
Choveu pacas. Choveu canivetes! Choveu pedras! Desceu dos céus um intenso e cinzento toró daqueles de assustar, pois enfurecido estava o Tupã!
Aos poucos, os kaigangues curitibanos foram chegando à Taba para a reunião onde a Pajelança aos ancestrais e seus inefáveis espíritos iria realizar-se, para retornarem à antiga missão.
Alguns com seus trajes molhados, outros nem tanto. Em pequenos grupos foram se aglutinando sob a proteção do teto da Taba; entre si, reverências e acenos pelo festivo reencontro, após muitas luas separados da Tribo. Lá fora, trovoadas e relâmpagos rasgavam o breu da noite.
Enquanto a chuva e as rajadas de vento retorciam os galhos das árvores próximas, e um som sibilante nos chegava aos ouvidos, ali começávamos a ouvir também o batuque ritmado dos tambores kaigangues, entrelaçado aos sons do vendaval.
Pajés e caciques, homens e mulheres sacerdotisas, jovens guerreiros e alguns curumins aninharam-se em cadeiras improvisadas, ao apagar das luzes e tochas, para ouvir e ver as imagens emanadas daquele cinescópio do homem branco, que lhes trazia imagens e sons de uma saga quase esquecida na memória da resistente etnia.
As imagens e os sons eram relatos gravados em vídeo, de um grupo selvagem e rebelde que fora preso e intimidado, sofrendo violência psicológica e ameaças, nas cadeias dos senhores brancos, há um certo tempo passado, por ousarem — estes kaigangues curitibanos — pensar uma Escola de si para si próprios e seus filhos…
Não! Não!!! Corta… Cortaaa!!!
Esse roteiro não está bom! Os kaigangues já foram dizimados. Sobraram lembranças deles nos documentários do Kozak.
Talvez restem ainda alguns poucos Guaranis no sudoeste do estado. Tudo muito triste!
Vamos a outro filme. Ação!!!
Choveu muito na noite de exibição, neste 18/11/2025.
Porém, uma plateia fiel e seleta, resistente, guerreira e que não se deixará dizimar — ainda atuante e viva! — se reuniu na Rua Nunes Machado, nº 1644, em Curitiba, para ver e rever o Vídeo Documentário “Os 11 de Curitiba”!
Dirigido pelo talentoso e saudoso amigo Valêncio Xavier Nicutillief. Audiovisual produzido por Virginia Moraes e Rubens Gennaro em 1995.
Há 30 anos, com parcos equipamentos e sofrida técnica, conseguimos realizá-lo.
Registros feitos com a qualidade de conteúdo baseado em fatos reais, mencionados pelas vítimas e protagonistas. Tudo sob a batuta e a intuição de Valêncio Xavier.
Relatos preciosos para nossa História. A partir de Edésio Passos, Luis Manfredini, Lígia Cardieri Mendonça, Reinoldo Atem, Walmor Marcelino, Sueli Atem, Leo Kessel, Paulo Sá Brito, Silvia Pires Mendonça, Bernadete Sá Brito, Ana Ribeiro Lange.
Gravados e editados por Valêncio Xavier.
Este, um paulistano de origem judaica.
Misto de italiano, japonês, espanhol, africano, tupiniquim, ziriguindum-paticundum. Egresso da Pauliceia Desvairada — caipira erudito… iluminado pela Semana de Arte de 1922 — com uma câmera na mão — nouvelle vague… Anarquista graças a Deus… libertário… escritor… cenógrafo… diretor do MIS-PR… Criador e/ou gerente da Cinemateca de Curitiba…
Em sua sala no MIS-PR estava pendurado um cartaz com as seguintes frases, que li, reli e ainda não esqueci:
“Você que está chegando agora para criticar o que está feito… deveria ter estado aqui quando estava sendo feito.
Assinado: quem fez!”
O original do vídeo-filme-documentário “Os 11 de Curitiba” eu o cedi à Cinemateca de Curitiba para esta o bem cuidar. A obra é do Valêncio e está sendo restaurada em novas tecnologias. Esperamos rever e reverenciar a memória de Valêncio com melhores qualidades contemporâneas em 2026.
Além do vídeo documentário, o destaque foi o lançamento do primoroso livro “Operação Pequeno Príncipe” (Polícia Política e Marxismo Infantil no Paraná) — um grandioso trabalho de pesquisa do PhD José Abreu.

