
Original em: https://hojepr.com/coluna-gennaro-o-sapateiro/
Após a II Grande Guerra, o então ex- oficial fascista e monarquista italiano, para escapar da revanche democrática republicana fugiu, de Nápoli, na Itália, para o Brasil.
O Duce estava morto. Giacomo Garbella partiu para a América do Sul em um vapor da Linea C. Deveria ir a Buenos Aires com outros ex-companheiros de armas. Mas ficou no Rio de Janeiro envolvido que foi por delícias afrodisíacas cariocas. Sua vida de galã napolitano foi feliz e fugaz ali, onde atuava nos inferninhos e jogatinas fluminenses, controlados pelo braço brasileiro da Camorra. Vida boa esta que foi interrompida quando o então governo de Café Filho proibiu oficialmente os cassinos e a jogatina no país .
Ele sabia ser esta mais uma piada sub tropical.
Giacomo então escafedeu-se em um navio rumo ao sul. E aportou em Paranaguá. Subiu a Serra da Graciosa. Em Colombo, conheceu uma paranaense de origem trentina e fixou-se. Aqueles cabelos ruivos entremeados em cachos e caracóis e aquela tez rosada iluminada por incandescentes olhos azuis o fez esquecer das mulatas sestrosas e assanhadas do Rio. Nem mesmo a Madona de Achiropita ou San Gennaro lhe poderiam entregar o milagre de possuir uma bela mulher de seios fartos e ancas arredondadas, nascida entre as araucárias e gralhas azuis.
Uma nova vida iniciou-se. Esqueceria a política italiana. Exterminaria o passado. Na pequena Predappio onde anteriormente nascera o Duce, e também seu avô e pai – estes foram Calzolaios (Sapateiros). Giacomo tinha na genética esta habilidade. Fundou sua Sapataria. Em poucos anos sua clientela aumentou grandemente. Então, com mulher e filhos pequenos mudou e instalou-se em Curitiba. Para júbilo de uma elite refinada. Em seu local de trabalho, entre perfumadas clientes e cavalheiros charmosos, evolveram-lhe certo dia com uma espessa bruma, uma certa fumaça esotérica. Algo alucinógena. Proveniente de um cigarro que principiava a fumar.
Quando solitário, em seu entorno, a bruma esotérica se esparge e o envolve. Então os sapatos, botas e chuteiras começam a se manifestar, a conversar com Giacomo Garbella que parece estar em transe. Surpreso, mas atento àquelas vozes ele afina a sintonia de sua atenção.
Uma bela sandália lhe diz:
– Eu estive nos pés daquela esposa que foi assassinada pelo marido, por causa do amante, lá no Batel. Uma chuteira dependurada no canto da parede, diz: estive nos pés daquele centroavante do Coca Football Club que envolveu-se com carros importados, drogas e bebidas e depois entrou em decadência.
– Isso não é nada! Exclamou um pé de bota de couro: “estive nos pés do jagunço que matou aquela familia de posseiros lá no sudoeste, comigo… (há um leve suspiro) ele ainda chutou a barriga da mulher que morreu grávida”.
Quaquaraquaquá gargalhou um sapato de menino que lhe diz:
– Vocês são muito dramáticos. Eu apenas fui usado pelo menino meu dono, para chutar os gatos da tia e os cachorros da avó lá no Água Verde. E também ele chutava a bunda do coroinha lá da igreja da Rua Chile.
– E nós aqui …somos o par de sapato de salto alto da noiva que casou feliz na Igreja de Santa Therezinha. Ela tinha uma joanete pronunciada em ambos os pés. Suportou a dor no casamento mas seus pés esgarçaram-nos, por tal razão estamos aqui. Mesmo assim desejamos felicidades àquela noiva nervosa e chorona. Tadinha casar com aquele baixinho, seboso e grudento não lhe dará vida fácil, exclamaram os sapatos da noiva.
– E nós, meus queridos…somos as sapatilhas da bailarina Jujú Polichinelo, que sonha em fazer parte do Ballet Bolshoi. Ganhou uma bolsa de estudos lá. Mas ela tem muito medo de ir para Moscou e ser comida por algum comunista. Hehehehehe… comida ela até quer…. mais de uma jeito que vocês sabem…né?! hihihihi…comentou envergonhada a sapatilha da bailarina.
– Pois é, pois é… Sou os Chinelos do Governador… ele nos usa para adentrar aos seus aposentos – falou pigarreando e com voz solene. “Mas fomos utilizados pela Dignissima Primeira Dama, que lhe deu outra surra. Na semana passada ele chegou de madrugada em casa bêbado após usual jogatina ali no Cassino do Ahú. Anteriormente ela usou os sapatos para dar surra nele. Olha como ficamos esgarçados! Por favor mantenham sigilo!”
– Tá todo mundo falando,falarei também.Sou as sandálias do Padre Santinho. Outro dia a Devota Dona Jojoca ficou muito enciumada com a demora dele no confessionário e lhe arrancou as fivelas das sandálias e jogou vinho na sua batina, Ave Maria! Foi um reboliço na Igreja… ele ficou duas horas e meia ouvindo as confissões da Dona Leleca..os dois trancadinhos no confessionário….hihihihi.
– Eu sou o sapato de um empreiteiro de obras. Voces não imaginam em quantas ruas e estradas de asfalto onde pisei. Tenho muito pixe colado aqui nas minhas gastas solas…por isto estou aqui… já caminhei com muitas malas cheias de dinheiro por aqui e acolá…..
– E eu sou os sapatos de pelica da arquiteta Loirosa Kalu, ela e um cliente fogoso se agarraram entre as pranchetas do atelier e sobre mim caiu um vidro de tinta nakim …eu era branco fiquei preto estou todo manchado…acho difícil o sapateiro me limpar… Dependurado em um canto da parede uma voz maviosa e com sotaque estrangeiro…ecoou…
– Sou o sapato de cromo alemão do Desembargador Amaciado Minerva eu vim de presente para ele da Alemanha junto com duas malas de marcos alemães e caixas de vinhos do vale do Reno…estou aqui meio mofado….para ser limpo….
– E eu sou o sapato com o salto quebrado do Delegado Justino Troncoso … olha tenho muita coisa pra lhes contar….Nossa !Cuidado … Silêncio pessoal parece que ele tá entrando aqui na sapataria.
O Delegado Justino Troncoso ( Conhecido como Fumaça 38)..adentra a sapataria chutando a porta e acompanhado de tres meganhas, todos fortemente armados. E diz :
– Você que é o italiano Giacomo Garbella? Certo!?
Giacomo levanta-se , ajeita com as mãos o avental. Deixa as ferramentas de sapateiro sobre a mesa de trabalho. Surpreso e pálido…balbucia…
Responde : Si ,…si…sono io!
Giacomo pergunta aflito?:- Che sucede?
Delegado:-Tá preso! Venha comigo para Delegacia ,você tem que nos explicar quem são esses sapatos, esses calçados falantes, essa cambada de dedo-duros, esses alcaguetes!
E digo mais! Todo mundo em cana!
Giacomo Garbella e mais 3 grandes sacos de calçados falantes foram para a Delegacia.
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