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O foguete, como sempre, molhado (crônica). Por Felipe Cordeiro

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São Francisco de Assis fez lá os seus discípulos, mas acredito que não foram muitos.

E me refiro explicitamente ao voto de pobreza.

Na verdade, eu compartilho da crença de que, salvo raríssimas exceções, ninguém é pobre por convicção.

Seja ela religiosa ou de qualquer outra ordem.

E nem por sadomasoquismo.

Indivíduos podem ser pobres por limitações, estruturais e cognitivas, mas não por convicções pessoais.

Todo mundo tem algum plano pra mudar a própria história.

Até o mais conservador entre eles — aquele que se diz ordeiro, trabalhador, temente a Deus e grato ao patrão — guarda no fundo uma faísca revolucionária.

Ele já xingou o sistema no fundo da alma.

Escondido, mas já.

Ele também imagina como seria se todo mundo dissesse “chega” ao mesmo tempo.

Mas a faísca morre afogada no melhor estilo do concurso de beleza keynesiano.

Não é que o pobre não saiba o que é justo.

Ele sabe.

O que ele não sabe — e ninguém sabe — é o que os outros vão fazer.

“Se eu parar, o outro continua.”

“Se eu reclamar, o outro aceita.”

“Se eu romper, o outro se acomoda.”

E assim a mudança social, sobretudo nas bordas do sistema, vira uma loteria comportamental.

A aposta nunca é na justiça, mas na expectativa de que o vizinho vá obedecer ao sistema.

É essa hesitação silenciosa que cimenta o status quo: a crença de que todos os outros vão seguir a cartilha, mesmo quando ninguém mais acredita nela de verdade.

E essa hesitação “vem a calhar” porque ela substitui o emprego direto da violência, o que seria muito mais custoso e barulhento para as classes dominantes.

No fim das contas, o pobre não é conservador por esporte — mas sim por falta de coordenação.

Ele olha pro próprio esforço como quem olha para um balde furado: sabe que não vai encher, mas continua despejando água porque todo mundo ao redor continua também.

Se parar, fica pra trás. Se correr, cansa. Se sonhar, dói.

O sistema capitalista apregoa que a saída é individual, meritocrática, com senha e assinatura digital.

E o pobre acaba acreditando porque todo mundo parece acreditar.

É uma ideologia que funciona como um truque de espelhos: cada um jura que sua vida só depende de si, enquanto todos se refletem mutuamente na mesma impossibilidade.

Assim, a revolução que mora no peito vira imaginação sem concretização.

E o foguete, sempre prestes a decolar, volta a escorregar na plataforma molhada.

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