ESSE TAL MERCADO: DEVEMOS MESMO APOIAR A ECONOMIA EM SUAS OPINIÕES? “Mercado” não diz respeito ao ambiente onde atuam as pessoas, as empresas e os governos em busca de equilíbrio que maximize a economia. Pessoas e governos são apenas considerados as fontes de demanda (consumidores) e as fontes de risco fiscal e regulatório (governos). Esta “entidade” é o consenso agregado das expectativas de um grupo influente: Instituições Financeiras (bancos de investimento, bancos comerciais, gestoras de ativos), Analistas de Mercado (economistas-chefe dessas instituições), Fundos de Investimento (especialmente os de grande porte) e Grandes Investidores Estrangeiros. Seus reais interesses são maximizar o retorno dos ativos sob gestão e proteger seus capitais. Inexiste interesse público para o “mercado”. Desde que protejam seus lucros, o resto não importa. O Boletim Focus é seu principal panfleto. No entanto, a análise de suas previsões revela uma baixa acurácia preditiva para indicadores-chave. Em 18 dos últimos 20 anos as previsões falharam. Em 15 falharam absurdamente. Taxa Selic (Juros): Maior Taxa de Erro: O mercado demonstra grande dificuldade em antecipar as mudanças nos ciclos de política monetária. Exemplo Crítico (2021): O Focus projetou 3,25% a.a., mas o resultado final foi 9,25% a.a., subestimando drasticamente a necessidade de aperto monetário para combater a inflação. Inflação (IPCA): A inflação brasileira é altamente suscetível a choques de oferta (câmbio, commodities). Exemplo Crítico (2021): O Focus projetou 3,34% a.a., mas a inflação real atingiu 10,06% a.a., devido à subestimação da persistência dos choques, como a crise hídrica e os fatores globais pós-pandemia. PIB (Crescimento): Após subestimar a recessão de 2015-2016, o mercado desenvolveu um viés de pessimismo. Exemplos (2022 e 2023): O Focus subestimou a resiliência da atividade econômica. Em 2022, a projeção inicial de 0,28% a.a. foi superada pelo resultado final de 2,90% a.a. O mercado falhou em capturar a força do agronegócio e do mercado de trabalho. A fragilidade preditiva decorre de dois fatores principais: 1) A incapacidade de prever eventos de alto impacto (pandemias, guerras, crises globais) no horizonte de um ano; 2) Ação do BC: As previsões são, em parte, alteradas pela própria ação do Banco Central. O BC ajusta a Selic para “acertar” a meta de inflação, o que, por sua vez, muda o resultado final dos juros e do PIB, invalidando a projeção inicial, mas cumprindo o objetivo macroeconômico. O histórico demonstra que a importância que é dada ao “mercado” está muito acima de sua verdadeira importância, pois quem erra sistematicamente os mesmos temas, não deveria, sequer, ouvido. Mesmo assim, o mercado mantém sua influência sobre o governo e a imprensa, que atuam como cúmplices na defesa dos interesses desses grupos contra os interesses nacionais. Proponho que passemos a dar crédito a essa entidade quando ela atingir 75% de acerto, Antes, deve ser simplesmente ignorada.

