Em tempos de polarização acirrada e ressentimentos profundos, gestos de humanidade autêntica se tornam ainda mais significativos.
Recentemente, o ex-ministro da Casa Civil e dirigente do PT, José Dirceu, em entrevista à BBC News Brasil, manifestou sua opinião sobre a situação de Jair Bolsonaro, condenado por golpe de Estado pelo Supremo Tribunal Federal e atualmente em prisão domiciliar.
Dirceu afirmou que Bolsonaro não tem condições de permanecer preso, por ser “muito instável” e sem “autocontrole”, além de enfrentar um quadro de saúde delicado.
Por isso, considera justo que ele permaneça em casa, nas mesmas condições do também ex-presidente condenado Fernando Collor de Mello.
Essa postura não representa fraqueza política, tampouco condescendência ingênua.
Ao contrário, revela a maturidade que somente a experiência e a idade podem conceder, uma elevação de olhar que ultrapassa o campo da disputa e toca a dimensão mais profunda do humano.
Mesmo diante da desumanidade de Bolsonaro em muitos episódios, José Dirceu reconhece a fragilidade humana naquele que foi carrasco político, e o faz não por cálculo, mas por convicção humanista.
Este é um gesto profundamente ligado ao que significa ser de esquerda em sua essência mais elevada.
Ser de esquerda não se resume a programas econômicos, reformas sociais ou estratégias eleitorais.
Embora envolva princípios claros: Igualdade social, Justiça econômica, Universalização de direitos, Democracia participativa e Solidariedade e coletividade.
Há uma dimensão ainda mais profunda que sustenta tudo isso: os valores humanos e ético-existenciais que dão alma ao projeto político e civilizatório da esquerda.
Esses valores não são retórica; são práticas que definem uma postura diante da vida e do outro.
A esquerda nasce do reconhecimento de que todas as pessoas compartilham uma dignidade comum.
Compaixão é sentir com o outro, especialmente os mais vulneráveis, e agir para aliviar sofrimentos que são estruturais.
É enxergar, mesmo no adversário, a condição humana que nos iguala.
É por isso que José Dirceu não deseja vingança, mas um tratamento justo e digno para Bolsonaro, não por ele ser quem é, mas por reconhecer nele a humanidade que deve ser preservada em todos.
Solidariedade não é caridade: é compartilhar destino.
É saber que ninguém se realiza verdadeiramente sozinho.
Na prática, significa estar ao lado dos outros, inclusive quando seria mais fácil virar as costas ou retribuir com a mesma moeda.
“Um ferimento em um é ferimento em todos”: essa máxima dos movimentos trabalhistas revela que negar a humanidade do outro é negar a nossa própria.
A esquerda carrega um ethos amoroso, não no sentido romântico, mas como ágape, amor universal e fraterno.
Paulo Freire dizia que não há educação libertadora sem amor, pois só quem ama acredita na capacidade de transformação do outro.
O gesto de Dirceu ecoa essa ética: reconhecer fragilidade mesmo no opositor é ato de amor político, um ato de civilização diante da barbárie.
A justiça que move a esquerda não é vingativa, mas reparadora e transformadora.
Trata-se de criar condições para que todos possam florescer plenamente.
A verdadeira justiça não trata desiguais como iguais, mas busca reparar assimetrias.
Por isso, defender a dignidade de um inimigo não é trair a justiça, é reafirmá-la em sua forma mais elevada.
A vida é valor absoluto, não mercadoria, não moeda de troca política.
Ser de esquerda é defender a vida em todas as suas formas, inclusive quando isso exige gestos de grandeza ética.
É olhar além da vingança e afirmar: “Nós não seremos como eles.”
Mandela não se vingou de seus carcereiros.
Os sobreviventes dos guetos e campos de concentração não se tornaram novos carrascos.
Nas periferias, diante da violência diária, muitos resistem com dignidade, sem repetir a lógica da brutalidade.
Ser de esquerda é exatamente isso: não se igualar aos perpetradores, mas permanecer fiel à humanidade que desejamos que um dia seja de todos.
A esquerda mantém viva a utopia, não como fantasia, mas como bússola ética que orienta a ação presente.
Eduardo Galeano dizia: “Utopia não é o irrealizável, mas o não realizado ainda.
” A capacidade de reconhecer a humanidade no inimigo político é, de certo modo, uma antecipação dessa utopia: é agir hoje como se a fraternidade universal já fosse possível.
Ser de esquerda, em sua dimensão mais profunda, é agir a partir de valores universais, compaixão, solidariedade, justiça, amor, fraternidade, consciência crítica, para transformar estruturas desiguais e construir uma comunidade humana mais justa e livre.
É uma escolha ética: não nos deixarmos corromper pela violência, pela vingança ou pelo ódio, mesmo quando teríamos “razões” para isso.
Ao reconhecer a fragilidade de Bolsonaro, José Dirceu não o absolve politicamente.
Ele apenas afirma algo maior, que a nossa humanidade não pode ser condicionada pela inumanidade dos outros.
É essa consciência que eleva o ser humano acima do instinto e o reconecta com sua essência superior.

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