como O Nome da Rosa, que em seu livro Construir o Inimigo e Outros Escritos Ocasionais alerta que “a estupidez humana é mais fascinante que a inteligência, a inteligência tem limites, a estupidez não”.

Nesse sentido, penso que Eco nos ajuda a compreender que não se trata de mera falta de conhecimento, mas de uma verdadeira edificação psíquica, construída sobre a recusa ativa do pensamento.

A estupidez, nesse contexto, não é ausência de inteligência, é método em plena operação.

Um método que transforma a dissonância cognitiva em blindagem emocional, capaz de proteger qualquer delírio contra os riscos da realidade.

Percebo, sob esses entendimentos, um sistema perfeitamente afinado à lógica do capitalismo da fé.

Quanto maior a vulnerabilidade psicossocial dos fiéis, maior o apetite do mercado religioso sobre suas carteiras.

Nesse jogo, o neopentecostalismo israelita opera como uma startup teológica de alto desempenho.

Diante desse contexto, a dissonância cognitiva deixa de ser um alerta psíquico capaz de produzir estranhamento e abalar certezas.

Converte-se em ferramenta de engajamento e dominação.

E o pior do extremismo religioso se instala.

Todo aquele que ousa questionar a autenticidade dessa encenação caricata é acusado de perseguição espiritual.

A realidade, quando não serve, é demonizada.

O olhar crítico vira afronta e o saber, obra do maligno.

Sob esse cenário, afirmo que é preciso reconhecer que não se trata apenas de ignorância ou delírio religioso.

Trata-se também de um projeto político.

Um projeto que instrumentaliza a fé, sequestra a espiritualidade e opera a partir da perversidade humana, que explora a dor, a miséria e o desespero como ativos de mercado e como estratégia de dominação.

Combater esse amálgama de canalhice e ganância não é mero exercício de crítica intelectual.

Penso tratar-se de um imperativo civilizatório urgente.

Percebo que há, ainda, um caminho possível.

Restaurar a fé real, que só se sustenta pela restauração do pensamento crítico, pela revalorização do saber, pela disputa permanente do sentido e pelo desmonte implacável das farsas que transformam Deus em promessa de monetização e a fé em dispositivo de controle.

Porque, se a dissonância cognitiva e a estupidez são hoje ferramentas a serviço do maligno, que o conhecimento, a lucidez e a educação crítica se transformem, sem melindres e sem concessões, em instrumentos efetivos de resistência e transformação social.

Que sejam capazes de proteger não apenas o corpo, mas o espírito onde habita a consciência, a autonomia e a dignidade dos brasileiros, rompendo os ciclos de manipulação, ignorância e exploração.

Assim seja.

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