Em tempos de polarização política e fragmentação social, certos sentimentos deixaram o âmbito privado e passaram a atuar como forças organizadoras do espaço público. A exibição do sofrimento de adversários políticos, antes compreendida como sinal de brutalidade ou desumanização, passou a ser celebrada como motivo de júbilo e validação coletiva. Nesse ambiente saturado por afetos negativos compartilhados, sobressai um sentimento tão perturbador quanto revelador: o prazer diante da dor do outro, condensado pela língua alemã no conceito schadenfreude, cuja recorrência crescente despertou minha atenção crítica.
Lembro do conceito desde a época de meus estudos em Psicologia Social. Em leituras mais recentes, notei que ele vem sendo investigado, sobretudo em contextos marcados por rivalidade, competição e ressentimento. O pesquisador Wilco W. van Dijk, da Universidade de Leiden, em coautoria com colegas, publicou um dos artigos mais citados recentemente sobre o tema, When people fall from grace, no qual demonstra que a schadenfreude tende a se intensificar quando o sofrimento recai sobre alguém percebido como moralmente condenável ou indigno de empatia.
No campo político, esse sentimento assume contornos ainda mais significativos, funcionando como mecanismo de coesão grupal e como instrumento eficaz de mobilização ideológica. Refleti, então, que esse tipo de afeto pode adquirir força no capitalismo tardio. Desenvolvido por Ernest Mandel (1923–1995), em Late Capitalism, e posteriormente aprofundado por Fredric Jameson (1934–2024), em Postmodernism, or, The Cultural Logic of Late Capitalism, o conceito de capitalismo tardio refere-se a uma fase histórica do capitalismo marcada por globalização intensa, financeirização da economia, cultura do consumo, estetização da política e esvaziamento simbólico das instituições democráticas.
O Brasil, país que ingressou tardiamente nos circuitos do capitalismo, vivencia de forma aguda os impasses dessa fase histórica. Concentra traços de modernidade tecnológica e de integração aos fluxos globais, ao mesmo tempo em que convive com desigualdades estruturais profundas, informalidade crônica e instituições democráticas constantemente tensionadas. Nesse cenário, os sentimentos são convertidos em mercadoria, e o espetáculo da dor alheia passa a compor o repertório afetivo cotidiano das disputas políticas.
Somo a essas reflexões um outro conceito: o reacionarismo, entendido como resposta política à sensação de perda de privilégios simbólicos ou materiais. Nesse estágio do capitalismo, esse tipo de postura encontra terreno especialmente fértil para prosperar. Segundo Corey Robin, em sua obra The Reactionary Mind: Conservatism from Edmund Burke to Sarah Palin, o reacionário não busca apenas preservar uma ordem social, mas reverter transformações já consolidadas. Trata-se de um impulso revanchista, uma reação ativa à mudança. Diante da percepção de deslocamento cultural e da perda de centralidade, muitos indivíduos experimentam prazer na reversão de conquistas sociais, na humilhação pública de figuras representativas de novos paradigmas e na extinção de políticas de inclusão.
Sob a adição desse outro conceito, penso que a política contemporânea passa a ser moldada como um palco para a schadenfreude coletiva. Exemplos vívidos desse fenômeno incluem a derrota de lideranças feministas, de minorias sexuais ou étnicas, ou mesmo de vozes dissonantes que promovem equidade, que deixa de ser vista como efeito colateral do debate democrático e passa a se tornar o próprio objetivo. O prazer já não reside na afirmação de ideias, mas na eliminação daqueles que as sustentam. O sofrimento alheio é convertido em entretenimento, meme e espetáculo.
Assim, a cultura política produzida no contexto do capitalismo tardio favorece esse tipo de sentimento. Quando esse gozo passa a ocupar papel central na política, o próprio espaço público se transforma. O Estado, em vez de atuar como mediador entre divergências legítimas, passa a funcionar como agente de punição simbólica. O sofrimento do outro, antes compreendido como sinal de alerta ou ocasião para empatia, torna-se desejado, encenado e aplaudido. Nesse cenário, as bases da convivência democrática se erodem de forma contínua. Enquanto a dor alheia serve como fonte de excitação política, qualquer possibilidade de futuro compartilhado permanece gravemente ameaçada.
Refletir sobre a articulação entre schadenfreude e reacionarismo no contexto do capitalismo tardio permite perceber mais do que uma crise de valores. Trata-se de uma transformação mais ampla, que afeta a forma como os sentimentos circulam, como se constroem as identidades políticas e como se estruturam os vínculos sociais. Em vez de cidadania compartilhada, temos o consumo das ruínas. Em vez de projetos coletivos, o ressentimento. Em lugar do diálogo, o deleite frio diante da dor do outro. Não resta espaço para a edificação do bem comum, que só se torna possível quando reconhecemos o valor irredutível da alteridade.

