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Brasil: Rico no Subsolo, Pobre na Superfície. Por Filinto Branco

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Original em: https://www.ultimahoraonline.com.br/noticia/brasil-rico-no-subsolo-pobre-na-superficie

Como esta semana política não trouxe nenhum terremoto institucional, escândalo cabeludo ou reviravolta cinematográfica — e, convenhamos, isso já é um alívio —, vale aproveitar para falar de um tema mais genérico, mas absolutamente urgente: O Brasil tem riquezas de sobra, mas continua pobre em projeto de país. Sem educação, ciência e estratégia, seguimos no eterno destino de ser o ‘país do futuro’ — sempre adiado.”

O Brasil é, por definição geográfica e geológica, um país ungido. Detentor de vastas reservas de petróleo, dono de uma das maiores áreas agricultáveis do planeta, potência em água doce, biodiversidade e terras raras — esse conjunto de minerais estratégicos para a indústria de alta tecnologia —, teria todos os ingredientes para figurar entre as maiores economias do mundo, com qualidade de vida compatível. No entanto, seguimos tropeçando em nossas próprias pernas.

Ao invés de transformar riquezas naturais em base para um parque industrial moderno e inovador, exportamos commodities e importamos tecnologia, como se estivéssemos eternamente presos ao papel de fazenda global. Nossa indústria, que já teve momentos de ousadia, encolheu diante da concorrência internacional e da falta de políticas de longo prazo. O setor tecnológico, que poderia ser o motor de um novo ciclo de desenvolvimento, fica restrito a ilhas de excelência, sem escala para mudar o rumo da economia.

Enquanto isso, seguimos ostentando uma das maiores desigualdades sociais do planeta — nosso verdadeiro “campeonato mundial”. A renda e as oportunidades concentram-se nas mesmas mãos de sempre, enquanto milhões de brasileiros ficam no banco de reservas. No camarote, uma elite política e econômica se serve do banquete e ainda brinda à própria eficiência. É o paradoxo perfeito: um país riquíssimo onde a maioria vive como se morasse num país quebrado.

No coração  desse atraso está um sistema educacional tão frágil que parece projetado para não funcionar. Enquanto o Brasil coleciona vexames em avaliações internacionais e mantém escolas públicas onde falta do giz à janela, a China, em apenas três décadas, fez a travessia de economia agrária para potência industrial e tecnológica. Lá, investiram pesado em educação científica e técnica, formando engenheiros, pesquisadores e empreendedores que hoje comandam setores estratégicos — da inteligência artificial à indústria aeroespacial. O resultado? Eles não só nos passaram no PIB, mas também na capacidade de pensar, projetar e fabricar o futuro. Aqui, seguimos tentando decidir se o recreio vem antes ou depois da merenda.

E não se trata apenas de educação. A estagnação brasileira é também fruto de decisões — ou da falta delas — no campo político. Governos de esquerda e de direita passaram pelo Planalto e, apesar das diferenças ideológicas, a estrutura de desigualdade permaneceu praticamente intacta. O PT, que teve o mais longo ciclo no poder desde a redemocratização, conseguiu avanços importantes na redução da pobreza e na inclusão social, mas não mexeu de forma estrutural nos gargalos que impedem o Brasil de dar o salto: reforma tributária profunda, modernização do Estado, investimento maciço em ciência e tecnologia e um pacto nacional pela educação de qualidade ficaram sempre para “depois”. O problema é que o “depois” nunca chegou.

Enquanto seguimos olhando para o próprio umbigo, o mundo trava uma disputa aberta por recursos estratégicos — e o Brasil está no centro desse tabuleiro. Trump, no embalo de sua guerra comercial, impôs uma tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros, excluindo cerca de 700 itens do comércio preferencial. Foi um recado cristalino: não basta ter riquezas, é preciso estar politicamente alinhado. Do outro lado, a China — maior compradora das nossas commodities — avança silenciosamente com parcerias e investimentos que ampliam sua presença no território. Por trás da retórica diplomática, o que se desenrola é um verdadeiro leilão geopolítico pelo controle indireto do que guardamos no subsolo e cultivamos no campo.

O problema é que, enquanto as potências brigam pelo que temos, seguimos incapazes de definir um projeto nacional. O risco é claro: continuar a ser o celeiro e o garimpo do mundo, exportando o que temos de mais valioso e importando o que nos falta — desenvolvimento, tecnologia e justiça social.

Se quisermos quebrar esse ciclo, será preciso coragem política e visão de longo prazo — duas raridades por aqui. Isso significa investir pesado em educação básica de qualidade, apostar em ciência e tecnologia, diversificar a economia para além do extrativismo e enfrentar as distorções tributárias que alimentam a desigualdade. Também passa por um Estado menos refém de interesses paroquiais e um Congresso que enxergue além do próximo repasse de emendas.

É um pacote que exige mais do que slogans de campanha: requer a paciência de quem planta uma árvore sabendo que talvez só os filhos verão a sombra. Não basta trocar de presidente ou partido; é preciso um pacto de Estado que inclua uma revolução educacional de base, incentivos claros para inovação e indústria de ponta, uma reforma tributária que premie quem produz e investe, e um combate sério — de verdade, não de palanque — à corrupção e ao clientelismo.

Até a próxima semana, que espero — quem sabe? — com boas notícias sobre o fim da guerra na Ucrânia e, para coroar a ironia global, a entrega do Prêmio Nobel da Paz a Donald Trump. Seria como dar medalha de ecologia a uma mineradora ilegal na Amazônia: um deboche universal.

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