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Os Estados Unidos anunciaram ontem uma taxa de 50% sobre as importações brasileiras, um dia após a cúpula dos BRICS realizada no Brasil.
A decisão parece é a resposta ao enfraquecimento do debate sobre a desdolarização — tema-chave para o desenvolvimento de países periféricos — que foi tratado de forma marginal durante o encontro.
Para acentuar o gesto, o anúncio veio acompanhado de uma crítica ao Judiciário brasileiro em relação à suposta perseguição política ao ex-presidente Bolsonaro.
A famosa frase atribuída ao ex-Secretário de Estado dos EUA e popularizada por Jeffrey Sachs — “Ser inimigo dos americanos é perigoso, mas ser amigo é fatal” — ressoa com força neste contexto.
O Brasil sediou a cúpula dos BRICS em julho de 2025, antecipando o evento para priorizar a COPE 30, conferência climática da ONU marcada para novembro.
A escolha refletiu um descompasso estratégico: ao favorecer uma agenda temática de uma organização esvaziada de relevância como a ONU, acabou esvaziando o principal encontro entre potências emergentes.
A consequência foi a ausência de lideranças centrais e o congelamento do tema mais urgente — o avanço da desdolarização.
Mesmo que não tenha sido uma concessão intencional, a decisão brasileira acabou confortando os interesses norte-americanos em manter o dólar como padrão hegemônico das trocas internacionais.
O sistema do dólar, concebido após a Segunda Guerra e reafirmado no fim da Guerra Fria, permitiu aos EUA financiar seus déficits comerciais emitindo a própria moeda — um privilégio exorbitante.
Entretanto, essa lógica exige que os EUA mantenham déficits comerciais crescentes para alimentar o comércio global com dólares em circulação.
O problema?
Isso vai contra a política protecionista de Donald Trump, que tenta reduzir o déficit incentivando a produção interna.
A matemática é implacável: se os EUA imprimem menos dólares, há menos moeda para viabilizar o comércio internacional. É aí que está o nó geopolítico atual.
Alternativas ao Sistema Dólar
A urgência por novas soluções é evidente.
Moedas nacionais como o yuan não oferecem viabilidade global, já que a China exporta muito mais do que importa, concentrando a moeda em excesso e tornando-a pouco útil a outros países.
Nesse cenário, a criação de uma unidade de conta internacional pelos BRICS — uma “moeda BRICS” — surge como solução compensatória.
Brasil entre a Omissão e o Alvo
A postura brasileira, ao esvaziar o debate da nova moeda, funcionou como analgésico para o sistema dólar em crise.
Em vez de reconhecimento, veio a retaliação: o presidente americano anunciou a taxação recorde sobre produtos brasileiros e criticou o sistema jurídico nacional — que, embora criticável, não diz respeito aos EUA.
A fábula do escorpião que fere o sapo poderia vir à mente, mas parece uma ousadia semântica.
Parece mais que os Estados Unidos apenas puxaram a coleira de um cão que ladra, assusta as crianças, espanta as visitas, mas não morde ninguém.
