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Leitura em declínio e o avanço do analfabetismo funcional no Brasil.

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Livros (foto de Marcelo Camargo, ABr)
Livros (foto de Marcelo Camargo, ABr)

Original em: https://monitormercantil.com.br/leitura-em-declinio-e-o-avanco-do-analfabetismo-funcional-no-brasil/

O hábito da leitura entre os brasileiros está em queda. Em um país com mais de 200 milhões de habitantes, o número de não leitores representa 53% da população. O dado desperta preocupação na Semana Nacional do Livro e da Biblioteca, celebrada entre quinta e quarta-feira.

Hoje, o Brasil tem cerca de 93,4 milhões de leitores – quem leu ao menos um livro nos três meses anteriores -, que correspondem a 47% da população. O número é oito pontos percentuais menor do que o registrado em 2007, quando os leitores eram 55% dos brasileiros, segundo a sexta edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, do Instituto Pró-Livro e Ministério da Cultura.

A queda, no entanto, não é apenas percentual. O estudo também aponta para uma diminuição da capacidade de concentração e compreensão, acendendo um alerta sobre o avanço do chamado analfabetismo funcional. A condição, segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), abrange pessoas que até reconhecem letras e números, mas não conseguem interpretar textos simples e usar a leitura e a escrita no cotidiano, o que afeta o desenvolvimento pessoal e a plena cidadania.

Os dados da pesquisa indicam que, além da redução do hábito da leitura, houve declínio na compreensão do que se lê: 36% dos entrevistados admitiram ter alguma barreira de habilidade, como falta de concentração ou compreensão limitada. Além disso, a falta de paciência e de foco para a leitura saltou de 18% em 2007 para 40% em 2024. Para o professor do Departamento de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Adauto Garcia Júnior, uma das explicações para o declínio da leitura é reflexo da informação instantânea, comum na internet e em especial nas redes sociais.

O prazer pela leitura também está em queda. A parcela dos que “gostam muito” de ler caiu de 31% em 2019 para 26% em 2024. Em contrapartida, o número de pessoas que afirmam não gostar do hábito cresceu de 22% para 29%. A pesquisa mostra ainda que há forte correlação com fatores socioeconômicos e educacionais, ou seja, pessoas com ensino superior e renda familiar mais alta têm maior afinidade com a leitura se comparadas àquelas com menos anos de escola e renda baixa.

A relação com o livro muda ainda com a idade: as crianças (de cinco a 13 anos) são as que mais gostam de ler (87%), enquanto a população acima de 50 anos demonstra menor apreço pela leitura (57%). Segundo os entrevistados na pequisa, a principal motivação para ler é o gosto pessoal, seguido por distração e busca por conhecimento, enquanto a obrigação (escolar ou profissional) aparece com pouca relevância.

Garcia Júnior destaca que o gosto pela leitura nasce da curiosidade e do afeto. Ele defende que a presença de livros em casa e o exemplo de pais leitores são fatores com impacto direto e duradouro sobre quem está desenvolvendo o hábito da leitura.

“Para que ele floresça, o livro precisa ser uma experiência viva, capaz de despertar emoção, diálogo e propósito. Pais, professores e líderes têm papel essencial em transformar essa curiosidade natural em hábito, cultivando tanto o prazer do texto quanto a reflexão que ele provoca”, afirma.

Quando questionados sobre o que mais gostam de fazer no tempo livre, os brasileiros são claros: o uso de internet e redes sociais vem muito antes da leitura de livros. Para o professor Garcia Júnior, a competição pela atenção com dispositivos eletrônicos é um dos principais desafios para a formação de leitores.

“Vídeos curtos, jogos e interações em redes sociais oferecem mais gratificações instantâneas que a leitura de um livro, uma atividade que exige maior concentração.”

Fusão entre o físico e o digital – Mestre em Computação Cognitiva, Diego Figueiredo usa um neologismo para definir a leitura hoje: é “fidigital”, segundo ele, uma fusão entre o físico e o digital. Ele concorda com a perspectiva citada pela diretora: o desafio dos educadores não é afastar a tecnologia, mas ressignificar e unir às metodologias de ensino.

“As crianças de hoje vivem em um ambiente de múltiplas telas, estímulos rápidos e comunicação instantânea, e a leitura exige o oposto: atenção, pausa e profundidade. Discordo da ideia de que afastar a tecnologia seja o caminho. Pelo contrário, entendo que o verdadeiro avanço está em compreender como a transformação digital pode se integrar às metodologias de ensino, tornando a leitura parte dessa linguagem moderna”, afirmou Figueiredo.

Para ele, plataformas interativas, jogos narrativos e projetos digitais usados com responsabilidade também podem ser aliados para despertar o interesse e ampliar a compreensão por meio da experiência, principalmente entre os jovens.

Apesar da hegemonia das telas, quando se trata de livros, o papel ainda resiste: 57% dos leitores preferem o formato impresso contra 22% que optam pelo digital. A maioria afirma que consegue se concentrar melhor e compreender a história com mais profundidade no livro impresso, sem interrupções e distrações, como as notificações de mensagens que aparecem na mesma tela em que está sendo feita a leitura.

Uma junção de livros e recursos digitais já vem ganhando espaço na rotina dos brasileiros: os audiolivros (audiobooks). O percentual de pessoas que os escutam cresceu de 20% em 2019 para 23% em 2024, sendo mais valorizados entre aqueles com ensino superior e que já têm o hábito de comprar livros.

O formato levanta debates, mas especialistas o veem como uma ferramenta complementar e alternativa em meio a rotinas sobrecarregadas.

Se a formação de leitores é um desafio, o papel das bibliotecas públicas nesse processo parece cada vez mais fragilizado. Apenas 5% dos entrevistados afirmaram ter nesses espaços sua principal forma de acesso a livros.

Para a maioria dos entrevistados, a imagem das bibliotecas ainda está atrelada a um local silencioso para pesquisa e estudo, uma visão que limita seu potencial como centro de convivência e difusão cultural. O resultado é o esvaziamento desses espaços: 75% dos brasileiros declararam nunca frequentar uma biblioteca, um aumento em relação aos 68% de 2019. Ainda entre públicos que deveriam ser cativos, os números são altos: 49% dos estudantes e 60% dos leitores não frequentam bibliotecas.

Ao contrário do que se poderia pensar, o problema não parece ser a infraestrutura, geralmente bem avaliada por quem a utiliza. A questão reside na percepção e no desinteresse. A percepção sobre a existência de bibliotecas nos bairros piorou: 46% dos entrevistados disseram não haver uma por perto em 2024, contra 20% em 2007.
Embora o Brasil conte com 3.415 bibliotecas públicas, segundo o Ministério da Cultura, para quase metade da população elas são invisíveis. A indiferença também cresceu: ao serem questionados sobre o que os levaria a frequentar mais o espaço, 39% dos não frequentadores responderam “nada”, ante 29% em 2019.

Com informações da Agência Senado

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