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Cafús e Telês

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— Rapaz, pra poder treinar aqui tem que ter experiência!

E cadê o seu agente?

— Mas pra eu ganhar experiência eu tenho que poder treinar.

— Menino… isso aí já não é do meu departamento.

Próximo!

Com três linhas de diálogo formamos a alegoria do país que não entende muito o significado da palavra futuro porque tem certo apetite por viver na inércia.

Um clássico problema de circularidade: o sistema exige aquilo que ele mesmo impede.

O jovem precisa de oportunidade, mas recebe sonoros não.

Ou nove.

Como no caso de Cafú.

Sim, aquele mesmo.

Capitão do penta, vencedor no São Paulo, Roma e Milan, símbolo de superação.

Cafú ouviu nove nãos antes de ser aceito.

Passou por peneiras e teve portas fechadas.

Rejeitado por olhares que não viram o óbvio: o talento puro que só precisava ser lapidado.

O técnico mediano olhou para ele e recusou:

— Eu topo te preparar.

Mas só com uma condição: que você já esteja pronto.

Frase esta que deveria estar esculpida na entrada de algumas empresas, instituições e repartições.

Aqui, a juventude precisa chegar formada, calejada, rodada — e, de preferência, apadrinhada.

E se não estiver, azar o dela.

O técnico mediano não enxerga antes do tempo.

E, às vezes, nem depois.

Porque só os gênios enxergam o óbvio.

Já dizia um gênio deste país.

O mediano, quando não tem preguiça, chega atrasado.

E tudo permanece inerte, dentro do velho caldo que envolve apatia, improdutividade e personalismo a serviço do status quo.

Mangabeira Unger disse certa vez, no programa Roda Viva, que o Brasil é um dos países que mais desperdiça capital humano no mundo.

E não é retórica.

Há jovens brilhantes, criativos, famintos de mundo, que são moídos pela máquina lenta das ‘desoportunidades’ e da estigmatização, sobretudo os mais pobres como é o caso do ilustre Marcos Evangelista, do Jardim Irene.

Quando conseguem escapar, muitos vão embora.

Aplicam seu conhecimento técnico em outros cantos, com outros incentivos, sob outras luzes.

E o PIB de uns engordam e o de outros ficam fininho.

E o país fininho vai ficando mais fininho.

Porque o custo do subdesenvolvimento não está apenas nos indicadores.

Está na frustração de quem poderia ter mudado as coisas — e não teve chance por aqui ou até porque ficou no meio do caminho mesmo.

E, curiosamente, o mito da meritocracia e do self made man não perdem tração nesse tipo de ambiente.

Pelo contrário, se afirma.

Afinal, a dificuldade e a desigualdade são vistos, retorcidamente, como estímulo.

Um ‘incentivo’.

Mas na prática é mais uma dança das cadeiras, porém com os pés de uns pregados no chão.

Onde os lugares são mais ocupados por sobrenomes do que por ideias e senso de disrupção criadora.

Com a nosso essência institucional extrativa, ao invés de inclusiva (tema, inclusive, de prêmio nobel) o jovem não é visto como o futuro porém mais como um adversário circunstancial.

Ele é ‘risco’, ainda que imaginário.

Ele é custo.

É a perspectiva de um país sem legado, sem visão de profundidade.

Mas que, infelizmente, pode deixar de ser uma condição meramente regional e se tornar um problema geracional, como aponta o ensaísta estadunidense David Brooks e a sua tese da “economia da rejeição” onde a geração y e z recebem cada vez menos transferência de riqueza material e imaterial por parte das gerações anteriores.

Mas isso é assunto para outro artigo.

Ah e ainda não falamos do Telê.

Aquele que virou a chave na vida do Marcos Evangelista, o Cafú.

Talvez porque o ‘Telê’ (seja ele um individuo ou uma instituição) por aqui ele é exceção e não regra.

Mas sem a existência desse tipo de agente, inegavelmente iluminado e que psicologicamente emerge da própria contradição extrativa, vai saber aonde nós estaríamos como país?

Uma estrela a menos na camisa amarela? Não, muito pior do que isso.

Talvez nem aquele que aqui escreve estaria aqui.

E, infelizmente, aquele que aqui escreve também já viu muitos ficarem pelo caminho na peneirinha dos ‘nãos’.

E assim seguimos. Fingindo que isso não é uma verdade incômoda.

A cada dia perdendo novos Cafús por escassez de Telês.

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