O Governo brasileiro deve tomar iniciativas concretas e imediatas para evitar que a interferência norte-americana nos assuntos internos políticos e judiciais do País evolua para intervenção militar.
Essas iniciativas devem estar apoiadas em instrumentos de força que, à falta de poderes domésticos internos para confrontar a maior potência militar e econômica do mundo, implicam cooperação e tratados de defesa mútua com parceiros mundiais confiáveis do Sul Global que os tenham, e que partilhem com o Brasil iguais riscos e ameaças norte-americanas.
Não é difícil identificar esses parceiros.
Eles estão integrados com o Brasil no BRICS, e três deles são potências nucleares: Rússia, China e Índia.
Esqueçamos a Índia, que tem relações ambíguas com os Estados Unidos.
As outras duas têm potencial atômico suficiente para dissuadir esse último de qualquer aventura de intervenção direta, desde que estejamos protegidos por um tratado com eles de proteção recíproca.
Seria o OTASP, Organização do Tratado do Atlântico Sul e do Pacífico, similar à OTAN, cujo artigo 5º prevê que qualquer ataque a um país do bloco constitui um ataque a todos.
Precisamos disso porque, voluntariamente, desde a Constituição de 88, o Brasil renunciou a produzir ou estocar em seu território armas nucleares.
Com uma reconhecida vocação pacífica, atestada pelo fato de que jamais participou de um conflito externo desde a Guerra do Paraguai e da Segunda Guerra Mundial – ambas provocadas por ditadores -, preferiu dedicar-se ao esforço interno de desenvolvimento civil.
Não seria justo que, diante das ameaças de mais um ditador, o Brasil ficasse indefeso tendo em vista sua manifesta fragilidade militar, inclusive convencional.
Armas nucleares não são para fazer guerra, mas para defender a paz.
Contudo, sua eficácia só se manifesta quando potenciais contendores as possuem. Foi assim na Guerra Fria.
E é assim agora, na situação da Ucrânia.
Joe Biden queria “destruir” a Rússia, como disse ao presidente Lula, mas não teria como fazê-lo diretamente sem provocar uma catástrofe mundial que poderia levar ao fim da espécie humana.
Recuou, contentando-se com uma guerra por procuração através da Ucrânia.
O estrago que um único homem, a quem uma nação de cidadania irresponsável atribuiu poderes imperiais, provou que não há limites para a degeneração de toda a espécie quando comandada por ideologias políticas radicais, como o fascismo e o nazismo.
Trump é absolutamente igual a Hitler e Mussolini.
Se quiserem saber do que é capaz, basta ler os livros de História e ver quais foram as consequências para o mundo da entrega a esses dois degenerados de poderes absolutos.
Portanto, não estou tergiversando quando proponho a articulação da Organização do Tratado do Atlântico Sul e Pacífico/OTASP.
Os precedentes históricos das relações internacionais dos Estados Unidos no mundo apontam para mais de 40 intervenções militares com fins ideológicos ou políticos, sob ambos os seus partidos dominantes.
Não me surpreenderia que, recorrendo a sua infinita capacidade de mentir, não encontrando resistência militar e invocando a proteção da “democracia” e dos “direitos humanos” no Brasil, Trump decida intervir diretamente no País, primeiro com “guerras híbridas” e depois com “guerra real”.
A OTASP não seria necessariamente eterna.
Daqui a quatro anos, quando acaba o mandato de Trump, ou mesmo antes, caso sofra um impeachment em razão dos danos que está provocando para seu próprio povo, seu País e para o mundo, ela poderia ser extinta, com a condição de que a OTAN também o fosse.
Com isso, os dois sustentáculos de uma ordem mundial alicerçada no poder nuclear se revelariam anacrônicos, e acordos no âmbito da Agência Internacional de Energia Atômica evitariam sua ressurreição por desnecessidade.
A internacionalmente reconhecida competência do Itamarati, assim como a credibilidade mundial do presidente Lula e as circunstâncias e ameaças atuais que pairam sobre o mundo facilitariam a construção da OTASP nos mesmos moldes da construção do BRICS.
No período intermediário até que as duas organizações militares fossem dissolvidas, o bloco dos BRICS teria seu braço militar apoiado na OTASP, de forma similar ao que acontece na Europa, onde a OTAN é o braço militar da União Europeia.
Os desafios que Donald Trump impõem ao mundo implicam respostas urgentes, já que sua estratégia é a surpresa e improvisação, de forma a evitar que suas vítimas formulem alternativas bem calculadas.
Além disso, o que ele tem no seu baú de maldades não se esgota nas tarifas e nos destemperos políticos e ideológicos.
Por exemplo, ele pode impor restrições de acesso ao SWIFT por parte dos países que quer subjugar, desorganizando a estrutura financeira deles.
Contra isso não há resposta rápida a não ser que houvesse uma ruptura definitiva entre Ocidente e Oriente no campo monetário e financeiro.
É que uma estrutura complementar ao SWIFT, construída por países que querem se livrar da dependência do dólar, porém, não inteiramente, não é possível, porque se basearia em sistemas tecnologicamente diferentes e incompatíveis entre si.
Entretanto, como ferramenta ideológica nas mãos de Trump, o SWIFT pode bloquear o acesso a seu sistema de qualquer país que o presidente norte-americano veja como inimigo.
Não acredito que, mesmo sob pressão interna provocada pela elevação da inflação e do desemprego, neste e nos próximos anos, devidos a suas tarifas irracionais, Donald Trump recue de seus objetivos fascistas.
A prioridade que tem demonstrado é de natureza estritamente ideológica, sendo as tarifas apenas um instrumento para alcançá-los.
No caso de sua relação com o Brasil, ele deixou patente seu comprometimento com um golpista e fascista contumaz, cujo filho faz ronda em torno da Casa Branca para conquistar aliados a fim de intervir no Brasil.
A propósito, em nome da defesa da soberania do País, o Governo brasileiro deveria dar entrada na Corte Internacional de Justiça da ONU, ou Tribunal Penal Internacional, de uma ação contra Bolsonaro, em face da atuação dele e do filho Eduardo nos Estados Unidos.
O objetivo deles é estimular congressistas e outras pessoas influentes a forçar Washington a intervir na política e no sistema judiciário brasileiro.
Poderia não haver grandes resultados práticos dessa ação, mas a simples iniciativa configuraria a forte intenção do Brasil em não curvar-se a Trump e a seu protegido fascista.
Do ponto de vista da economia doméstica, nossa melhor alternativa, da qual estão se dando conta, felizmente, nossas autoridades e a maioria dos empresários, é buscar diversificar nossas exportações e nossas fontes de suprimentos de insumos industriais.
Isso, contudo, conforme indiquei ontem, depende não apenas de negociações com parceiros comerciais, mas de uma mudança radical da política econômica, que não pode continuar se apoiando em restrições fiscais desnecessárias e numa política de juros absurda.
Mesmo sem as tarifas de Trump a economia brasileira já ia mal.
Na verdade, há décadas que temos realizado um crescimento ridículo do PIB que fica em torno de míseros 2% ao ano – quando nossos principais parceiros no BRICS, China e Índia, nos últimos anos, têm crescido a taxas de 5% a 7%.
Assim, uma reviravolta na política econômica vai além da questão comercial externa.
Em termos práticos, temos que nos voltar para a exploração dos nossos próprios recursos econômicos, para isso sendo fundamentais políticas fiscais menos restritivas (nada de equilíbrio do orçamento primário, mas déficit de ao menos até 3% do PIB, como na Europa) e política monetária racional, com juros básicos drasticamente inferiores aos impostos pela atual Selic (15%).

