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O fogo não pega no sótão. Por Felipe Cordeiro

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No Brasil, a manutenção da ordem social não depende apenas da desigualdade de renda ou do controle político direto.

Ela se apoia, fundamentalmente, na fragmentação das classes populares.

A falta de coordenação entre os que compartilham condições de vida semelhantes é o que garante a estabilidade dos que estão no topo.

A dominação se sustenta não porque é inevitável, mas porque é funcionalmente protegida pela desarticulação de quem mais sofre.

Em teoria, a maioria da população possui força suficiente para alterar a ordem social.

Ela sustenta a economia, move os sistemas produtivos e compõe a base funcional do Estado.

Contudo, essa maioria raramente age de forma coordenada.

E isso não é por acaso: as formas contemporâneas de dominação operam precisamente pela divisão, promovendo identidades isoladas, polarizações artificiais e disputas secundárias que impedem o reconhecimento de um interesse comum.

Essa fragmentação é alimentada por diferentes mecanismos:

– Meios de comunicação que reforçam antagonismos identitários em vez de convergências materiais;

– Plataformas digitais que personalizam a experiência social, dificultando a construção de visões coletivas;

– Discursos meritocráticos que individualizam o sucesso e culpabilizam o fracasso;

– Políticas públicas insuficientes que fazem diferentes grupos disputarem migalhas entre si.

Essa dinâmica é visível nos grandes centros urbanos.

As classes trabalhadoras vivem sob estresse constante: transporte precário, serviços públicos insuficientes, violência policial e informalidade estrutural.

Os conflitos se acumulam, mas quase sempre explodem de forma localizada — em greves isoladas, revoltas episódicas, disputas entre vizinhos ou entre segmentos vulneráveis que se sentem em competição direta.

A tensão é real, mas difusa. O fogo existe — mas não sobe. Ele queima no térreo.

O sótão não aquece.

A blindagem dos andares superiores não é apenas econômica — é simbólica e institucional.

Os grupos no topo da estrutura social permanecem relativamente intocados.

Sua proteção se dá por acesso privilegiado à Justiça, à mídia, à saúde, à segurança e ao capital político.

Para boa parte da elite brasileira, o colapso social é uma abstração.

Vivem em condomínios fechados, com rotas escolares blindadas, consumo internacional e, quando necessário, assistência médica no exterior.

O Brasil pode estar em crise — mas o sótão continua com ar-condicionado.

E isso só é possível porque os espaços de participação direta foram desmobilizados, as formas de organização popular foram enfraquecidas e o senso de pertencimento coletivo foi corroído.

O Brasil oferece um caso claro de como a fragmentação é produzida: o Estado organiza políticas que alimentam a competição entre pobres; a mídia transforma disputas morais em espetáculo; e o sistema político coopta ou esvazia os canais populares de pressão.

A chamada “dominação objetiva” — a ideia de que certas hierarquias sociais são naturais ou técnicas — é justamente o que impede a percepção da estrutura que isola o sótão.

O poder aparece como algo distante, imutável, técnico — e por isso mesmo não questionável.

Ao mesmo tempo, a classe trabalhadora é incentivada a buscar saídas individuais, o que aprofunda o isolamento, o ressentimento e a desconfiança entre iguais.

A desarticulação popular é o principal ativo das elites.

Não é preciso repressão constante — basta que o povo continue desunido, sobrecarregado e emocionalmente exaurido.

Enquanto isso, o fogo segue queimando entre os andares de baixo, consumindo suas energias e suas alianças, sem jamais comprometer a estrutura de cima.

A estrutura permanece em pé — não porque é indestrutível, mas porque quem poderia derrubá-la ainda não se reconhece como força coletiva.

O problema não é que o povo não reaja — é que, quando reage, reage cada um por si.

A verdade é que o sótão não é incombustível.

Ele só permanece intacto porque o incêndio é mal orientado.

Porque há cortinas simbólicas e institucionais separando os andares.

Porque quem sofre mais também é quem tem menos tempo, menos ânimo, menos pontes para reconhecer o outro como parte da mesma luta.

O fogo não pega no sótão — mas não porque não possa.

É porque ainda não foi direcionado para lá.

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