Foi ali pertin do Afonso Pena.
Subindo o viaduto do oiapoque…
A moça que eu me gradei entrou em um desses azulzinhos.
Tá no 4107, sentido Alto Caiçara, olhando para o lado, apertando forte a bolsa, preocupada com o dinheiro que tá contado pra até o fim do mês.
Ela tá que bate o pé de sapatilha no assoalho.
Depois levanta a manga do blusão para consultar a hora.
Mordisca com parcimônia a barra do arcor, toda ansiosa para chegar em casa, fazer o capuccino com torrada e se der pegar o resto da novela.
E depois cochilar.
Ela olha para o lado e fraga uma senhorinha esquisita da camisa preta com detalhe bordô desbotado mexendo a boca como se tivesse falando sozinha.
Depois, volta a olhar para a janela embaçada pela chuva fina que escorre.
Roça, de frio, as pernas uma na outra, fazendo um serrotinho mental.
Olha para o chão, não sabe contar se os relevos metálicos do assoalho formam 4 ou 5 traços.
Bate de novo a ponta dos pés, mais suave.
E volta a olhar para frente.
O cobrador conversa que conversa com a loira de farmácia.
E que não arreda o olho dele desde a rua timbiras.
E que ironia.
De jaleco branco.
Deve trabalhar na farmácia mesmo.
Se não, enfermeira.
Doutora não é.
– E que vontade de uma praia numa hora dessas…
Encontra um bocejo no meio da ansiedade.
E volta a olhar para o lado, pula a senhorinha esquisita para ela não desconfiar.
Um casalzinho de adolescentes se beija com o uniforme do estadual central.
E que vontade que bateu.
E que vida boa, só precisar de estudar.
Sapateia de novo no assoalho, mas promete ser a última.
Ao fundo, espalha-se um som de sirene.
Nunca dá pra saber se é policia ou ambulância.
E a chuva parece que tá dando uma diminuída.
Vai dar tempo de pegar o fim da novela.
Se puder pica a mula seu motorista, se puder pica a mula.


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