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Um Gângster na Casa Branca: Donald Trump e o Método de Intimação da Máfia. Por Josemar Ganho

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A presença de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos (2017–2021 e 2025) não apenas desafia as normas tradicionais da democracia liberal, como também introduz um modelo de poder que guarda inquietantes semelhanças com os métodos operacionais da máfia.

As bases fundamentais das negociações se sustentam em interesses e objetivos, com a identificação clara do que cada parte deseja alcançar.

No mundo dos negócios, busca-se lucro, expansão, parcerias e inovação; entre Estados, priorizam-se segurança, influência, comércio e cooperação política.

Para atingir tais objetivos, é necessária uma preparação estratégica que envolve análise de cenários, histórico das relações, avaliação de forças e fraquezas, próprias e do outro, além do conhecimento de normas, acordos anteriores e aspectos jurídicos e culturais.

A comunicação em uma negociação exige clareza, assertividade e escuta ativa.

Em ambos os contextos, empresarial ou diplomático, a linguagem pode ser direta ou sutil, dependendo do momento e da audiência.

O poder de barganha pode ser simétrico ou assimétrico, e as partes apresentam seus recursos disponíveis, alternativas, reputações e alianças, todos fatores que influenciam o poder de negociação.

Mesmo em condições assimétricas, a negociação pressupõe concessões mútuas, desde que não comprometam os interesses centrais.

O compromisso é essencial para gerar confiança e sustentabilidade nos acordos.

Para isso, reputação, transparência e o cumprimento de compromissos anteriores são fundamentais.

Sem confiança, negociações tendem, no curto prazo, ao fracasso.

Toda negociação parte da existência de uma “zona de possível acordo”, o intervalo entre as posições aceitáveis para ambas as partes, e da consideração da melhor alternativa à mesa, caso a negociação não avance.

O método de negociação mafiosa, contudo, é o medo.

A frase clássica; “vou te fazer uma oferta que você não pode recusar”, sintetiza esse princípio.

A escolha oferecida é apenas formal; na prática, trata-se de uma imposição acompanhada de ameaça, seja ela física, econômica ou reputacional.

A máfia prefere controlar por dentro: infiltra-se nas instituições, corrompe autoridades, compra decisões.

Subornar alguém é mais eficaz do que enfrentá-lo.

As negociações mafiosas seguem uma lógica de “família”, lealdade e silêncio.

Quem coopera com o grupo é protegido; quem trai ou questiona sofre retaliação.

O método mafioso não visa à troca, mas ao domínio.

Subverte as bases éticas da negociação ao recorrer ao medo, à corrupção e à violência para obter vantagem, sempre sob o manto da autoridade e da intimidação.

Não se trata apenas de uma metáfora retórica.

Há paralelos concretos entre a forma como famílias mafiosas controlam territórios e a maneira como o trumpismo buscou capturar o Estado, instaurando uma lógica de fidelidade pessoal, intimidação sistemática e deslegitimação das instituições republicanas.

Donald Trump, em seu livro mais famoso, The Art of the Deal (A Arte da Negociação), apresenta um estilo de negociação baseado no domínio, na autopromoção, na teatralidade e na manipulação da percepção pública.

Ele mistura elementos tradicionais do mundo dos negócios com atitudes claramente inspiradas no “jogo duro”, próximas ao que se poderia chamar de método mafioso.

Trump insiste que ambição extrema é essencial; pequenos negócios são para “gente pequena”.

Isso cria uma percepção de força e intimida concorrentes.

Ele recomenda “proteger o lado negativo e maximizar o positivo”, sempre ter um plano para se proteger de perdas, mas nunca falar sobre ele, apenas exibir confiança e otimismo.

Aconselha a criar pressão durante a negociação: elevar os riscos, exagerar nas exigências, mudar os termos no meio da conversa, tudo para forçar o outro lado a ceder.

Considera a mídia uma ferramenta de barganha: espalhar narrativas favoráveis a si mesmo, atacar adversários publicamente, criar fatos consumados por meio da opinião pública.

Nunca recuar; sempre responder com mais força, mesmo que isso signifique romper completamente com o outro lado, impõe medo e constrói reputação.

A desconfiança é permanente: mesmo quando afirma “confiar”, mantém sempre um mecanismo de controle ou uma saída (um contrato).

Mente, e não hesita em exagerar números, distorcer fatos ou omitir informações.

Sua ética está nos resultados: se funciona, está justificado.

Trump transformou a negociação em uma luta de dominância, em que a busca por ganhos mútuos cede espaço ao desejo de humilhar, vencer, vencer, vencer, com foco em imagem pública, controle da narrativa e intimidação.

Embora disfarçada de “business”, essa lógica compartilha muito com o método mafioso: intimidação, manipulação de informações, uso de lealdades pessoais, redes de influência e demonstração de força antes de argumentos.

Não à toa, executivos do Deutsche Bank o chamavam internamente de vigarista.

Durante sua presidência, Trump mobilizou práticas que refletem padrões mafiosos, ainda que adaptados à política contemporânea.

Alguns exemplos são ilustrativos: aqueles que romperam com ele, como o ex-advogado Michael Cohen ou ex-membros do governo, como John Bolton, foram imediatamente atacados, desacreditados ou ameaçados.

Investigações do FBI sobre conexões com a Rússia, interferência nas eleições e tentativas de obstrução do Congresso no caso de 6 de janeiro foram sistematicamente deslegitimadas e sabotadas com mentiras.

A base do Partido Republicano foi cooptada não por ideias, mas por medo: muitos congressistas permaneceram em silêncio diante de abusos evidentes, temendo represálias políticas ou mediáticas.

Em comícios e redes sociais, Trump ridicularizou adversários, ameaçou jornalistas, sugeriu que seus apoiadores “fizessem justiça com as próprias mãos” e cultivou uma estética de confronto, autoritarismo e culto ao ego.

Concedeu perdões presidenciais a aliados condenados (Roger Stone, Paul Manafort, Michael Flynn), reforçando o entendimento de que o poder se sobrepõe à lei, como nas “famílias” mafiosas que protegem seus capos.

A equivalência simbólica entre Trump e um chefão mafioso não reside apenas em acusações formais (embora haja inúmeras investigações), mas na forma estrutural e comportamental com que exerce o poder.

A política deixa de ser espaço de gestão para se tornar território de domínio; aliados tornam-se cúmplices, e não colegas de governo; a verdade torna-se refém, e não valor.

Esse fenômeno tem precedentes: Silvio Berlusconi, na Itália, combinou espetáculo, populismo e redes de proteção pessoal semelhantes, enfrentando múltiplos processos.

No Brasil, parte do bolsonarismo também adota práticas semelhantes, com um discurso antissistema que, no fundo, visa capturar o Estado para fins privados e de proteção de clã.

Comparar Trump à máfia não é mera provocação: é uma forma de tornar visível um modelo de poder que mina os alicerces republicanos.

A democracia se sustenta na institucionalidade, na verdade compartilhada e no respeito aos limites.

Quando o poder passa a operar como um negócio de família, com ameaças, chantagens e fidelidades pessoais, entramos em um território de exceção.

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