O sistema monetário internacional contemporâneo é estruturado em torno de uma anomalia funcional: o dólar norte-americano, além de moeda nacional, cumpre o papel de moeda de reserva internacional e principal meio de troca no comércio global.
Essa condição singular impõe aos Estados Unidos uma contradição estrutural: para que o restante do mundo possa acumular dólares, necessários para o comércio internacional, o pagamento de dívidas externas e a constituição de reservas, é imperativo que os Estados Unidos mantenham déficits contínuos em sua balança de pagamentos.
Em outras palavras, o “excesso” de dólares que circula fora das fronteiras norte-americanas é alimentado pela própria insuficiência comercial e fiscal do país.
Sem esses déficits, o mundo enfrentaria uma crise de escassez de liquidez internacional, afetando sobretudo economias emergentes altamente dolarizadas.
Contudo, ao ignorar essa engrenagem sistêmica, a política econômica adotada por Donald Trump durante seu mandato rompe com os princípios fundamentais do chamado “americanismo”: o livre mercado, o multilateralismo e a crença na superioridade do capitalismo como mecanismo eficiente de alocação de recursos.
Ao promover políticas protecionistas, elevar tarifas de forma indiscriminada e desarticular tratados comerciais, Trump minou os alicerces do sistema internacional que os próprios Estados Unidos ajudaram a construir desde Bretton Woods.
Sua retórica nacionalista e sua prática econômica isolacionista revelam um paradoxo: em nome da defesa da democracia e da soberania nacional, atentou-se contra os valores universais que os EUA sempre proclamaram defender.
O caso brasileiro é emblemático dessa distorção.
Ao usar tarifas alfandegárias como instrumento de intimidação política, Trump interferiu diretamente na soberania de um aliado, coagindo economicamente o Brasil a alinhar-se a seus interesses geopolíticos, inclusive na condução de sua política externa em relação à Venezuela e à China.
Assim, o discurso em defesa da democracia serve, na prática, como disfarce para ações autoritárias que afrontam o próprio ideal democrático.
Ainda mais grave é a seletividade moral da política externa norte-americana, que denuncia com veemência supostas violações de direitos humanos em países considerados adversários e até aliados, ao mesmo tempo em que silencia ou respalda atrocidades cometidas por aliados estratégicos.
O apoio incondicional a Israel, mesmo diante de evidências crescentes de crimes contra a humanidade e genocídio contra a população palestina, expõe a hipocrisia de um império que se vale da linguagem dos direitos humanos como arma política, não como princípio ético.
Neste cenário de rupturas, o dólar permanece, ao menos por ora, como a âncora da economia global.
Mas os fundamentos ideológicos, diplomáticos e econômicos que lhe deram sustentação desde a Segunda Guerra Mundial estão em erosão acelerada.
A desordem promovida por aqueles que dizem defender a ordem pode, paradoxalmente, abrir caminho para um novo ciclo histórico, no qual os princípios de justiça, solidariedade internacional e equilíbrio multipolar voltem a orientar o sistema global.

