A recente escalada tarifária promovida pelos Estados Unidos acende um sinal de alerta para o Brasil — não apenas por seus possíveis efeitos diretos e indiretos sobre a economia local e o comércio global, mas sobretudo porque expõe, de forma crua, a vulnerabilidade estrutural da, ainda, tão dependente economia nacional:
- E, exatamente por isso, esse cenário pode ser encarado como uma rara oportunidade histórica;
- A de repensar o modelo de desenvolvimento nacional e reconstruir as bases de uma economia autônoma, soberana e voltada para o interesse coletivo.
Nas últimas décadas, o Brasil ampliou a sua integração às cadeias globais de produção de forma ainda mais subordinada e deixou de produzir partes cada vez mais estratégicas da indústria — passando a se especializar na exportação de commodities agrícolas e minerais:
- Enquanto isso, importamos bens industriais com alto valor agregado;
- Desde a tecnologia de maquinaria pesada, aos eletrônicos e fármacos.
O resultado é um país dependente de capitais externos, exposto às oscilações do mercado internacional e com sua indústria cada vez mais enfraquecida.
Para se ter uma ideia, em 1985, a indústria de transformação representava cerca de 25% do PIB brasileiro; hoje, mal alcança 11%:
- Essa desindustrialização precoce, aprofundada pelas políticas neoliberais, fragilizou a capacidade do país de gerar empregos qualificados;
- E também de inovar e crescer com sustentabilidade.
É justamente nesse contexto que as tarifas impostas por Trump podem representar muito mais uma oportunidade do que uma ameaça.
A decisão dos EUA de elevar tarifas e erguer barreiras comerciais, não apenas protegem seus setores estratégicos, mas sinalizam uma mudança no paradigma da globalização:
- A era do “livre-comércio irrestrito” dá lugar a uma nova lógica de proteção nacional;
- Orientada pela soberania tecnológica e a segurança industrial.
Para o Brasil, isso deve servir como um alerta — e também como um espelho. Como a dependência da indústria externa nos torna extremamente vulneráveis a qualquer reconfiguração global, o momento de reconfiguração geopolítica está a nos oferecer um espaço estratégico. Com os mercados tradicionais se fechando ou se reorganizando:
- Abre-se a possibilidade de fortalecer o mercado interno;
- Diversificar nossa pauta exportadora;
- E investir em produção nacional com valor agregado.
A hora é de escolher entre subordinação e reconstrução nacional. O Brasil precisa decidir se seguirá como apêndice da economia global, preso à lógica extrativista e agrícola, ou se caminhará rumo à reconstrução de sua soberania industrial.
Para isso, é urgente um novo projeto de país — que envolva:
- Um plano nacional de reindustrialização;
- Nomeadamente com foco em setores estratégicos como fármacos, defesa, transição energética, eletrônicos e bens de capital.
Não podemos perder a oportunidade de implementar um modelo de proteção inteligente à indústria, como fazem hoje EUA, China, Índia e até a União Europeia:
- Através de políticas de compras públicas voltadas à produção nacional;
- Valorização da ciência, tecnologia e inovação;
- E investir na integração produtiva com a América Latina, rompendo definitivamente a dependência do Norte Global.
Não se trata de fechar o país, mas de abrir caminhos próprios.
Nenhum país do mundo se desenvolveu com base apenas no livre mercado. Todos os que hoje ocupam posição de destaque no cenário internacional — dos EUA à China, da Alemanha à Coreia do Sul — fizeram isso por meio de planejamento estatal, proteção industrial e investimento maciço em capacitação tecnológica.
Soberania não se importa — se constrói. E as tarifas dos EUA escancararam uma verdade que muitos tentam esconder: o Brasil está excessivamente dependente e vulnerável.
Mas há outra verdade, mais esperançosa: ainda temos tempo — e condições — de mudar esse destino.
A crise global pode ser a faísca que desperta um novo ciclo de desenvolvimento. Basta que o Brasil tenha coragem de abandonar o receituário falido do neoliberalismo e assuma, sem medo, um projeto nacional de reconstrução.
A nossa soberania não virá de fora, nem será dada de presente: ela precisa ser conquistada. E o momento de começar já passou da hora.
