Pernambuco é, talvez, o mais injustiçado dos estados brasileiros quando olhamos a história sob o mapa:
- Da capitania que foi berço da cana-de-açúcar, do comércio atlântico e da resistência à dominação estrangeira, restou hoje uma estreita faixa litorânea e um sertão comprimido:
- Uma “magra faixa de terra, escândalo da cartografia”, como definiu Barbosa Lima Sobrinho, um dos maiores intérpretes da alma pernambucana.
Mas essa não é apenas uma questão geográfica. É também uma história de poder, autonomia e resistência:
- Pernambuco foi, desde o início da colonização, um centro de gravidade política e econômica do Brasil;
- Estado de onde irradiaram-se os primeiros movimentos de contestação à Coroa, as primeiras experiências de autogoverno e, mais tarde, as revoluções mais ousadas da história nacional — a Revolução Pernambucana de 1817, a Confederação do Equador em 1824 e a Revolta Praieira em 1848.
Foi onde primeiro se ousou sonhar com um Brasil Soberano, federativo e livre do centralismo sufocante do poder imperial e, depois, republicano — e, justamente pela força desse espírito altivo, o estado foi punido:
- Cada revolta sufocada significou uma punição;
- Sendo a fragmentação territorial sofrida, um processo político e o preço pago pela sua insubmissão e altivez.
Barbosa Lima Sobrinho, em obras como “Pernambuco e o São Francisco” e “A Comarca do Rio São Francisco”, mostrou com rigor histórico e indignação patriótica como essa mutilação territorial não foi mero acaso administrativo:
- Ela decorreu de interesses econômicos e políticos que, ao longo dos séculos, buscaram conter a influência pernambucana sobre o interior nordestino;
- E sobre as rotas do São Francisco — o rio da integração e da soberania nacional.
O governo imperial, que sempre temeu o protagonismo do Nordeste em busca pela independência, viu em Pernambuco um foco permanente de autonomia — e tratou de desmontá-lo pela cartografia, cujas perdas sofridas foram simbólicas e materiais:
- Simbólicas, porque reduziram o espaço político de uma das províncias que mais contribuíram para a formação nacional;
- Materiais, porque significaram a transferência de rios, portos e rotas econômicas estratégicas para outras jurisdições.
Mas se o poder central tentou reduzir Pernambuco pelo mapa, jamais conseguiu apagá-lo pela história:
- Foi de sua resistência que nasceram forças e ideias que ajudaram a moldar o Brasil;
- Inclusive um aspecto raramente lembrado, mas que engrandece ainda mais o papel de Pernambuco na História Nacional — foi em seu solo que surgiram, em termos conceituais e de organização, as bases para a formação do Exército Brasileiro.
Durante as Batalhas da Guerra dos Guararapes, em 1648 e 1649, pernambucanos, indígenas, negros e luso-brasileiros lutaram lado a lado pela expulsão dos invasores holandeses:
- Dessa união nasceu, não apenas uma vitória militar, mas a ideia de uma força nacional composta por brasileiros — não por mercenários estrangeiros, mas por filhos da terra;
- Por isso, Guararapes é reconhecido não apenas como o berço do Exército Brasileiro, mas como o marco simbólico do nascimento da própria ideia de Brasil.
E mais. Mesmo amputado em território, o estado de Pernambuco seguiu sendo um gigante em ideias e contribuições:
- Foi de lá que nasceu a concepção de um País Soberano;
- De uma economia produtiva baseada no trabalho e na industrialização, e não na dependência do capital estrangeiro ou no rentismo improdutivo.
Desde o século XIX, pensadores e líderes pernambucanos defenderam a necessidade de o Brasil gerar sua própria riqueza, transformando recursos naturais em bens industriais, agregando valor e garantindo empregos e renda ao seu Povo — cujas bases encontram-se na defesa de uma economia que emancipe, não que submeta; que produza, não que especule.
Foi também no solo pernambucano que emergiram líderes, intelectuais e artistas que moldaram a consciência crítica do Brasil, como o próprio Barbosa Lima Sobrinho e tantos outros como Frei Caneca, Josué de Castro, Gilberto Freire, Paulo Freire, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e, inclusive, o atual Presidente da República Luiz Inácio da Silva.
A tradição política e cultural pernambucana uniu ética pública, senso de justiça social e vocação nacional, e é um legado que atravessa gerações — inspirando, ainda hoje, os que acreditam num Brasil Soberano e Solidário
Enfim, desde o espírito revolucionário ao nascimento das forças armadas e a formação da consciência nacional, mais do que seu território, Pernambuco representa a própria ideia de Nação:
- Uma ideia que nasceu antes mesmo do Brasil, como ele é pensado hoje;
- E sobreviveu à fragmentação imposta por interesses alheios ao bravo Povo Nordestino.
Relembrar essas perdas, portanto, não é um gesto de vitimização, mas de reivindicação histórica: quem entende o por quê e o que foi arrancado do mapa de Pernambuco entende também o quanto foi tirado da própria soberania brasileira.
Enquanto houver memória, Pernambuco continuará inteiro — não apenas no mapa das lembranças, mas no coração de um Brasil que insiste em ser grande.

