Home Brasil O “dilema do porco-espinho” da esquerda brasileira. Por Felipe Cordeiro

O “dilema do porco-espinho” da esquerda brasileira. Por Felipe Cordeiro

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“As pessoas mais pobres conhecem sim, no seu dia a dia, aqueles que se desviaram para a vida de criminalidade e/ ou outras formas sutis de autossabotagem. Contudo, elas também se esforçam muito para não estar entre esses. Então, elas também conseguem atribuir mérito próprio e querem uma solução, qualquer que seja, porque o diabo da vida continua acontecendo. Então, eu acho que a gente (esquerda) precisa entender as razões do nosso afastamento, para a gente conseguir olhar os problemas reais, objetivos e subjetivos, porque as pessoas pobres também têm subjetividade, que é uma coisa que, às vezes, a intelectualidade esquece .”

(d’Ávila, M. Entrevista para o canal Opera Mundi. 2023)

Este trecho (adaptado) da fala da jornalista e ex-deputada federal Manuela d’Ávila, talvez simbolize o maior desafio da esquerda brasileira hoje: se aproximar de um povo que, cada vez mais, a vê como alheia.

A pergunta “por que o Brasil tem tanto pobre de direita?”, feita por um internauta e que motivou esta fala de Manuela, já virou lugar comum, mas ela carrega um erro grave — o erro da arrogância analítica.

Uma parte da esquerda brasileira atual, cada vez mais academicista e nichada em grupos cibernéticos, ao olhar para esse fenômeno, corre o risco de tratar o povo como um enigma ou problema a ser explicado, esquecendo que essas pessoas vivem uma realidade dura, imediata e cheia de urgências.

O dilema do porco-espinho, originalmente proposto por Schopenhauer (1851), se encaixa perfeitamente nesse cenário: quanto mais a esquerda tenta se aproximar do povo, especialmente do pobre conservador, mais teme os “espinhos” que pode levar — rejeição, incompreensão prévia, acusações de traição.

Mas ao se afastar, congela, e o frio da desconexão só aumenta. A esquerda oferece discursos técnicos, ironia e acusações de alienação, enquanto a extrema direita entrega respostas simples e emocionais (como o discurso de lei e ordem) que ressoam na vida concreta da periferia.

Ela também frequentemente incorre no erro da incompletude analítica ao reduzir o povo a meros problemas objetivos — fome e desemprego — e esquecer suas necessidades subjetivas fundamentais, como segurança, sentido de vida  e pertencimento.

“As mulheres querem sair de casa para fazer suas faxinas e não têm onde deixar os filhos, porque a escola está fechada, porque teve tiroteio.” Essa descrição simples de Manuela revela a dureza da vida de quem não tem tempo para debates ideológicos ou teorias sofisticadas.

E uma outra questão, talvez a principal chave interpretativa para se entender a questão da subjetividade dos mais humildes, é frequentemente esquecida pela esquerda atual.

A luta cotidiana do povo pobre para não ser confundido com os que se desviaram eticamente. Manuela aponta que, embora os pobres conheçam muitas pessoas presas ou que sucumbiram de outras formas (vício em drogas, mendicância etc), muitos se esforçam para não estar entre elas, reconhecendo a importância da ética e do mérito próprio na sua própria vida — uma nuance poderosa que escapa a discursos simplistas que estereotipam o povo.

Essa complexidade subjetiva mostra que o distanciamento da esquerda não é só por falta de propostas materiais, mas pela dificuldade em compreender e dialogar com essas dimensões simbólicas.

     

Remetendo a fala da Manuela, a cena final do genial filme Cidade de Deus (2002) ilustra bem essa sutil e pouco compreendida contradição da pobreza. Os garotos do “caixa-baixa”, logo após executarem a sangue frio Zé Pequeno e tomarem a boca de fumo, entram em uma viela e dão tiro para o alto como se comemorassem o feito. Eles somem. A lente fica parada naquela viela e poucos segundos depois um garoto, também pobre e negro, segurando um caderno, passa silenciosamente e de cabeça baixa. O garoto veste camisa abotoada, calça um sapato fechado.

Se alguns sucumbem às pressões advindas das mazelas sociais, outros se esforçam cotidianamente para não serem e parecerem com quem já sucumbiu.

O dilema, portanto, não é só material, mas profundamente político e simbólico. A esquerda teme se ferir ao se aproximar do povo conservador, preocupada em não diluir seus valores progressistas ou ser acusada de conivência. Mas ao manter distância, perde calor e presença — congelando-se em discursos muitas vezes abstratos e desconectados da vida real. A extrema direita, conjugada aos discursos e a moral evangélica, por sua vez, oferece respostas emocionais, imediatas e claras, mesmo que brutais. E assim, o dilema do porco-espinho se repete: a aproximação traz dor, o afastamento traz frio.

Para superar esse impasse, a esquerda precisa retomar a escuta real e a humildade política. Não para abandonar seus princípios, mas para reencontrar uma linguagem que fale com o povo em sua subjetividade e nas suas necessidades concretas.

Deve se considerar que certo esforço já vem sendo praticado com a nova forma de comunicação digital do governo federal, recorrendo a linguagem despojada das novas gerações e exaltando símbolos e aspectos da nossa identidade cultural: o pequeno empreendedor, o sistema público de saúde, o nosso bom humor e a criatividade do dia a dia, as festas populares, o vira-lata caramelo e tudo mais aquilo que gere pertencimento e familiaridade.

É um bom esforço inicial e que merece ser destacado. Mas deve-se ir além disso.

Como Manuela diz, é preciso olhar para os próprios limites e abandonar termos pejorativos como “pobre de direita”, que só aprofundam a alienação. É um convite a não contemplar os problemas de longe, mas enfrentá-los com coragem, ternura política e abertura para reaprender a caminhar junto.

Como proposta prática a esquerda poderia investir cada vez mais em lideranças comunitárias, fortalecer movimentos de base (como as igrejas e pastorais) e criar espaços de diálogo direto com as periferias, como fóruns populares ou assembleias.

No fim, a política é um exercício de calor humano e conexão, e o povo, com todas as suas contradições, é a fonte essencial desse calor. Do povo nasceu a nossa identidade, as grandes mobilizações, os sindicatos e demais grupos de pressão ao status quo. Aprender a se aproximar com cuidado e paciência é o caminho para que a esquerda reencontre sua força transformadora e possa enfrentar o frio da desunião, marcadora dos tempos atuais, com o calor da solidariedade, sendo este seu traço original e que não pode se perder.

Referências:

RIBEIRO, A.B; RAMOS, M.A. Cidade de Deus. Direção de Fernando Meirelles. Rio de Janeiro: Globo Filmes, 1 DVD (130 min.). 2002

d’AVILA, M. Entrevista de Manuela D’ávila ao Opera Mundi. Trecho destacado. https://www.youtube.com/watch?v=EzCuaNsFWfM&t=8s . 2023

Schopenhauer, A. Parerga und Paralipomena. Kleine philosophische Schriften. 8. ed. Leipzig: F.A. Brockhaus, 1851.

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