São Francisco de Assis fez lá os seus discípulos, mas acredito que não foram muitos.
E me refiro explicitamente ao voto de pobreza.
Na verdade, eu compartilho da crença de que, salvo raríssimas exceções, ninguém é pobre por convicção.
Seja ela religiosa ou de qualquer outra ordem.
E nem por sadomasoquismo.
Indivíduos podem ser pobres por limitações, estruturais e cognitivas, mas não por convicções pessoais.
Todo mundo tem algum plano pra mudar a própria história.
Até o mais conservador entre eles — aquele que se diz ordeiro, trabalhador, temente a Deus e grato ao patrão — guarda no fundo uma faísca revolucionária.
Ele já xingou o sistema no fundo da alma.
Escondido, mas já.
Ele também imagina como seria se todo mundo dissesse “chega” ao mesmo tempo.
Mas a faísca morre afogada no melhor estilo do concurso de beleza keynesiano.
Não é que o pobre não saiba o que é justo.
Ele sabe.
O que ele não sabe — e ninguém sabe — é o que os outros vão fazer.
“Se eu parar, o outro continua.”
“Se eu reclamar, o outro aceita.”
“Se eu romper, o outro se acomoda.”
E assim a mudança social, sobretudo nas bordas do sistema, vira uma loteria comportamental.
A aposta nunca é na justiça, mas na expectativa de que o vizinho vá obedecer ao sistema.
É essa hesitação silenciosa que cimenta o status quo: a crença de que todos os outros vão seguir a cartilha, mesmo quando ninguém mais acredita nela de verdade.
E essa hesitação “vem a calhar” porque ela substitui o emprego direto da violência, o que seria muito mais custoso e barulhento para as classes dominantes.
No fim das contas, o pobre não é conservador por esporte — mas sim por falta de coordenação.
Ele olha pro próprio esforço como quem olha para um balde furado: sabe que não vai encher, mas continua despejando água porque todo mundo ao redor continua também.
Se parar, fica pra trás. Se correr, cansa. Se sonhar, dói.
O sistema capitalista apregoa que a saída é individual, meritocrática, com senha e assinatura digital.
E o pobre acaba acreditando porque todo mundo parece acreditar.
É uma ideologia que funciona como um truque de espelhos: cada um jura que sua vida só depende de si, enquanto todos se refletem mutuamente na mesma impossibilidade.
Assim, a revolução que mora no peito vira imaginação sem concretização.
E o foguete, sempre prestes a decolar, volta a escorregar na plataforma molhada.

