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O Nacionalismo Internacionalista Chinês e a Nova Rota da Economia Mundial. Por Ricardo Guerra

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O século XXI está diante de uma encruzilhada civilizatória:

  • De um lado, o Ocidente liderado pelos Estados Unidos, cuja economia segue profundamente vinculada ao complexo industrial-militar, à lógica do consumo desenfreado e individualista, e à hegemonia financeira dolarizada;
  • De outro, emerge a China que, ancorada em um socialismo de mercado, articula um projeto de longo prazo baseado na produção material, na infraestrutura útil e no consumo racional.

Mais do que uma disputa geopolítica, trata-se de um choque entre dois paradigmas de civilização:

  • O nacionalismo excludente e xenófobo promovido por algumas potências ocidentais;
  • E o nacionalismo internacionalista chinês combina orgulho nacional com integração estratégica global – uma concepção que remonta à filosofia de Confúcio e à tradição maoísta de solidariedade entre povos oprimidos, ressignificada agora pelo Partido Comunista, sob Xi Jinping.

A Iniciativa do Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative – BRI), lançada em 2013, é a expressão concreta dessa visão:

  • Ao invés de bases militares, a China constrói ferrovias, portos, usinas e redes de fibra óptica;
  • Que, mais do que obras, são corredores econômicos e infraestruturas logísticas de longo prazo, que desafiam o domínio tradicional de instituições como FMI e Banco Mundial – com mais de US$1 trilhão investidos ou prometidos em infraestrutura, ajudando a conectar Ásia, África, Europa e América Latina. 

Enquanto os EUA mantêm 750 bases militares em mais de 80 países, a China responde ao colapso do neoliberalismo com um modelo produtivo e cooperativo:

  • Isso ficou ainda mais evidente após a crise financeira de 2008 e outras, como a pandemia de COVID-19 e a guerra na Ucrânia;
  • Com a economia orientada pelo rentismo e pelo capital especulativo, de forma cada vez mais visível, mostrando que não consegue sustentar a estabilidade e a possibilidade de crescimento real.

Nesse cenário, em sentido contrário, o modelo chinês apresenta números que impõem respeito e abre importante perspectiva para reflexão:

  • Em 1990, a China representava menos de 2% do PIB mundial; em 2024, responde por cerca de 19%, segundo dados do FMI e, desde 1978, retirou mais de 800 milhões de pessoas da pobreza, de acordo com o Banco Mundial;
  • Além disso, em 2023, 39% de seu PIB provinha da indústria manufatureira — comparado a apenas 11% nos EUA e 10% no Brasil, segundo dados da OCDE.

Enfim, a China aposta em tecnologia de ponta e é líder em energia solar, redes 5G e veículos elétricos, mas a diferença fundamental está no uso civil e produtivo da tecnologia, não subordinada à lógica de guerra ou à obsolescência programada.

Enquanto isso, seguindo a lógica da guerra, os EUA destinaram mais de US$886 bilhões ao orçamento militar em 2024, conforme o seu próprio Departamento de Defesa:

  • Essa cifra ultrapassa a soma dos dez países seguintes;
  • E boa parte dessa verba vai para empresas privadas como Lockheed Martin, Raytheon e Northrop Grumman, alimentando o chamado “complexo industrial-militar”, denunciado ainda nos anos 1960 pelo próprio presidente Dwight Eisenhower.

Em síntese, em vez de gastar bilhões em guerras ou em missões espaciais com finalidade duvidosa, a China envia satélites com foco em clima, navegação, telecomunicações e mapeamento agrário, e avança na cooperação tecnológica com países em desenvolvimento:

  • É nesse contexto que os BRICS, agora ampliados para incluir países estratégicos como Irã, Egito e Etiópia, ganham um novo significado;
  • Ou seja, não se trata apenas de um bloco econômico — trata-se de uma proposta de mundo pós-hegemônico, multipolar e produtivista.

O Brasil, como principal economia industrial da América Latina e detentor de vastos recursos naturais e agrícolas, tem muito a ganhar com essa nova orientação mundial:

  • Em vez de seguir preso ao modelo exportador primário, pode aproveitar o espaço aberto pelo reordenamento da economia mundial para reindustrializar-se — em parceria com a China e outros países do Sul Global;
  • E assim criar um caminho alternativo ao subdesenvolvimento crônico que o neoliberalismo tem legado ao país.

As parcerias na construção do satélite sino-brasileiro CBERS e os investimentos chineses em ferrovias e energia limpa, indicam a viabilidade dessa escolha e, definitivamente, nos mostram que a disputa do século XXI vai muito além de ideologias ou alianças militares.

O que está em jogo são modelos de futuro:

  • Um futuro baseado na produção material, no consumo consciente, na paz e na cooperação multipolar;
  • Ou por outro lado, fundado no endividamento perpétuo, no consumo fútil, na guerra e na dominação unipolar.

O socialismo de mercado chinês, mesmo com suas contradições, tem reorientado o mundo no sentido de melhor atender às necessidades de uma humanidade ameaçada por desigualdades crescentes, colapsos climáticos e crises permanentes — propondo um horizonte de estabilidade, planejamento e desenvolvimento sustentável.

Cabe ao Brasil decidir: continuará preso ao velho mundo em colapso, regido por dívidas, guerras e dependência?

Ou se unirá à construção de uma nova ordem produtiva, soberana e cooperativa?”

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