O que encontrei, porém, não foi apenas a desolação de 90% de um município varrido pelo vento; encontrei o “surreal”. A resposta do Estado à tragédia não foram telhas, mas fuzis. Uma “quantidade absurda, infinita” de viaturas da RONE desfilou pela cidade destruída, numa “apologia da violência gratuita”. Um teatro do poder para “dar IBOPE” ao governador, cujos atores armados serviam apenas para “assustar cachorros e mendigos da região”.
O que se vê em Rio Bonito é a metáfora do Brasil. Temo que tenhamos cruzado o “ponto sem retorno”. Não creio que minha geração veja “em vida” o retorno a qualquer “acordo democrático de verdade, substancial”. O que nos resta é o “estado do terror”, a “violência pura”. É o triunfo de Tânatos sobre Eros.
O “fetiche coletivo pelos fuzis” é apenas o sintoma mais ruidoso de uma “substituição” cultural profunda. Trocamos o “amor romântico” por “formas artificiais de prazer, não cerebrais, não mentais, não espirituais”; substituímos “as rugas que vêm com o tempo e da experiência” pela face lisa e imóvel do “botox”.
Quando a experiência é apagada e o prazer é artificial, não surpreende que a moralidade pública se dissolva. Chegamos ao ponto grotesco em que, na impressão que fica “cada vez que se vai a Brasília”, os “bordéis… os prostíbulos de beira de estrada são o último negócio legítimo e honesto do país”.
E então, devastado, eu me pergunto: “Será que somos mesmo uma república de pastores estupradores”? “De padres venais que usam a imagem de Jesus para vender favores no céu”? De “juízes declaradamente corruptos e traidores da pátria”?
“Será que é disso que se trata? Essa é a nossa cara, a nossa essência? Só Glauber Rocha que viu?”.
Eu me recuso a aceitar. “Não é possível”. É “inaceitável”, não enquanto eu testemunhar o “trabalho do pessoal do MST, que eu acompanho desde 2003 aqui na região”.
No fim, é na cultura que deposito minha fé. “Eu ainda acredito no poder transformador da cultura”. Lembro-me que “com 15 anos” me converti a essa “grande causa humanitária” ao assistir “‘Eles não usam black-tie’”. Hoje, vejo que “o Brasil tá vivendo um momento bonito” em seu cinema.
Talvez a arte possa nos redimir da barbárie. “Quem sabe”.
Eduardo Fernando Appio é um escritor e juiz federal brasileiro, ex-titular da 13.ª Vara Federal de Curitiba, havia sido designado para atuar nos processos da Operação Lava Jato. Atualmente, Appio está como Juiz da 18ª Vara Previdenciária da Justiça Federal do Paraná
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