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Hiperpolitização e despolitização no labirinto da economia da atenção. Por Luiz Henrique Lima Faria

Luiz Henrique Lima Faria – Professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e Editor-Chefe da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (RINTERPAP).

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Tenho observado acontecimentos recentes que me remetem à chamada Economia da Atenção, conceito antecipado por Herbert Simon em Designing Organizations for an Information-Rich World e aprofundado por Tim Wu em Os Mercadores da Atenção: Como a Publicidade se Apoderou de Nossas Mentes e a Transformou em Lucro, publicado no Brasil em 2018.

Em um mundo saturado de informação, a atenção humana tornou-se o recurso mais escasso e, justamente por isso, o mais disputado.

Essa lógica, amplificada pelas plataformas digitais, reorganiza a vida social para premiar o que captura o olhar de forma rápida e intensa.

No campo político, o cotidiano se converte em arena de microconflitos, em que qualquer banalidade, sobretudo quando produzida intencionalmente para esse fim, transforma-se em ato político, amplificado pelo engajamento que alimenta o algoritmo.

É nesse ponto que a contradição se torna evidente, pois quanto mais o cotidiano é permeado por episódios de hiperpolitização, menos a sociedade se encontra verdadeiramente politizada.

A energia despendida em batalhas desprovidas de substância reduz a disposição para o engajamento consistente e para a reflexão coletiva, relegando a segundo plano temas estruturais como a tributação progressiva, a desigualdade social e a erosão das instituições democráticas.

A disputa pela atenção privilegia o que é imediato e emocional, sacrificando a relevância em favor de estímulos que produzem apenas reações fugazes.

Sob esse entendimento, lembrei que Chris Bail, em Breaking the Social Media Prism, descreve como a intermediação algorítmica reduz o debate público a um fluxo de impressões superficiais, reforçando extremismos e sufocando soluções políticas moderadas.

Esse diagnóstico dialoga com a análise de Cynthia Miller-Idriss em Hate in the Homeland, que demonstra como o extremismo contemporâneo se apropria de plataformas digitais, jogos e redes sociais para atrair e radicalizar novos adeptos, sobretudo jovens, valendo-se de conteúdos visualmente sedutores e culturalmente adaptados.

Juntas, essas leituras revelam que o problema não está apenas na polarização, mas na arquitetura informacional que a sustenta.

Reverter essa dinâmica exige mais do que a prática da verificação de fatos, embora a considere muito útil e necessária.

É indispensável reconstruir espaços de debate imunes à lógica da recompensa instantânea, espaços capazes de estimular a escuta atenta e a divergência responsável, permitindo que a complexidade emerja sem ser sacrificada no altar da viralização.

Isso, acredito, passa por uma educação crítica que desmonte os mecanismos da economia da atenção, indo além da alfabetização midiática para incluir o entendimento das estruturas psicossociais que moldam, muitas vezes de modo quase invisível, a esfera pública.

Reocupar o espaço do debate público para além das telas exige a criação de antídotos culturais e pedagógicos capazes de neutralizar a sedução extremista, enquanto fortalecem laços de solidariedade e práticas de deliberação aptas a superar a dicotomia empobrecida entre amor e ódio.

Politizar, em seu sentido mais profundo, não é transformar cada detalhe do cotidiano em trincheira, mas compreender de que modo forças culturais e tecnológicas moldam essa arena e agir sobre elas com visão democrática e de longo prazo.

Somente assim a política poderá recuperar seu papel como espaço de transformação concreta, e a cidadania reencontrará a capacidade de caminhar rumo ao bem comum.

Assim, concluo esta crônica conduzindo-nos a um ponto mais adiantado daquele em que a iniciei.

Ao observarmos com maior acuidade o que se desenrola dentro e fora das telas, torna-se necessário reconhecer a urgência de vigiar os mecanismos que capturam o nosso olhar.

Ao fazê-lo, não apenas impediremos que a atenção seja desviada para fins cuja intenção nos é alheia, mas também renovaremos a capacidade de decidir, de forma consciente, os rumos que desejamos imprimir à vida comum.

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