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ARTIGO: O Nascimento do Sindicato dos Escritores do Brasil e a Encruzilhada da Cultura na Era da Inteligência Artificial. Por Josemar Ganho

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25 de julho de 2025.

Uma data histórica.

Neste dia, nasce o Sindicato dos Escritores do Brasil, não como resistência nostálgica ao avanço da IA – Inteligência Artificial, mas como afirmação crítica e sensível do humano diante da encruzilhada civilizatória da era digital.

Não é um gesto de negação ao futuro, mas de afirmação de um direito: o de sermos sujeitos históricos que orientam a travessia.

Ao longo da história, a humanidade sempre viu emergir tecnologias que transformaram radicalmente seus modos de viver, trabalhar e imaginar o mundo.

A tipografia de Gutenberg, por exemplo, revolucionou a comunicação e destronou o monopólio do saber manuscrito, assim como a luz elétrica aboliu a dependência do óleo de baleia para iluminação.

O automóvel substituiu o cavalo como meio de transporte dominante.

O computador pessoal, em que até mesmo Bill Gates não acreditava no início, tornou-se o centro da vida moderna, suplantando a máquina de datilografia.

Mais recentemente, a câmera digital substituiu o filme fotográfico e democratizou o ato de capturar imagens.

Cada revolução trouxe consigo resistência, entusiasmo e impactos profundos nas estruturas sociais, econômicas e simbólicas da humanidade.

Agora, estamos às portas (ou já no interior) de mais uma dessas viradas: a Inteligência Artificial.

Tal como as inovações anteriores, ela não está apenas “chegando”, ela veio para ficar, e mais do que isso, para se imergir em todos os aspectos da vida cotidiana. Mas sua natureza é diferente.

A IA não é apenas uma ferramenta: ela simula, aprende, produz, compõe, escreve, traduz, responde, edita, cria.

É uma extensão da mente humana, mas também uma “alteridade”, uma inteligência outra.

Estamos entrando na era da cibercultura.

A cibercultura é o espaço simbólico e tecnológico da interconexão entre humanos e máquinas. “Cyber” vem do grego kybernetes, aquele que pilota, que governa.

A cultura cibernética é, pois, uma cultura em que a navegação da vida, da linguagem e da imaginação passa pelas interfaces digitais.

Mas não é só isso: é também um ambiente híbrido, fluido, onde o real e o virtual se entrelaçam, dando origem ao que chamamos de transculturalidade, uma cultura híbrida, homem/máquina, carne/silício, inspiração/algoritmo.

Nesse novo cenário, emerge uma cultura pós-humana, na qual os limites entre o autor e o gerador de conteúdo se diluem, e a própria noção de “criador” é desafiada.

Quem é o autor de um texto criado por um modelo de linguagem?

O programador?

O usuário que deu o prompt?

A máquina?

Estamos diante de um colapso das categorias tradicionais de autoria e originalidade.

Dentro desse novo ecossistema, surgem dois fenômenos alarmantes para os escritores e produtores culturais:

• Os livros zumbis: Obras que possuem a forma e a estética de um livro, mas que estão despossuídas da alma, da sensibilidade e da intenção criadora de um ser humano.

São produtos de reciclagem algorítmica, muitas vezes indistinguíveis dos textos autênticos, mas que carregam em si o vazio da ausência de subjetividade.

• A geração piralivros: A construção de obras apropriadas a partir de outras obras verdadeiras, sem citar, sem elaborar, apenas recombinando o que foi antes produzido com profundidade.

É a estética do plágio elegante, da montagem sem autoria, do texto sem raiz (novo estágio da pirataria).

Essas práticas não representam apenas um risco à economia criativa e aos direitos autorais.

Elas ameaçam a própria ética da criação, que se baseia no labor, na escuta do mundo, na travessia do sensível, no gesto autêntico de dizer.

Diante deste cenário, o Sindicato dos Escritores do Brasil nasce não para negar o movimento histórico, mas para humanizá-lo.

Para colocar o ser humano, com sua memória, sua dor, sua linguagem, sua finitude e sua liberdade, no centro da travessia tecnológica.

Não se trata de proibir a IA ou regredir às prensas manuais.

Trata-se de afirmar que a tecnologia deve servir ao humano, e não o contrário.

Trata-se de garantir que os escritores, poetas, ensaístas, artistas gráficos, tradutores, contistas e todos os demais trabalhadores da cultura tenham voz ativa na modelagem desse futuro.

O sindicato nasce como ator político e ético, um guardião da sensibilidade, um articulador de políticas públicas, um defensor da autoria e da justiça cultural.

Ele reivindica não apenas melhores condições de trabalho, mas também a dignidade do gesto criador.

Ele não se opõe ao algoritmo, mas ao esquecimento do humano que o programa.

A história nos mostra que toda grande inovação tecnológica vem acompanhada de tensão e possibilidade.

Estamos em um desses momentos.

A Inteligência Artificial, assim como a prensa, o motor a combustão e a luz elétrica, transformará o mundo.

Mas o que estará em jogo, desta vez, será a própria alma da cultura.

Neste 25 de julho de 2025, não estamos apenas fundando uma nova entidade sindical.

Estamos firmando um pacto com a história: um pacto de presença, de resistência criativa e de amor à palavra que ainda pulsa em carne viva.

Pois, no fim, escrever é um ato de alma, e nenhuma máquina sente a alma arder.

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