A defesa da soberania de cada Estado Nacional precisa ser o fundamento de referência para a criação de um sistema internacional equilibrado:
- Um sistema que busca a viabilização de um modelo de governança capaz de enfrentar desafios comuns;
- Dentre estes, as guerras, a desigualdade social, a pobreza extrema e a segurança alimentar, assim como o enfrentamento das pandemias e fortalecimento dos sistemas de saúde, e também, a segurança cibernética e a proteção de dados, a regulação da inteligência artificial e das novas tecnologias – sem reproduzir o domínio de poucos sobre a maioria.
Sem soberania não há governança legítima, e, num mundo onde a ordem Internacional encontra-se constantemente em crise, exemplos recentes demonstram como a governança ainda é marcada pela imposição e não pela cooperação:
- A guerra na Ucrânia, devasta vidas e serve de pretexto para sanções unilaterais que fragilizam o direito internacional;
- E os bloqueios contra Cuba e Venezuela revelam a face autoritária de um sistema que pune nações por não se submeterem aos interesses das potências;
- Além disso, a corrida por minerais estratégicos para a transição energética ameaça repetir o padrão histórico de extrativismo predatório contra o Sul Global.
Isso tudo, revela um ambiente no qual se percebe que a verdadeira governança global não pode mais ser sustentada sobre bases que não possam garantir a participação igualitária de todas as nações – e requer, urgentemente, o rompimento com essa lógica hierárquica que divide o mundo entre países que ditam as regras e outros que apenas as seguem.
Nesse cenário, a reforma das instituições multilaterais — como ONU, FMI e OMC — torna-se inadiável:
- E o crescimento do BRICS, a atuação do G20 e a reorganização em direção a uma ordem multipolar mostram que é hora de reconstruir o multilateralismo em bases reais;
- Não como fachada para os interesses do rentismo global.
Para o Brasil, este ambiente apresenta um dilema:
- O risco de permanecer preso ao papel de exportador de commodities e dependente da lógica financeira global, perpetuando vulnerabilidades;
- Ou a oportunidade de consolidar-se como voz independente e articuladora do Sul Global — defendendo um comércio mais justo, uma transição energética inclusiva e uma política internacional guiada pela cooperação entre os povos.
Entre os caminhos práticos que o Brasil pode seguir, destacam-se a transformação da transição energética em motor de reindustrialização e soberania tecnológica – e também:
- O fortalecimento do Mercosul e a integração latino-americana – criando um mercado regional sólido para dar escala às empresas brasileiras;
- A atuação como mediador de conflitos – reforçando a tradição diplomática de buscar soluções equilibradas para as contendas entre países rivais;
- E a ampliação do alinhamento estratégico com o Sul Global – fortalecendo o BRICS e fóruns alternativos às instituições dominadas pelo rentismo financeiro.
Mais do que reagir ao jogo das potências, é hora do Brasil protagonizar a proposição de uma nova lógica: uma governança global feita para os povos — não para os rentistas:
- Necessariamente baseada no respeito ao direito internacional;
- E na valorização de um multilateralismo autêntico.
Enfim, no desafio de construir o multilateralismo real, cabe ao Brasil exercer o papel de ser a voz do Sul Global rumo a uma nova ordem mundial, multilateral, soberana e justa: apenas dessa forma, será possível transformar a conjuntura internacional em alavanca para o nosso desenvolvimento.

