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Pernambuco e as Raízes Revolucionárias do Brasil. Por Ricardo Guerra

O Berço da Rebeldia e da Luta Pela Soberania Nacional Que Nenhum Mapa Pode Conter

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Pernambuco é, talvez, o mais injustiçado dos estados brasileiros quando olhamos a história sob o mapa:

  • Da capitania que foi berço da cana-de-açúcar, do comércio atlântico e da resistência à dominação estrangeira, restou hoje uma estreita faixa litorânea e um sertão comprimido:
  • Uma “magra faixa de terra, escândalo da cartografia”, como definiu Barbosa Lima Sobrinho, um dos maiores intérpretes da alma pernambucana.

Mas essa não é apenas uma questão geográfica. É também uma história de poder, autonomia e resistência:

  • Pernambuco foi, desde o início da colonização, um centro de gravidade política e econômica do Brasil;
  • Estado de onde irradiaram-se os primeiros movimentos de contestação à Coroa, as primeiras experiências de autogoverno e, mais tarde, as revoluções mais ousadas da história nacional — a Revolução Pernambucana de 1817, a Confederação do Equador em 1824 e a Revolta Praieira em 1848.

Foi onde primeiro se ousou sonhar com um Brasil Soberano, federativo e livre do centralismo sufocante do poder imperial e, depois, republicano — e, justamente pela força desse espírito altivo, o estado foi punido:

  • Cada revolta sufocada significou uma punição;
  • Sendo a fragmentação territorial sofrida, um processo político e o preço pago pela sua insubmissão e altivez.

Barbosa Lima Sobrinho, em obras como “Pernambuco e o São Francisco” e “A Comarca do Rio São Francisco”, mostrou com rigor histórico e indignação patriótica como essa mutilação territorial não foi mero acaso administrativo:

  • Ela decorreu de interesses econômicos e políticos que, ao longo dos séculos, buscaram conter a influência pernambucana sobre o interior nordestino;
  • E sobre as rotas do São Francisco — o rio da integração e da soberania nacional.

O governo imperial, que sempre temeu o protagonismo do Nordeste em busca pela independência, viu em Pernambuco um foco permanente de autonomia — e tratou de desmontá-lo pela cartografia, cujas perdas sofridas foram simbólicas e materiais:

  • Simbólicas, porque reduziram o espaço político de uma das províncias que mais contribuíram para a formação nacional; 
  • Materiais, porque significaram a transferência de rios, portos e rotas econômicas estratégicas para outras jurisdições.

Mas se o poder central tentou reduzir Pernambuco pelo mapa, jamais conseguiu apagá-lo pela história:

  • Foi de sua resistência que nasceram forças e ideias que ajudaram a moldar o Brasil;
  • Inclusive um aspecto raramente lembrado, mas que engrandece ainda mais o papel de Pernambuco na História Nacional —  foi em seu solo que surgiram, em termos conceituais e de organização, as bases para a formação do Exército Brasileiro.

Durante as Batalhas da Guerra dos Guararapes, em 1648 e 1649, pernambucanos, indígenas, negros e luso-brasileiros lutaram lado a lado pela expulsão dos invasores holandeses:

  • Dessa união nasceu, não apenas uma vitória militar, mas a ideia de uma força nacional composta por brasileiros — não por mercenários estrangeiros, mas por filhos da terra;
  • Por isso, Guararapes é reconhecido não apenas como o berço do Exército Brasileiro, mas como o marco simbólico do nascimento da própria ideia de Brasil.

E mais. Mesmo amputado em território, o estado de Pernambuco seguiu sendo um gigante em ideias e contribuições:

  • Foi de lá que nasceu a concepção de um País Soberano;
  • De uma economia produtiva baseada no trabalho e na industrialização, e não na dependência do capital estrangeiro ou no rentismo improdutivo.

Desde o século XIX, pensadores e líderes pernambucanos defenderam a necessidade de o Brasil gerar sua própria riqueza, transformando recursos naturais em bens industriais, agregando valor e garantindo empregos e renda ao seu Povo — cujas bases encontram-se na defesa de uma economia que emancipe, não que submeta; que produza, não que especule.

Foi também no solo pernambucano que emergiram líderes, intelectuais e artistas que moldaram a consciência crítica do Brasil, como o próprio Barbosa Lima Sobrinho e tantos outros como Frei Caneca, Josué de Castro, Gilberto Freire, Paulo FreireManuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e, inclusive, o atual Presidente da República Luiz Inácio da Silva.

A tradição política e cultural pernambucana uniu ética pública, senso de justiça social e vocação nacional, e é um legado que atravessa gerações — inspirando, ainda hoje, os que acreditam num Brasil Soberano e Solidário

Enfim, desde o espírito revolucionário ao nascimento das forças armadas e a formação da consciência nacional, mais do que seu território, Pernambuco representa a própria ideia de Nação:

  • Uma ideia que nasceu antes mesmo do Brasil, como ele é pensado hoje;
  • E sobreviveu à fragmentação imposta por interesses alheios ao bravo Povo Nordestino.

Relembrar essas perdas, portanto, não é um gesto de vitimização, mas de reivindicação histórica: quem entende o por quê e o que foi arrancado do mapa de Pernambuco entende também o quanto foi tirado da própria soberania brasileira.

Enquanto houver memória, Pernambuco continuará inteiro — não apenas no mapa das lembranças, mas no coração de um Brasil que insiste em ser grande.

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