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Paraíso dos ricos e do capital, inferno dos trabalhadores? Por Rodrigo Medeiros

Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e editor da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (Rinterpap)

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No dia 18 de junho, a partir da matéria publicada no portal G1, assinada por Júlia Nunes, tomei conhecimento de que o Relatório Global de Riqueza 2025, divulgado pelo banco suíço UBS, analisou 56 países que representam mais de 92% da riqueza mundial.

Farei alguns comentários sobre o assunto.

Creio ser interessante citar novamente o livro ‘Natureza, cultura e desigualdades’ (2024), de Thomas Piketty, editado pela Civilização Brasileira.

De acordo com o economista francês, para a América Latina, “de modo geral, a presença da herança colonial é muito constante na estrutura das desigualdades”.

O ministro Fernando Haddad, da Fazenda, afirmou publicamente que o Brasil tem uma “caixa-preta” de R$ 800 bilhões em renúncias fiscais.

Um país nunca é igualitário ou desigualitário por natureza.

O Brasil vai pagar quase R$ 1 trilhão com juros da dívida em 2025.

Segundo Piketty, “tudo depende de quem controla o Estado e com qual objetivo”.

A trajetória histórica importa.

Entre 1900 e 2020, conforme consta na World Inequality Database, a estrutura da concentração de renda no Brasil pouco se alterou.

Tal fato explica, em parte, os insucessos das políticas de desenvolvimento econômico, inclusive a partir do processo de substituição de importações, que foi inicialmente uma reação aos contextos da crise de 1929 e da Segunda Guerra Mundial.

De acordo com Nunes, “ter um grande número de milionários não significa, necessariamente, que a população de um país seja rica”.

Conhecemos bem como a riqueza de alguns poucos pode ser construída a partir da desgraça de muitos.

Nesse sentido, o reformismo brasileiro se assemelha à fórmula clássica de Lampedusa: mudar para manter as coisas como estão.

Quando os muito ricos e o capital correm o risco de serem politicamente confrontados em seus privilégios, a crise se instala na República.

Conforme relevou o Nunes, “o Brasil também aparece no relatório com o maior índice de desigualdade de riqueza entre todos os países pesquisados”.

O Brasil é o segundo país no ranking do relatório com o maior volume previsto de heranças, com projeção de quase US$ 9 trilhões nas próximas décadas.

De acordo com os números, o Brasil está longe das primeiras posições quando o critério é a riqueza média por adulto, que considera o patrimônio total do país dividido pelo número de adultos.

Entre nós, no Brasil, o valor é de aproximadamente US$ 31 mil, abaixo da média da América Latina (US$ 34,7 mil) e distante dos países desenvolvidos, como são os casos da Suíça (US$ 687 mil) e dos Estados Unidos (US$ 620 mil).

O Índice de Gini, que mede desigualdade, foi de 0,82 no Brasil em 2024.

Segundo o Novo Caged, do Ministério do Trabalho e Emprego, o salário médio formal de admissão foi de R$ 2.248,7 em maio de 2025.

A informalidade laboral foi de 37,8% e, de acordo com o IBGE, a taxa composta de subutilização esteve em 14,9% para o trimestre encerrado em maio, enquanto o rendimento médio mensal real habitual chegou a R$ 3.457.

Como reação à Constituição de 1988, analisou Christian Lynch, em artigo de opinião no Meio Político, de 25 de junho de 2025, o reacionarismo de partes das classes médias e das elites econômicas emergiu.

O fracasso da ruptura institucional de 8 de janeiro de 2023 promoveu o enfraquecimento desse movimento.

Para o cientista político, o seu “enfraquecimento não resulta apenas da repressão institucional que se seguiu à tentativa de golpe, mas sobretudo do sucesso da direita convencional”.

De acordo com o jornalista André Barrocal, na edição de número 1.368 da CartaCapital, de 2 de julho de 2025, o “novo Plano Safra terá um volume recorde de dinheiro, segundo um integrante da equipe econômica, como ocorreu nos anos anteriores – 435 bilhões de reais em 2023 e 476 bilhões em 2024”.

Chegou-se a falar em 500 bilhões de reais.

O agronegócio pede 600 bilhões de reais, em um contexto de isenções fiscais bilionárias para o campo.

O Brasil tem o segundo Congresso mais caro do mundo, atrás dos EUA.

A maior parte do orçamento paga salários e benefícios do Legislativo.

Conforme foi divulgado na edição digital do Estadão, de 27 de março de 2022, a despesa com parlamentares ultrapassa US$ 5 milhões ao ano.

Sob qual perspectiva oligárquica esses políticos desejam reformar o Estado brasileiro?

Paraíso dos ricos e do capital, inferno dos trabalhadores?

Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e editor da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (Rinterpap)

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