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Líderes Nacional Desenvolvimentistas e a Pedra de Sísifo. Por Ricardo Guerra

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A história do Brasil é marcada por um esforço recorrente — e sistematicamente interrompido — de construção de um Projeto Nacional de Desenvolvimento. 

Como no mito de Sísifo, cada tentativa de empurrar a pedra montanha acima encontra forças poderosas empenhadas em fazê-la rolar de volta. Ou seja, a falta de força contínua para impulsionar o desenvolvimento brasileiro não é destino: é escolha política reiterada.

Getúlio Vargas: o arquiteto do Estado Desenvolvimentista

Getúlio Vargas não foi apenas um presidente ou um líder carismático. Foi o arquiteto do Estado brasileiro moderno. 

Antes dele, o Brasil era uma federação frágil, capturada por interesses regionais e oligárquicos, com um Estado incapaz de planejar o desenvolvimento, regular o mercado ou proteger o trabalho.

A chamada República Velha não produziu um projeto nacional, produziu um arranjo político voltado à exportação primária e à exclusão social — e a ruptura promovida por Vargas foi estrutural, e, ao centralizar o poder político, ele criou as condições institucionais para a construção de um Estado nacional com capacidade real de intervenção econômica:

  • O seu governo, ao contrário do que seus opositores propagam,  não se tratou de um projeto autoritário;
  • Foi a edificação de capacidade estatal em um país que jamais a havia possuído — com Ministérios técnicos, autarquias, conselhos, bancos públicos e empresas estatais que passaram a compor uma engrenagem voltada ao planejamento e à indução do desenvolvimento nacional.

A criação do Ministério do Trabalho, da Justiça do Trabalho, da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e da Previdência Social foi decisiva não apenas do ponto de vista social, mas econômico:

  • Vargas compreendeu que não existe industrialização sem mercado interno, e que não existe mercado interno sem trabalhadores protegidos, organizados e com renda;
  • A valorização do trabalho foi, portanto, um pilar do projeto desenvolvimentista, não uma concessão.

No campo produtivo e estratégico, Vargas lançou os alicerces da industrialização pesada e da Soberania Nacional:

  • A Companhia Siderúrgica Nacional possibilitou a produção interna de aço, condição indispensável para qualquer projeto industrial;
  • A criação da Companhia Vale do Rio Doce assegurou o controle nacional sobre recursos minerais estratégicos;
  • A defesa intransigente da Petrobrás, ainda que concretizada formalmente após sua saída do poder, sintetizou sua visão de que energia é poder, e que sem controle sobre ela não há Nação Soberana.

Vargas também reorganizou a relação entre Estado e capital. Regulou o sistema financeiro, criou instrumentos de crédito público e rompeu com a submissão automática aos interesses externos.

Sua política externa buscou margem de manobra em um mundo em guerra, negociando com pragmatismo, mas sempre preservando o objetivo central de fortalecer a capacidade produtiva nacional:

  • Exatamente por isso, Vargas enfrentou — desde o início — resistência feroz das elites agrárias e do capital financeiro;
  • Como também sofreu forte pressão da imprensa e dos interesses estrangeiros — cujo discurso o definia como populista, autoritário e inimigo da liberdade econômica, inclusive, tornando-se no futuro, o repertório padrão de ataque a qualquer tentativa de construção de um Estado desenvolvimentista no Brasil.

Seu suicídio, em 1954, não pode ser lido apenas como tragédia pessoal: foi um gesto político extremo diante do cerco econômico, institucional e midiático que visava desmontar o Projeto Nacional em curso.

Ao sacrificar-se, Vargas escancarou o conflito entre um Estado voltado ao desenvolvimento e uma elite disposta a sabotar qualquer avanço que ameaçasse seus privilégios históricos:

  • Em suma, Vargas não apenas iniciou a industrialização brasileira;
  • Criou as condições históricas para que o Brasil deixasse de ser apenas economia e passasse a ser Nação.

Foi com ele que o Desenvolvimento Nacional foi tratado pela primeira vez com método, projeto e instituições: sem Getúlio, não teria havido a possibilidade de existência de Juscelino, João Goulart e Geisel desenvolvimentistas, nem seria possível compreender Lula nas duas primeiras décadas do Século XXI.

João Goulart: entra em cena o Povo — as Reformas de Base e o medo das elites

João Goulart herdou e aprofundou o projeto getulista em um contexto democrático instável:

  • Governou com participação popular direta, sindicatos fortalecidos e mobilização social;
  • As Reformas de Base eram o coração de seu projeto — reforma agrária, tributária, educacional, urbana e controle da remessa de lucros.

Goulart buscou enfrentar a desigualdade estrutural e reduzir a dependência externa, ampliando o mercado interno e democratizando o acesso à riqueza.

E, outra vez, a política de valorização do Salário Mínimo, a defesa do controle sobre o capital estrangeiro e o protagonismo do Estado no desenvolvimento colocaram o governo no centro de forte ofensiva conservadora, culminando com o golpe militar de 1964:

  • O golpe de 1964 não foi apenas uma ruptura democrática, foi uma reação direta ao “risco” de o desenvolvimento deixar de ser privilégio e passar a ser projeto popular;
  • As elites temiam, da mesma forma que hoje, que a “pedra” fosse empurrada pelo Povo.

Antes disso, porém, o Brasil havia experimentado um ciclo acelerado de crescimento que revelou, ao mesmo tempo, as potencialidades e os limites de um desenvolvimentismo sem enfrentamento estrutural.

Juscelino Kubitschek crescimento acelerado, sem mudança estrutural: dependência do capital externo e concentração regional

Juscelino Kubitschek conduziu o mais rápido ciclo de crescimento econômico da história brasileira até então, em ambiente democrático, apoiado em planejamento estatal, investimento público e expansão da infraestrutura:

  • O Plano de Metas impulsionou a industrialização, a energia e os transportes;
  • Enquanto a construção de Brasília simbolizou a modernização e a integração formal do território nacional.

Nesse período, a “pedra” do desenvolvimento foi empurrada com velocidade inédita.

Esse avanço, contudo, ocorreu sem o enfrentamento das estruturas históricas que condicionam o subdesenvolvimento brasileiro:

  • A estratégia de ampla conciliação com o capital estrangeiro, com as elites tradicionais e com o sistema financeiro aprofundou a dependência externa;
  • E elevou o endividamento, mantendo intocadas a concentração fundiária, o sistema tributário regressivo e a desigualdade social.

Além disso, o crescimento foi fortemente concentrado regionalmente:

  • A industrialização acelerada se concentrou no eixo Sudeste — sobretudo em São Paulo — reforçando desequilíbrios históricos e ampliando a distância entre o centro dinâmico da economia e as regiões periféricas;
  • O país cresceu, mas não se integrou, desenvolveu-se, mas não se equilibrou territorialmente.

Juscelino demonstrou que o desenvolvimento é possível em ambiente democrático, mas também evidenciou seus limites quando não acompanhado de reformas estruturais, de enfrentamento político e de uma estratégia de desconcentração regional.

A pedra subiu rápido, mas sem ancoragem: bastou a mudança da conjuntura econômica e das correlações de força para que ela voltasse a rolar montanha abaixo.

Ernesto Geisel: em busca por soberania econômica sob um regime de violência

Ernesto Geisel governou o Brasil como chefe de um regime autoritário responsável por perseguições políticas, censura, tortura, assassinatos e desaparecimentos:

  • Essas práticas não foram desvios — eram parte estrutural do Estado que ele comandava;
  • Sob seu governo, crimes como os assassinatos de Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho evidenciaram que a repressão seguia ativa e brutal.

Geisel não pode ser absolvido por essas atrocidades. A chamada “distensão”, que precedeu o movimento de abertura política, foi um processo controlado, sem verdade, justiça ou responsabilização. A repressão foi administrada politicamente, não interrompida.

No entanto, ao mesmo tempo, Geisel foi o último governante brasileiro a conduzir um projeto desenvolvimentista de Estado em grande escala antes da hegemonia neoliberal: o II Plano Nacional de Desenvolvimento representou uma tentativa concreta de reduzir a dependência externa por meio de investimentos em energia, indústria pesada, petroquímica, siderurgia e infraestrutura:

  • Ele compreendeu que sem autonomia produtiva o Brasil permaneceria vulnerável;
  • A expansão da Petrobrás, o fortalecimento das estatais e o acordo nuclear com a Alemanha indicavam uma estratégia clara de soberania energética e tecnológica.

Enfim, a contradição do seu governo foi profunda: o desenvolvimento avançou sustentado por um Estado violento, fechado à sociedade e avesso à democracia

A “pedra” subiu, mas o custo político e humano foi alto — e a queda posterior foi usada como justificativa para o desmonte do próprio desenvolvimentismo.

Lula: a difícil tarefa de empurrar a “pedra” em tempos atuais

Lula representa a tentativa mais consistente de retomar o projeto nacional no século XXI em bases democráticas e inclusivas:

  • Valorização do trabalho;
  • Combate à pobreza;
  • Fortalecimento do mercado interno;
  • Investimento público;
  • E o esforço por manter uma política externa soberana são marcas de seus governos.

O PAC, o fortalecimento do BNDES, o papel estratégico da Petrobrás, a reindustrialização e a política externa ativa e altiva recolocaram o Brasil no mapa do desenvolvimento com inclusão social:

  • Mas os tempos são duros. Lula governa em um mundo financeirizado, com cadeias globais fragmentadas, hegemonia neoliberal consolidada, desinformação massiva e instituições internas corroídas;
  • A margem de manobra do Estado é cada vez mais estreita, e a reação das elites — mais sofisticada.

No seu retorno à Presidência, agora pela terceira vez, Lula encontra um cenário ainda mais adverso: o Estado brasileiro está cada vez mais enfraquecido, sitiado por um congresso hostil, um sistema financeiro com enorme poder de veto, um ambiente digital dominado pela desinformação e uma sociedade polarizada.

A criminalização da política, o ataque permanente ao Estado, o rentismo elevado e a guerra informacional tornam o empurrão a ser dado no desenvolvimento nacional ainda mais pesado do que nunca.

Ainda assim, o seu governo vem tentando retomar pilares centrais para a construção de um Projeto Nacional Desenvolvimentista:

  • A nova política industrial, o redesenho do PAC e a tentativa de recolocar o Brasil como ator relevante no Sul Global indicam que a pedra voltou a se mover;
  • Mais pesada, mais escorregadia, mas ainda empurrada.

Ou seja, nunca a “pedra” foi tão pesada, nunca o terreno foi tão inclinado — e nunca o custo de deixá-la rolar montanha abaixo foi tão alto.

Conclusão

Enquanto o Brasil não enfrentar de forma consciente o conflito entre um Projeto de Nação Soberana e o poder daqueles que se beneficiam do atraso, como no mito de Sísifo, o ciclo se repetirá.

Vargas criou o Estado e colocou a “pedra” em movimento, enquanto Goulart tentou democratizar o desenvolvimento inserindo o Povo decididamente nesse movimento. Juscelino Kubitschek, acelerou sem enfrentar as estruturas. E Geisel buscou soberania econômica sob coerção autoritária. Já Lula, vem tentando retomá-la em um mundo cuja sanha neoliberal é cada vez mais voraz — sob condições históricas e correlações de forças que suplantam seu ímpeto pessoal e determinam uma conjuntura de impotência e quase inoperância.

Enfim, a história mostra que sempre que o desenvolvimento ameaça se tornar inclusivo, democrático e nacional, forças internas e externas se organizam para interrompê-lo.

Romper esse ciclo exige mais do que líderes, exige memória histórica, disputa de narrativa e decisão política coletiva: sem enfrentar esse conflito estrutural, o Brasil seguirá condenado a empurrar a “pedra” do desenvolvimento apenas até onde os privilegiados permitem.

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