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Mundial de Clubes, por Paulo Moreira Franco

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Paulo Moreira
Paulo Moreira
Economista aposentado do BNDES
Paulo Moreira Franco – Economista aposentado do BNDESOriginal em: https://www.afbndes.org.br/vinculo/opiniao/mundial-de-clubes-por-paulo-moreira-franco/

“Pau a pau? De repente o meu pau contra o pau do Kid Bengala”
(Casimiro Miguel)

Anos atrás, estávamos ainda no governo golpista que sucedeu à derrubada de Dilma, aquele movimento democrático “com o Supremo, com tudo” da política brasileira, e me pediu um grande amigo uma missão: desenvolver uma apresentação para seu curso de storytelling com dados que pudessem ser entendidos pelo conjunto de funcionários do Banco, apresentação que eu mesmo faria abrindo a quarta e última aula do curso que ele dava. E esta é uma história que já mencionei nestas páginas. Vá lá e leia se quiser, querida leitora.

O fato é que há uma série de estranhas emoções que são despertadas nas pessoas quando a “pátria de chuteiras” se põe em campo. É um momento em que pessoas revelam o mais bárbaro em seu entendimento de Nação, nos seus limites que em sua opinião o Estado deveria impor ao que o Mercado, apátrida, impõe.

Num certo sentido, os clubes brasileiros foram muito bem nesta Copa do Mundo de Clubes, um torneio que tem tudo para ser interessante quando for realizado em algum lugar que não seja despreparado para o futebol como são os EUA. Aliás, se há um alerta a ser feito é sobre como pode se desenrolar uma Copa do Mundo lá, com as interrupções por conta de ameaças de raios, por exemplo. O resultado mais fabuloso – e inesperado – foi o do Fluminense, chegando na semifinal. A atuação mais notável, e não é patriotada minha, uma do Botafogo, a vitória do campeão da Libertadores sobre o campeão europeu. Palmeiras e Flamengo, times que desde o final da década passada têm apresentado uma dominância no futebol brasileiro, apresentaram um futebol de qualidade, cada um à sua maneira. Mas nem por isso capazes de enfrentar de fato a realidade do que o futebol que clubes podem atingir, num mundo globalizado, após a remoção de formas restritivas à movimentação deste trabalhador que é um jogador de futebol. Sim, porque a primeira coisa que as pessoas têm que entender sobre um jogador de futebol é que ele não é um bem de capital, nem é um bem tombado de nossa cultura. Um jogador de futebol é uma pessoa. Um jogador de futebol tem os mesmos direitos e deveres que qualquer cidadão do país tem (como, em sendo sul-coreano, prestar serviço militar). E mesmo a FIFA, em sua infinita glória, deve se subordinar às cortes europeias.

Mas comecemos pelo sucesso do Fluminense. Renato Gaúcho sempre foi um dos meus sonhos como técnico da seleção brasileira. Com Renato de técnico, num momento em que a seleção estivesse jogando mal, os jogadores não seriam xingados, mas sim Renato. Todas as torcidas brasileiras um dia já gritaram em coro “Renato, viado”. Pois, se como dizia a sabedoria estampada em muitos fusquinhas de antanho, “a inveja é uma merda”, Renato Gaúcho com as declaradas 5 mil mulheres que ele teria levado para cama – e essa é uma conta que tem quase vinte anos e acredito, ele não se aposentou – é muito provavelmente o recordista brasileiro (ao menos entre os amadores). Mas Renato é um cara que sabe fazer times sólidos, sem firulas filosóficas. E se Thiago Silva, com sua notável experiência, mostrou o seu talento de kyu dan da arte de posicionamento, o seu companheiro de defesa Ignácio foi realmente surpreendente. Olhando para os números, os frios números, a história é um pouco outra. Média de desarmes por partida, por exemplo. Isso é algo que volantes defensivos e zagueiros são responsáveis. Wesley do Flamengo (média 5 por partida), Alexander Barboza (4,8), Gregore (3,7) e Vitinho (3,5) do Botafogo tiveram um desempenho melhor do que Ignácio (3,3), registrando que só 17 jogadores tiveram uma média maior que três desarmes por partida. Interceptações? Não dá para cobrar isso de um defensor de um time que não se sujeita a ser contra-atacado. Bruno Fuchs (2,7) e Wesley (2,5) aparecem de novo, agora entre os apenas nove jogadores com uma média de mais de duas interceptações por partida. Clearances, qual seja, jogar a bola para fora da área de risco, nisso os defensores brasileiros desses dois times cariocas que não jogaram com posse de bola, Botafogo e Fluminense, foram notáveis. Alexander Barboza (10), Jair (9) e Gregore (7,3) no Botafogo, Ignácio (6,3) e Thiago Silva (6) no Fluminense, entre os menos de vinte com seis ou mais “clearances”.

Assim, há que se entender que, sob o ponto de vista defensivo, essas não foram atuações “clássicas” daquilo que entendemos como futebol brasileiro. Renato, que foi um dos mais extraordinários jogadores brasileiros dos anos 80, que foi cortado da seleção por um Telê Santana que um dia fora ponta direita. Um ponta revolucionário para sua época pois voltava para ajudar no meio (como Zagalo). Mas um ponta que nunca teve espaço na seleção pois havia jogadores como Julinho Botelho, Joel, Garrincha… Sempre me perguntei se o problema de Telê com profissionais da ponta direita que levaram o Jô Soares na época da seleção de 82 a fazer a campanha “bota ponta, Telê” não se devia a esse fato dele ser um bom – mas não excepcional – jogador da posição. E em 86 a seleção brasileira, segundo me lembro de Saldanha falando um ano antes, era Renato e mais dez. Mas Renato não foi, cortado por Telê…, e nós caímos nas quartas, numa das copas mais fáceis de ser ganhas, sob o implacável Sol do início da tarde do verão no México, onde ganhamos 70.

Renato técnico não é o Renato jogador. Renato técnico é um cara extremamente pragmático, e isso se viu no seu time. O talento ofensivo do time basicamente localizado num colombiano chamado Jhon Arias, apenas um dos seis caras que realizaram uma média de três ou mais passes que resultaram em chutes a gol por partida. Renato soube fazer esse balanço entre um time capaz de defender e um time capaz de permitir ao seu craque jogar. Renato sabia dos limites de seu time, e não caiu no hype que o time do Flamengo caiu ao achar que ter batido o Chelsea de cara fazia deles um time capaz de jogar de igual para igual com um dos gigantes europeus. Casimiro Miguel fez o resumo definitivo e preciso desse hype, na minha modesta opinião, sobre os problemas de jogar pau a pau contra um Bayern da vida. Renato e os místers não caíram nessa história.

(Pequena nota lateral: a imprensa incensou o Luiz Enrique, técnico do PSG. Renato Gaúcho tem um comentário, de seus tempos de Grêmio, sobre posse de bola. Os times de Luiz Enrique sabem jogar, no fundo, de uma única forma, a forma como ele ganhou tanto no Barcelona quanto agora no PSG: posse de bola. Se seu time, como o Botafogo, souber se defender bem, ocupar os espaços, bastam os quinze minutos de conversa do fabulista Portaluppi. Se seu time souber pressionar na frente e souber partir com agressividade, como o Chelsea, esses quinze minutinhos vão proliferar.)

Voltando ao Fluminense, esse craque, em si, é a conformação do futebol brasileiro com a realidade da globalização. Assim como os argentinos, que faz muito tempo incluíam jogadores de outros países em seus times (me lembro de atos de extrema crueldade de Falcão Garcia, outro colombiano, pelo River, no Maracanã, contra meu Botafogo), os times brasileiros começaram a incorporar ótimos jogadores de outros países em seus times. Jogadores como Arrascaeta, Alexander Barboza, Savarino, para citar alguns, são um grande exemplo disso. Jogadores brasileiros têm saído? Sim, jogadores brasileiros saem para jogar fora. Saem porque jogadores como Savinho, João Pedro, Marcos Leonardo (que jogou muito bem pelo Al Hilal) são exemplos de como, com o desenvolvimento técnico que é possível fora, nossos jogadores podem chegar a uma determinada excelência que não vão atingir no Brasil.

(Pequena nota lateral: se o campeão Chelsea contou com um ótimo atacante brasileiro, e com a precisão de Cole Palmer, há que se lembrar que possivelmente os dois melhores meio-campistas não estritamente ofensivos sul-americanos jogam ali: o argentino Enzo Fernandez e o equatoriano Moises Caicedo. Reitero que Botafogo, Flamengo e Fluminense, trazendo esses craques de nossos vizinhos, são nossa versão disso).

Volto ao problema do barbarismo. Há um país que rivaliza com o Brasil na formação desse trabalhador globalizado que é o jogador de futebol: a França. Rivaliza no sentido de ter nascido no país jogando em outros países. No Brasil somos mais de 200 milhões de pessoas no “país do futebol”. Já na França o poder público instituiu um sistema de escolas de formação – Clairefontaine nas proximidades de Paris sendo a principal delas. Sabe o papo do Fluminense em Xerém e o chororô de que um jogador de lá eliminou o Fluminense jogando pelo Chelsea? Pois na França Xerém é estatal, e produz craques que jogam pela França, por países africanos, por times de toda a Europa. Isso produziu uma seleção que chegou na final das duas últimas copas. Dembélé, que com 19 anos saiu do Rennes e foi jogar no Dortmund, é o principal jogador do time de Paris. Sair de França tão cedo para jogar na Alemanha atrapalhou seu desenvolvimento, atrapalhou ele tornar-se um jogador do maior time da França (um time que só tem essa dimensão pelo dinheiro do governo do Qatar lá investido)? Não creio.

Foi um belo torneio. Torcer para meu Botafogo retornar daqui a quatro anos.

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