CARTA ABERTA
A União dos Povos da Amazônia na COP30
A Amazônia sempre foi conhecida pela sua diversidade — de povos, culturas, saberes, cores, rios, florestas e modos de vida.
Mas, apesar dessa riqueza, quem vive aqui sabe: por décadas, os governos olharam para a região de costas, deixando comunidades inteiras entregues à própria sorte, enfrentando desafios que se repetem geração após geração.
Na COP30, realizada em Belém, algo histórico aconteceu.
Pela primeira vez, em muitos anos convivendo e trabalhando na Amazônia — mais de 38 anos — eu vi todos os povos que compõem este imenso território reunidos no mesmo espaço, falando com uma só voz.
Ali estavam indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores, extrativistas, produtores rurais sustentáveis, jovens, mulheres, lideranças comunitárias, religiosas e representantes de todos os segmentos sociais da floresta.
Gente de todas as cores, sotaques e origens.
Gente que vive a Amazônia de verdade — não apenas nos mapas, mas no cotidiano marcado por deslocamentos difíceis, falta de infraestrutura, ausência de políticas públicas, insegurança alimentar e desafios que poucos no resto do país compreendem.
E quando a COP30 terminou, todos saíram com um entendimento claro: somos diferentes, mas os problemas que enfrentamos são iguais.
Vivemos dentro da mesma redoma. Sofremos as mesmas dores.
Compartilhamos as mesmas urgências.
Precisamos de estradas e rios navegáveis.
Precisamos de saúde que chegue antes da doença.
Precisamos de educação que prepare nossos jovens para a vida.
Precisamos de logística que conecte comunidades e oportunidades.
Precisamos de políticas públicas feitas COM a Amazônia, e não PARA a Amazônia.
A COP30 mostrou ao mundo algo que nós, amazônidas, já sabíamos: a floresta não é apenas um conjunto de árvores — ela é povo.
E povo unido é força.
É hora de os governos deixarem de virar as costas e começarem a caminhar junto com aqueles que garantem, todos os dias, que a Amazônia continue viva.
Que esta carta sirva como memória e como alerta: a COP30 não deve ser apenas um evento histórico, mas o início de um novo capítulo.
Um capítulo escrito pelos próprios povos da Amazônia, com dignidade, respeito, participação e voz.
A Amazônia falou. Agora o mundo precisa ouvir.
—
Atenciosamente,
Venceslau Braz
Cooperativa de Crédito de Carbono da Amazônia – CCCA
Presidente
