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Leis Zico e Pelé: Destruição da Capacidade dos Clubes Brasileiros. Por Ricardo Guerra 

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As chamadas Lei Zico (Lei nº 8.672/1993) e Lei Pelé (Lei nº 9.615/1998) foram apresentadas como medidas de modernização do futebol brasileiro, mas, com o passar dos anos, revelaram-se um divisor de águas negativo na história da gestão esportiva do país.

Longe de profissionalizar o futebol nacional, como prometiam, essas leis desestruturaram os clubes, fragilizaram suas bases e favoreceram a concentração de poder nas mãos de empresários e investidores.

O golpe mais simbólico foi o fim do passe, que antes permitia aos clubes manterem algum controle sobre seus atletas mesmo após o fim do contrato.

Com o novo regime, os jogadores passaram a se vincular apenas por prazo contratual, e os clubes perderam completamente sua capacidade de reter, negociar ou proteger seus ativos esportivos, resultado:

  • A base virou estoque de exportação precoce;
  • E os clubes, meros formadores sem retorno esportivo nem financeiro proporcional.

As leis abriram as portas para a “empresarialização selvagem” do futebol e ocorreu um grave desequilíbrio na relação clube-jogador-empresário:

  • Agentes e investidores passaram a comandar as carreiras dos jogadores com base em interesses econômicos imediatistas, geralmente alheios ao planejamento esportivo dos clubes;
  • A figura do clube formador foi enfraquecida, e o futebol passou a ser ditado pelo mercado, e não pela lógica esportiva.

A partir daí, com a perda de seus talentos ainda em formação e a falta de mecanismos para capitalizar adequadamente sobre eles, os clubes ficaram com elencos instáveis e sem identidade:

  • Formam, vendem e recomeçam — quase sempre do zero;
  • Assim, o futebol brasileiro, antes celeiro de craques e de campeonatos vibrantes, passou a viver de “revelações-relâmpago” e a sofrer com a falta de continuidade técnica e tática;
  • Não há mais sequer identidade com o clube — e aí, a consequente desnacionalização da estrutura esportiva.

As duas leis incentivaram a privatização e financeirização do futebol, num modelo copiado do exterior, mas sem as garantias institucionais que clubes europeus, por exemplo, ainda mantêm.

Com isso, os clubes brasileiros perderam autonomia, e muitos viraram reféns de grupos empresariais e dívidas impagáveis, agravando sua dependência de vendas e desmontando qualquer projeto de longo prazo.

Não é coincidência que os presidentes da República que sancionaram essas leis foram Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso — dois dos maiores representantes do ideário entreguista no Brasil.

A lógica de desmonte que guiou suas políticas econômicas se refletiu também no futebol, transformando o esporte em mais um território de saque e mercantilização.

Enfim, as Leis Zico e Pelé, ao invés de promoverem o fortalecimento dos clubes brasileiros, aniquilaram sua capacidade de planejamento, retenção de talentos e protagonismo esportivo.

E a promessa de modernização virou um processo de desmonte, entregando o destino do futebol nacional a lógicas de mercado desregulado.

É urgente reabrir esse debate e pensar em um novo marco regulatório que devolva aos clubes — especialmente os formadores — sua capacidade de pensar o futuro com soberania, dignidade e visão esportiva.

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