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Quando Dick Tocou para Nós. Por Edson Vieira Abdala

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Há viagens que não se medem em quilômetros, mas em acordes.

Aquela manhã em que China e Jorginho deixaram Curitiba parecia feita de promessa e sol novo.

O nevoeiro ainda se deitava sobre os telhados, e o motor do carro soava como um prelúdio.

Não era apenas uma ida a São Paulo — era um retorno a algo maior: à música, à amizade, àquele tempo em que a vida se media em compassos.

Foram conversando pouco, como quem sabe que o silêncio também é parte da melodia.

O asfalto cintilava sob o dia nascente, e as colinas iam se abrindo em azul e ouro.

No rádio, uma canção antiga de Dick Farney, como um presságio.

Chegaram ao meio-dia, quando o sol batia forte sobre os prédios e o ar trazia o cheiro da cidade viva.

Dick os esperava na porta.

Elegante, com aquele sorriso sereno de quem conhecia o valor da pausa entre duas notas. Abraçou-os com a ternura dos reencontros que o tempo respeita.

A casa era um refúgio: cortinas leves, um piano negro reluzindo à meia-luz, e pilhas de discos que pareciam guardar a própria história da música brasileira.

Sem dizer muito, ele se sentou ao piano. Os dedos tocaram as teclas como quem desperta lembranças adormecidas.

A melodia encheu o ar — doce, melancólica, infinita. China e Jorginho se entreolharam; os olhos diziam o que as palavras jamais diriam.

Dick começou a cantar, e a voz, ainda cheia de juventude, parecia atravessar o tempo.

Cantaram juntos.

Cuidaram das notas, riram.

E, quando o último acorde se dissolveu no ar, Dick levantou-se devagar e colocou um disco na vitrola.

O chiado inicial foi como o respirar do mundo antes da música, e então surgiu Frank Sinatra“Fly Me to the Moon.”

A voz de Sinatra, misturada ao perfume do café e ao som distante da cidade, criou um instante perfeito, desses que o coração arquiva sem pedir licença.

Mais tarde, foram ao bar do Eduardo’s, um velho recanto de boêmios, onde o piano cedia lugar ao tilintar de copos e risadas longas.

Falaram de tempos passados, de amores, de palcos, de noites cariocas.

Dick, sempre com aquele olhar tranquilo, deixava escapar frases curtas, mas cada uma delas parecia conter um livro.

Depois, jantaram no restaurante do bar, onde o vinho refletia as luzes da cidade e as vozes se misturavam ao murmúrio distante do trânsito.

A conversa girava como um disco: música, amizade, saudade.

Voltaram tarde, o coração leve, o mundo quieto.

E, quando o dia seguinte começou a nascer sobre a estrada de volta a Curitiba, havia um silêncio bonito dentro do carro.

O tipo de silêncio que não pede palavras — porque tudo já foi dito pela música.

China olhou pela janela e disse, quase para si: — Foi um encontro, só isso… mas parece que vivemos uma vida inteira.

E o rádio, como quem compreendesse, deixou escapar os primeiros acordes de “The Best is Yet to Come.” O sol subia, a estrada seguia, e a vida, outra vez, começava a cantar.

Um microconto em homenagem aos amigos China e Jorginho Natividade

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