A queda do Império Romano levou a Europa a enfrentar seu retrocesso civilizatório.
À época não foi pelo abandono da filosofia da Grécia nem pela ausência da disciplina da vida social pelo direito romano.
Foi pura e simplesmente pela ausência das armas e de exércitos que submetessem os bárbaros e lhe impusesse, pela Bretanha, Gália, ao norte da Europa, pelo “Mare Nostrum” e pelo Oriente, o poder de Roma.
Quando vemos a evolução das comunicações, com a digitalização imposta para o processamento da informação, para transmissão das mensagens, para uso de equipamentos eletrônicos, para miniaturização de suas partes, componentes, e deles próprios, e dos monopólios empresariais e econômicos que se formaram, neste último meio século, no mundo da produção, armazenamento, processamento e transmissão das mensagens, não devemos nos surpreender com as farsas e as doutrinações que o poder financeiro, desde o Consenso de Washington (1989), espalha pelo Ocidente e busca no desejo de dominar todo mundo.
A energia que move o mundo desde o século XVIII, e principalmente a partir do século XX, é a dos combustíveis fósseis; primeiro a do carvão mineral e, em seguida, a do petróleo, nas formas líquida do óleo e na do gás natural.
Doravante ao mencionar petróleo estaremos sempre tratando conjuntamente do óleo e do gás natural.
Não consideramos petróleo o produto resultante do fraturamento hidráulico, ou fracking, que denominamos betume, fruto da técnica de extração que injeta água, areia e produtos químicos, em alta pressão, no subsolo para fraturar rochas de baixa permeabilidade e liberar os hidrocarbonetos ali retidos.
Salvo quando explicita e diferentemente registrado, os dados sobre produção e consumo de energia e petróleo são os divulgados pela Agência Internacional de Energia (AIE, ou IEA na sigla em inglês), organismo com sede em Paris, fundado no âmbito da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).
O consumo total de energia primária, em 2024, atingiu aproximadamente 650 Exajoules (EJ), o equivalente a cerca de 300 milhões de barris de petróleo equivalente por dia (boe/d), os combustíveis fósseis representaram 81,5% e a energia nuclear 5,2%, totalizando 86,7%, ficando todas as demais fontes, inclusive as hidrelétricas e da biomassa com 13,3%.
Isto não significa qualquer maldade ou autoagressão da humanidade, mas a racionalidade econômica que sempre busca a mais eficiente, ou seja, de maior potência energética, e a mais barata de obtenção fonte primária de energia.
Estaria então a humanidade fadada a sucumbir pelo uso do petróleo, ou por sua falta, considerando ser um insumo energético finito?
Claro que não.
Apenas que a denominada transição energética não pode ser realizada com a volta ao passado, com uso do Sol e dos ventos, como não será também possível, como fez a Europa por séculos, destruindo suas florestas nativas, para aquecimento e cozimento alimentar com o carvão vegetal.
Por que esta condenação do petróleo, surgida desde as duas primeiras décadas do século XX?
Tem a ver com o domínio do poder mundial, das guerras, especialmente nas duas que se denominam mundiais, e das disputas ideológicas, capitalismo e comunismo, que atravessaram o século XX e, embora não mais persistam, ainda justificam a ignorância política, a barbárie que o domínio financeiro impôs ao mundo.
O que se disputa no mundo do século XXI é a soberania ou a dependência das nações, dos países, e, consequentemente, na sua capacidade de ter recursos e tecnologia para se governar e satisfazer as necessidades dos seus povos.
As palavras de Xi Jin Ping, em 15 de novembro de 2012, por ocasião da reunião da Comissão Permanente do Birô Político do 18º Comitê Central do Partido Comunista da China, sintetizaram o que a China vinha buscando desde a Revolução iniciada em 1946, vencedora em 1949, e as transformações ocorridas entre 1966 e 1976, Revolução Cultural, o interregno capitalista de Deng Xiao Ping (1978-1989), a modelagem confuciana de Hu Jin Tao (2003 a 2013) e a governança que se iniciaria em 15 de março de 2013: “Nós assumimos essa grande responsabilidade ante o povo.
Nosso povo é um grande povo.
Durante o longo curso da história, o povo chinês, dependendo da sua própria laboriosidade, coragem e sabedoria, criou um belo lar onde as etnias convivem harmoniosamente e cultivou uma excelente cultura com uma longa história, que se mostra a cada dia mais dinâmica.
Nosso povo ama a vida e deseja ter melhor educação, trabalhos mais estáveis, rendas mais satisfatórias, melhor seguridade social, melhores serviços médicos e de saúde, condições habitacionais mais cômodas e um ambiente mais bonito.
Nosso povo espera ainda que seus filhos possam crescer, trabalhar e viver melhor.
A aspiração do povo por uma vida feliz é o objetivo de nossa luta. Toda a felicidade no mundo é resultado do trabalho árduo.
A nossa responsabilidade consiste em unir e liderar o Partido e o povo de todas as etnias do país a continuar emancipando a mente, persistir na reforma e abertura e libertar e desenvolver ainda mais as forças produtivas sociais, resolvendo com grandes esforços as dificuldades das massas populares no trabalho e na vida e seguindo firmemente o caminho da prosperidade comum” (Xi Jin Ping, “A Governança da China I”, 2018, versão em português pelo Foreign Languages Press).
Nenhuma palavra sobre a transição energética, nenhuma queixa sobre a emergência climática, nenhum risco da vida humana na terra pelo efeito estufa e o aquecimento global, cabe à ciência e à tecnologia de um povo com a melhor educação, nível de vida e confiança no futuro encontrar as respostas, não os culpados, principalmente quando estes chineses lhes fornecem as melhores e mais econômicas soluções.
Mas a China dá a resposta do futuro, não do passado, ao ser o único país que já obteve sucesso com a fusão nuclear, em laboratório.
E que vem sendo a COP30, midiaticamente reunida na Amazônia brasileira?
De acordo com a colunista de domingo do jornal O Globo (23/11/2025, página 22): “Há sempre divergência numa COP, mas o que se discutiu em Belém não foi apenas mais um ponto.
Era a questão central: a dúvida se vamos sair de forma ordenada do uso do petróleo e do carvão, ou se preferimos torrar neste planeta e ser varridos por tufões, enchentes, secas”.
E, mais adiante, em sua coluna lê-se: “Para a União Europeia, era constrangedor render-se à Arábia Saudita, Índia e China, por isso ameaçou com a arma que tem: não haveria dinheiro para a adaptação. Depois mudou de ideia”.
E pouco adiante conclui: “Os observadores alertavam que a União Europeia estava mais interessada em segurar o dinheiro do que na agenda mesmo da redução do uso dos fósseis.
Não é mesmo o caso de acreditar em mocinhos.
Mas o vilão é bem conhecido.
Os gases de efeito estufa fizeram o mundo ficar o ano inteiro com a temperatura a um grau e meio acima do início da era industrial, batendo o teto do Acordo de Paris.
O maior responsável, de longe, pelo problema é a queima de carvão e petróleo.
Não haverá futuro sem o abandono dos fósseis”.
O Acordo de Paris sobre o clima foi adotado em 12 de dezembro de 2015 e, naquele ano, a temperatura média global registrou um recorde, sendo o ano mais quente até então.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM), as estadunidenses Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) e Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (NASA) declararam que 2016 teve ainda temperaturas mais elevadas, desde o início das medições em 1880.
O carvão mineral ganha produção significativa a partir de 1760, com a Revolução Industrial, o petróleo passa a ter produção industrial com as descobertas dos irmãos Nobel, riquíssima família sueca, no Azerbaijão, em 1846, e, em 1859, nos Estados Unidos da América (EUA), quando o minerador Edwin Drake, na Pensilvânia, procurando extrair sal do subsolo, fez jorrar petróleo.
Seriam os 255 anos para o carvão mineral e 155 anos para o petróleo mais danosos para o clima terrestre do que a devastação das florestas, na Europa, África e Américas, ocorridas desde 1600, para aquecimento e cozimento alimentar?
Moro há quase 82 anos na cidade do Rio de Janeiro, 76 no mesmo bairro, com eventuais afastamentos devidos ao trabalho, e nunca senti tanto frio quanto neste inverno de 2025.
Meu falecido pai comentava que na sua juventude e início da vida adulta, ocorridos na década de 1920, o Rio de Janeiro era mais frio, que o obrigava a usar colete e chapéu.
De acordo com as estatísticas climáticas do município do Rio de Janeiro, para os séculos XX e XXI, das dez temperaturas mais frias, seis ocorreram nas duas primeiras décadas do século XX e apenas uma no século XXI. Enquanto das dez mais elevadas, quatro ocorreram no século XXI e duas na década de 1990 e outras duas na de 1980, embora houvesse uma em 1925, no bairro de Olaria.
Na realidade, toda esta questão climática foi a arma que as finanças britânicas, que governaram o mundo no século XIX, encontraram para combater a industrialização que lhe tirara este poder e a vencera nas duas grandes guerras da primeira metade do século XX.
A guerra fria não foi entre o comunismo e o capitalismo; foi entre o capitalismo financeiro e o capitalismo industrial, com a vitória do primeiro, na década de 1980, e a divulgação do “Consenso de Washington”, em 1989, a Constituição Mundial do poder financeiro.
Na medida em que progredia na vitória sobre a indústria, esta passava para o controle financeiro, como se vê nas dez maiores empresas do mundo pelos ativos totais:
1) Industrial and Commercial Bank of China (ICBC): frequentemente classificado como o maior banco do mundo em ativos;
2) China Construction Bank (CCB): outro gigante bancário chinês que se mantém no topo;
3) Agricultural Bank of China: terceiro grande banco chinês na lista;
4) Bank of China: o quarto dos “Quatro Grandes” bancos estatais da China;
5) JPMorgan Chase & Co. (EUA): maior banco dos EUA, com mais de US$ 4 trilhões em ativos;
6) Bank of America (EUA): das maiores instituições financeiras estadunidenses por ativos;
7) HSBC Holdings (Reino Unido): grande banco multinacional com presença mundial significativa;
8) Mitsubishi UFJ Financial Group (Japão): das principais holdings financeiras do Japão e do mundo;
9) Wells Fargo (EUA): outro grande banco estadunidense com ativos substanciais; e
10) BNP Paribas (França): dos maiores bancos da Europa.
Não é o clima, não são as ideologias, na verdade quando procuramos o que está por trás das grandes questões, dos grandes embates, bélicos ou quais sejam, sempre iremos encontrar o dinheiro.
E quem mais entende das moedas que os bancos, o poder financeiro, que lhe faz acreditar que está fazendo calor quando você até está sentindo frio!
*Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado

