A maior transformação recente do sistema mundial não foi apenas econômica, mas filosófico-política – e aconteceu na China.
A China se apresenta como marxista, mas, na prática, desde 1979 deixou de se orientar pelo socialismo de Marx para adotar uma filosofia política de base positivista, fortemente inspirada em Saint-Sima:
- Esse deslocamento permitiu a construção de um socialismo de mercado e de um capitalismo de Estado em que o planejamento de longo prazo é centralizado e coercitivo nos ramos estratégicos;
- Enquanto nos demais setores a orientação é apenas indicativa, cabendo à iniciativa privada o protagonismo.
No gigante país asiático há uma correlação de forças entre as Classes, na qual a Classe Burguesa, como em qualquer outro lugar, pensa muito em dinheiro – mas não é a classe dominante, como na maioria dos demais países.
Na China, a burguesia não deseja ser classe dominante – tampouco pouco tem forças para isso:
- Prefere concentrar-se em ganhar dinheiro, sem precisar se preocupar em governar o país;
- Deixando essa tarefa para a Classe Trabalhadora.
A Classe Trabalhadora, por sua vez, devido à sua força, seu poder, sua organização, e seu alto nível de consciência e de conhecimento, é a Classe Dominante – e tem governado muito bem o país:
- Sendo o ponto essencial, a ser destacado aqui, que o modelo econômico, na China, é consequência — não causa;
- E a verdadeira razão da transformação econômica chinesa está na filosofia política que lhe dá sustentação.
Deng Xiaoping, como muitos intelectuais chineses de sua geração, viveu na França e teve contato com Saint-Simon, antes de seguir para a Rússia. Sendo essa formação híbrida que lhe permitiu formular uma alternativa após o fracasso do maoísmo:
- Determinando, não uma ruptura com o socialismo;
- Mas a sua adaptação.
A inspiração imediata foi a Nova Política Econômica (NEP) de Lênin, adotada na União Soviética logo após o “comunismo de guerra”:
- A NEP buscava recuperar o campesinato e reconstruir a economia nacional devastada pela guerra civil e pela invasão das potências estrangeiras;
- Mas Stalin abandonou essa estratégia e pivotou para a coletivização forçada e a industrialização acelerada, com um custo humano e social altíssimo.
Então Deng, conhecendo essa experiência, soube evitar o mesmo caminho, reintroduziu mecanismos de mercado, mas manteve a centralização estratégica do Estado:
- A partir dessa reinterpretação da filosofia política do socialismo, longe da ortodoxia marxista, ele criou uma tecnocracia meritocrática que é a marca atual da China;
- Dessa forma, o Partido Comunista Chinês funciona como uma máquina que seleciona os melhores quadros formados em ciência, engenharia e gestão.
Ou seja, ao contrário do que acontece no liberalismo ocidental e sua “República de bacharéis”*, a ascensão na hierarquia partidária chinesa depende do desempenho administrativo e da experiência prática em regiões pobres e remotas, além da formação técnica:
- Destacando-se o fato de que quase metade dos jovens dirigentes possuem doutorado;
- A maioria advindo das universidades de elite, tais como Tsinghua e Pequim.
Na prática, isso significa que a política chinesa se converteu em engenharia de sistemas:
- O Estado recruta talentos, os aloca no planejamento de longo prazo e integra academia, empresas estatais e governo numa mesma engrenagem de desenvolvimento;
- Uma lógica que está em continuidade com a tradição chinesa do “estudioso – oficial”, mas assume, hoje, a forma de um “Estado de alta inteligência” em que competência técnica substitui carisma e clientelismo.
O paralelo com o Brasil é inevitável. Durante a Era Vargas, nossa filosofia política também se baseou em um positivismo de caráter nacional-desenvolvimentista.
Em síntese, o BNDES, a Petrobras, a Eletrobras e todo o sistema de industrialização nasceram desse espírito, em que técnicos, engenheiros e economistas planejavam o futuro nacional. E, entre os anos 30 e 70, o Brasil seguiu, com características próprias, uma linha não distante da que hoje vemos na China:
- O erro da Nova República foi justamente abandonar essa filosofia;
- E aí, retornamos ao liberalismo bacharelesco do período pré-1930, dando ênfase à retórica jurídica e à subordinação externa – cujo resultado foi a desindustrialização, a perda de soberania, e a dependência do rentismo global.
A lição da China é clara – mais do que a escolha de um modelo econômico – é a filosofia política dominante que define o destino de uma nação:
- Ao adotar o positivismo tecnocrático inspirado em Saint-Simon, a China construiu o maior processo de transformação contemporânea;
- Enquanto o Brasil, ao contrário, perdeu sua chance quando renunciou ao seu próprio caminho histórico.
Portanto, se quisermos retomar o caminho da grandeza nacional, não basta discutir taxas de juros, reformas fiscais ou pacotes emergenciais: precisamos recuperar uma filosofia política própria, capaz de recolocar o Brasil na rota da soberania e do desenvolvimento.
A China mostrou que o destino de uma nação não se escreve apenas em balanços econômicos, mas nas ideias que organizam seu projeto histórico. E o Brasil só reencontrará seu futuro quando voltar a acreditar que ciência, técnica e planejamento são instrumentos de emancipação — e não de submissão.
O desafio está lançado: ou construímos novamente um Estado de alta inteligência – apostando no planejamento de longo prazo e na integração entre a academia, empresas estatais e governo numa mesma engrenagem de desenvolvimento, ou permaneceremos como colônia de um mundo cada vez mais competitivo.
* Expressão que remete às relações de base familiar que forneceram os critérios fundamentais para o recrutamento e ascensão no judiciário brasileiro e representou uma estratégia decisiva nas formas de reestruturação das elites políticas e econômicas, que por meio do diploma de Bacharel em Direito, não só conservaram sua posição dominante, valorizando seu capital social, como controlaram o acesso às posições dirigentes dentro do sistema de justiça.

