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E armou-se a controvérsia… Por Felipe Cordeiro

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Você foi educado para responder aos estímulos de um mundo que, na prática, não existe mais.

Em primeiro lugar, lhe foi ensinado sobre a religiosidade e a disciplina.

Em segundo lugar, a virtude do trabalho duro.

Em terceiro lugar, a resiliência e a aceitação da realidade como ela é.

A sua vida era paroquial, se trazida aos olhos de hoje.

As coisas eram mais, simples, lentas e até mais escassas.

Por outro lado, havia um maior senso de regularidade, pertencimento e coesão na vida social.

Você não tinha iPhone’s, copos Stanley’s e não tinha que ‘rolezar’ ao menos duas vezes na semana para ser considerado um individuo sociável.

E nem de postar tudo isso nas redes, para ter a certeza de que você esteve lá.

Você não tinha a exigência da alta performance social, da coleção de experiências e do conhecimento multifocal.

Não lhe era imposto tantas exigências estéticas e nem tinha que ser tão politicamente correto.

Você tinha que ser honesto, temente a Deus, ter o nome limpo e aprender um ofício, quase sempre manual.

Os governantes eram tão corruptos quanto hoje mas a sua vida prática era regida por uma certa normalidade e previsibilidade.

Era um mundo mais sólido do que líquido, como diria Bauman.

Você se casava cedo, relacionamentos firmes, em geral, não eram difíceis de se obter e o arranjo social funcionava em relativa harmonia.

Um punhado de terra e um carrinho simples não era tão difícil de se adquirir.

Você viveu assim e buscou transferir esses valores para os seus filhos porém, ao mesmo tempo, tentando equilibrar isso com o relativo conforto advindo das transformações tecnológicas.

Em algum momento, você percebeu que essa transferência ocorreu de forma parcial e irregular.

Você não entendeu, e talvez ainda não entenda, por que eles são tão diferentes de vocês.

Mas me permita explicar.

É porque armou-se a controvérsia.

Formou-se no tempo as contradições que permitiram eles não acreditarem mais em um mundo que aparentemente só subsiste via imaginação e imposição simbólica.

Essa nova geração, e me permita chama-los de Z, já entendeu que o mito do trabalho duro e do self made man só permite a perpetuação das desigualdades sociais e do predatorismo do sistema econômico.

Eles entenderam que o capitalismo é um sistema técnico e que exige constante adaptabilidade. Não inércia.

O que torna incoerente continuar a deitar o vinho velho em odre novo.

O ‘trabalho duro’ não se aplica a um sistema em que a produtividade não se mede mais em horas ou em intensidade mas sim em complexidade e especificidade.

Eles entenderam que ficar diariamente 2h em um ônibus lotado, tanto para ir quanto para voltar, para se deslocar até serviços precários, físico e mentalmente desgastantes, e depois receber um salário de fome que mal paga a sua reprodução é exatamente o contrário do pote de ouro no fim do arco-íris.

A moral do trabalho duro e da disciplina não se aplica mais.

O custo de oportunidade supera o benefício.

O trabalho que interessa aos Z é o trabalho autônomo, que lhes confira desenvolvimento pessoal, tanto físico quanto psicológico.

E não só o trabalho. É uma geração que valoriza a multiexperiência, o ócio criativo e a necessidade de sentido para as coisas até pequenas.

Eles não estão ‘errados’ nem ‘certos’, do ponto de vista histórico, eles são apenas frutos das contradições que formaram a sua cabeça.

Mas, se formos julgativos, eles possuem uma virtude que as gerações anteriores pouco tiveram.

A de não aceitar as coisas porque impuseram que assim que tinha ser.

O que faz sentido, pois estamos na era da informação.

As peculiaridades históricas que estabeleceram as instituições extrativas da qual herdamos (desigualdade, corrupção, patrimonialismo etc) são as mesmas que podem desfaze-las.

A história é absurdista.

Não duvide.

Um pequeno país no sudoeste da Ásia, chamado Nepal, armou a sua controvérsia silenciosamente, enquanto as elites arrochavam as condições de vida da população.

A gota d’água foi a censura das redes sociais, pois estas escancaravam a desigualdade brutal e a corrupção.

Os Z utilizaram meios criptografados para acessar as redes e se articularam dentro dela.

O ‘rolê’ deles foi derrubar o governo exploratório e lançar as bases para uma transição democrática de fato. Saberemos lá na frente com que se parecera isso.

O caso desse país é inspirador e pode catalisar uma onda em outros países.

Até naqueles em que a inércia institucional é alta e há dispositivos sofisticados para conter a insurreição social. E um deles é a cooptação de classes.

Há alguns anos eu encontrei na física uma analogia poderosa sobre como funciona a repressão.

É a elástica.

Propriedade em que quanto mais se comprime mais energia se solta de uma vez.

É o estilingue, que talvez você tenha brincado na infância.

Imagina quanta energia conservada tem nesse país chamado Brasil.

Eu acredito que os Z tem o poder de capitanear as profundas transformações sociais por aqui.

Ela não virá por líder carismático, altruísmo das elites ou por arranjo macroeconômico.

Ela virá pela energia silenciosa formada dentro das próprias contradições sociais.

E, sinceramente, anseio estar vivo para ver por aqui esse soltar do estilingue.

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