Home Brasil O Homem da Caçamba. Por Edson Abdala

O Homem da Caçamba. Por Edson Abdala

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Destaque inicial:
O que seria uma simples viagem de Itaituba a Santarém transformou-se em uma pequena epopeia amazônica: suspensão quebrada, um mecânico milagroso, política acalorada e um motorista esquecido na caçamba. Entre sustos e risadas, nasceu esta crônica.

O júri em Itaituba terminara tarde — daqueles que esgotam a voz e a alma. O calor, o ar parado e o peso das palavras ainda flutuavam no salão do fórum quando partimos.

Seguíamos em uma Fiat Toro: o Sr. Karim ao volante, a família acomodada como podia, e o advogado — eu — na missão de chegar inteiro a Santarém. O caminho, diziam, levava oito horas. Mas, na Amazônia, o tempo tem vontade própria.

A balsa veio primeiro, cortando o rio preguiçoso e largo como uma promessa. Depois, a estrada: um rosário de buracos, pedras e poeira. A floresta respirava dos dois lados, úmida, verde, infinita.

Rodávamos bem, até que a suspensão da caminhonete, cansada de tanto sacolejo, pediu aposentadoria. O carro gemeu, tossiu e parou.

Ficamos ali, cercados pelo zumbido dos insetos e pelo cheiro doce da terra molhada.

Foi então que, como um personagem chamado pelo vento, surgiu um mecânico de bicicleta.
Trazia uma chave inglesa, um pedaço de arame e a serenidade dos que sabem resolver o impossível.

Meia hora depois, o carro voltou à vida — e nós, à estrada.

Mais adiante, um ônibus parado à beira da pista. O motorista fazia sinal:
— Quebrou o eixo, doutor. Preciso chegar a um posto, trinta quilômetros adiante.

Não havia espaço nem para um pensamento, mas solidariedade em estrada de barro é regra antiga.
— Sobe na caçamba, meu amigo.

E lá foi ele, sorridente, agarrado à carroceria, confiando na sorte e no destino.

A viagem seguiu. A conversa esquentou — política, claro — e o carro acompanhava o fervor dos argumentos. O tom subia, o pé também. O vento rugia pelas janelas abertas.

E o motorista, lá atrás, esquecido entre poeira e sacolejos.

De repente, um “PÁ!” seco no teto.
Silêncio.
Uma voz rouca gritou de cima:
— Ô, doutor! O posto é aqui!

Freio brusco, poeira, risadas.
O homem desceu, sacudiu a roupa, limpou o suor e ainda agradeceu — com aquele humor amazônico que transforma susto em história. Entrou no posto e desapareceu.

Seguimos rumo a Santarém.
A estrada ficou para trás, com seus buracos, balsas e o eco do riso do homem da caçamba.

Na Amazônia, tudo o que acontece entre um susto e uma gargalhada já nasce crônica.

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