Preparando o espírito e os recursos para uma visita aos Estados Unidos, conversei com um amigo que vive por lá e percebi nele uma mistura de tristeza e constrangimento em relação ao ambiente atual do país.
“Há momentos na história em que a boçalidade se torna política de governo, meu amigo”, disse ele. Concordei.
Como humanidade, vivemos hegemonicamente um desses períodos.
A figura do presidente Donald Trump, personagem que combina prepotência, estupidez e hipocrisia com um cálculo político reacionário, já não se limita a ser uma aberração escatológica.
Converteu-se, em forma e substância, na síntese dos sintomas de um tempo em que a ausência de empatia se traveste de opinião, a brutalidade se impõe como modelo de liderança e o rancor dos mal amados se transforma em programa de governo.
Diante disso, minha memória recuou à juventude, não por saudosismo, mas pelo impulso de reencontrar o espírito crítico que me abriu a outras formas de compreender aquele país, sua complexa formação social, a realidade concreta do povo trabalhador e a dignidade de tantos estadunidenses que se recusaram a se resignar às razões frias do capital.
Lembrei do primeiro contato com as músicas de Bruce Springsteen e John Mellencamp, que logo reconheci como pensadores populares, artistas que escolheram cantar o que muitos preferem não contar.
Suas canções foram, para mim, mais do que trilha sonora de uma época de descobertas.
Tornaram-se matéria-prima de uma consciência política em formação.
Recordei intuições que, mais tarde, se consolidariam como elementos fundamentais da minha visão progressista de mundo.
Eram letras que não nasceram para embalar a indiferença, mas para nutrir a consciência social, despertando inquietações que resistem ao tempo e às narrativas simplificadoras que evitam enfrentar as questões estruturais da vida.
Springsteen jamais se encantou com o papel que tentaram lhe impor de herói da classe média branca.
Suas canções sempre habitaram as fissuras de uma América exausta, desigual, atravessada por promessas que não se cumprem.
Em The River ou The Ghost of Tom Joad, ouvem-se narrativas de vidas despedaçadas pelas engrenagens do capital, famílias inteiras reduzidas à penúria por um sistema que não se comove com a persistência do sofrimento, destino que, para muitos, é traçado por genealogia.
Para além da escuta enviesada dos apressados, Born in the U.S.A. não expressa ufanismo vazio.
Trata-se de uma denúncia amarga da negligência histórica com que o país trata seus veteranos de guerra, seus operários e seus pobres.
É, sobretudo, um grito de revolta contra a narrativa oficial, uma canção que escancara o abismo entre o mito nacional e a realidade cotidiana dos milhões de oprimidos que, a despeito de tudo, seguem sendo os verdadeiros construtores daquela nação.
Mellencamp, por sua vez, dedicou sua obra a iluminar aquilo que os donos do poder insistem em nos fazer esquecer.
Com rara precisão, retratou o esvaziamento das pequenas cidades, a lenta agonia dos vínculos comunitários, a dureza da vida nos territórios onde o progresso chegou como promessa e partiu como ruína.
Em Pink Houses, expôs com ironia cortante o fosso entre o ideal americano e a precariedade concreta das famílias que o sustentam.
Já em Rain on the Scarecrow, transformou o colapso das pequenas propriedades rurais em lamento pungente sobre o abandono do campo e o desmonte de uma economia construída por gerações.
Suas canções narram o cotidiano dos que vivem longe das metrópoles, onde a solidão é coletiva e a esperança se esvai no final do dia para, com esforço e teimosia, renascer na manhã seguinte.
Há em sua música um humanismo duro, forjado na resistência cotidiana, que recusa o sentimentalismo fácil e aposta na força ética e poética contida na verdade crua da crônica da vida real.
Assim, em vez de celebrar a nação abstrata das estrelas e listras, escolheu contar a verdade dos que a sustentam sob a condição persistente da invisibilidade.
No planejamento da viagem que se aproxima, lembrar da arte de Bruce e John é resgatar a esperança ética na base real daquela nação.
Os dois tinham disposição em permanecer do lado mais fraco.
Não faziam isso por romantismo, mas por uma lucidez fraterna que, infelizmente, se revela para poucos.
Eles nunca cantaram para vencer eleições ou agradar majoritários.
Cantaram porque havia algo urgente a ser dito.
E ainda há.
O super vilão da atualidade e seus sabujos tropicais sempre se incomodarão com aqueles que ousam tomar para si o papel de cronistas das entrelinhas da história oficial, progressistas que rejeitam a simplificação dos memes em favor da complexidade dos dilemas da vida real e insistem em tratar o trabalhador comum como protagonista, não como figura acessória em enredos fabricados para cair na graça das bolhas que alimentam os algoritmos.
Por tudo isso, sigo ouvindo as canções dos mesmos artistas de minha distante juventude.
Elas não oferecem consolo fácil, mas me lembram que a dignidade humana precisa continuar resistindo.
Mesmo quando o tempo escurece.

